O ator ou o dançarino é aquele
que sabe esculpir o tempo. Concretamente: ele esculpe o tempo dando-lhe ritmo,
dilatando ou contraindo suas ações. A palavra “ritmo” vem do verbo grego reo, que significa correr, escorrer.
Literalmente, ritmo significa “uma forma particular de fluir”.
Durante
um espetáculo, o ator-dançarino “sensorializa” o fluxo do tempo que, no dia a
dia, é experimentado de modo abstrato (o tempo medido pelos relógios ou pelos
calendários). O ritmo materializa a duração de uma ação por meio de uma linha
de tensões homogêneas ou variadas. Cria uma espera e uma expectativa.
Sensorialmente, os espectadores experimentam uma espécie de pulsação, uma
projeção orientada para algo que muitas vezes ignoram, um fluir que varia
repetidamente, uma continuidade que nega a si mesma. Ao esculpir o tempo, o
ritmo faz com que ele se torne um tempo-em-vida.
O ritmo
tem suas leis. Da mesma forma que não somos livres para ordenar as sílabas de
uma palavra ou as notas de um pentagrama como queremos, também existem:
sucessões de duração que fazem nascer a sensação do ritmo e sucessões de
duração – muito mais numerosas – que não dão a sensação de ritmo de jeito
nenhum.
Em algumas línguas, por exemplo, o ouvido
percebe uma impressão rítmica quando sílabas breves seguem sílabas longas – e vice-versa
– segundo uma certa ordem (segundo uma métrica), quando frases que são
fortemente acentuadas se alternam com frases sem acento, quando as inflexões da
voz separam as notas fortes de uma melodia de base mais profunda, ou quando o
material sonoro é interrompido por silêncios mais ou menos regulares.
Quando se fala de ritmo, fala-se também de
silêncio ou pausa. Na verdade, a pausa ou o silêncio são o tecido fundamental
sobre o qual o ritmo se desenvolve. Se não se tem consciência do silêncio ou da
pausa, o ritmo não existe. E o que faz com que dois ritmos sejam diferentes não
é o som ou o barulho produzidos, e sim o modo como o silêncio e a pausa são
organizados.
Há um
tipo de fluidez que é alternância contínua, variação, respiração, que protege o
perfil individual, tônico e melódico de cada ação. E há outro que é monotonia e
se parece com a consistência do leite condensado. Este último tipo de fluidez,
ao invés de manter acordada a atenção do espectador, a adormece.
O segredo do ritmo-em-vida, assim como as
ondas do mar, as folhas ao vento, as chamas do fogo, está nas pausas. Elas não
são paradas estáticas,e sim transições, mudanças entre uma ação e outra. Uma
ação termina e o ator a detém por uma
fração de segundos, e assim cria um impulso que é impulso para a próxima ação.
Uma saída para fugir dos esquemas e dos esteriótipos é criar silêncios
dinâmicos: energia no tempo.
Pasiphae (1944) - linoleogravura de Henri Matisse (1869 - 1954)






