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29 de outubro de 2013

A invenção do Nordeste

Estamos em processo e já decidimos nosso tema. Impressionadas com as obras de Adir Botelho, falaremos da Guerra de Canudos em nosso próximo trabalho. Entretanto, não podemos deixar de pensar de onde falamos, e como falar de um lugar tão distante de nosso cotidiano e de uma guerra cheia de mitos e versões (como todas?). O primeiro texto fundamental para entendermos do que falamos e evitar cair em um discurso pré-moldado cheio de chavões foi uma indicação de Marcos Melo, nosso assistente de cena e criação. O texto a seguir é uma releitura e reorganização feita por Ana Cecilia Reis do texto "Nos destinos da fronteira: a invenção do Nordeste (a produção imagético-discursiva de um espaço regional)*" do professor Durval Muniz de Albuquerque Júnior, que têm deslocado nosso pensamento sobre as questões "nordestinas". Essa modificação foi feita com o intuito de dinamizar as perguntas e problematizações do autor para o nosso trabalho na cena:


Como se traçaram as bordas de nossa identidade? 

Como foi traçada a geografia que nos marca e demarca? 

 Em algum momento histórico, a partir de dadas condições. 

Precisamos aprender a cortar os espaços inteiros que nos aparecem como contínuos e naturais, que se afloram e cristalizam. 

Quais condições históricas nos fazem ser brasileiros? 

 Quais condições históricas nos fazem ser nordestinos? 

Qual recorte espacial designa o "Nordeste"?

Quais mecanismos de assujeitamento essa espacialidade põe em funcionamento? 


O Nordeste é uma invenção da modernidade brasileira. Uma invenção reativa. 
Seca. Cangaço. Messianismo. Lutas. 
O Nordeste. 
Recorte espacial preenchido com imagens e textos. 
Máscaras nordestinas. 
Nordeste: espaço da saudade. 
Origem e tradição. acabamento, origem ou retorno.
Imagem de um espaço preso a um tempo contínuo e totalizador. 

O Nordeste de Gilberto Freyre. José Lins do Rêgo. Ariano Suassuna. Cícero Dias. Lula Cardoso Ayres. Portinari. 

Nordeste de árvores gordas, de sombras profundas, de bois achorrentos, de gente vagorosa e às vezes arredondada quase que em sanchospanças pelo mel de engenho, pelo peixe cozido com pirão, pelo trabalho parado e sempre o mesmo, pela opilação, pela aguardente, pela garapa de cana, pelo feijão de coco, pelos vermes, pela erisipela, pelo ócio, pelas doenças que fazem as pessoas inchar, pelo próprio mal de comer terra. 

Mangueiras... paisagem azul e rosa, casas-grandes, fantasmas de bumba-meu-boi, bagaceira, pedra e cal, muralha segura. Saudade de quem migra, terrítorio de revolta. revolução social. teleologia. reencontro no futuro. Verdade do homem perdida na história. Miséria e injustiça social. Revolta primitiva, Alienação e consciência. Areia seca rangendo debaixo dos pés. Paisagens duras doendo nos olhos. Mandacarus, bois e cavalos angulosos. Sombras leves como umas almas do outro mundo com medo do sol. Vidas secas, homens e bichos vultos compridos que se arrastam entre a poeira das estradas. 

Nordeste do menino morto na rede, das figuras expressionistas de esqueletos que erguem seus braços, só ossos, para os céus e derramam compridas lágrimas que saem de seus olhos vazados. Deus e Diabo.Beato e cangaceiro. pobres, severinos amarelos, velhas cidades barrocas, heróis populares, negro sensual e sábio, capitães de areia. Lampião. 

Nordeste, seara vermelha. 

A experiência não é a fundadora da verdade. É produto de dadas condições de possibilidade.

O regional não é limite. É ponto de partida.

OBS: Texto original disponível em: http://pt.scribd.com/doc/140278557/Nos-Destinos-Da-Fronteira


Obra de Adir Botelho: Morte de Antônio Conselheiro, 2001 - carvão sobre papel, 50 X 70 cm

21 de outubro de 2013

Em processo: Barbárie e Espanto em Canudos (por Ana Cecilia Reis)

Em meados de 2012, me deparei com a exposição Barbárie e espanto em Canudos do artista plástico e professor Adir Botelho. Pensei que seria mais uma daquelas exposições ilustrativas históricas, mas fiquei realmente impressionada ao me deparar com as xilogravuras do artista. O que mais me surpreendeu foi a maneira com que ele trabalhava esses corpos na guerra. Como o meu trabalho na Cia é efetivamente a busca por um corpo expressivo, fiquei impactada com o trabalho de Adir que trazia exatamente esse efeito na tela, a partir de um trabalho de oposições, desequilíbrios, composições cênicas que destacavam o movimento e ao mesmo tempo a imobilidade. Imediatamente comentei a exposição com a Caju Bezerra, atriz da Cia, que se mostrou muito empolgada com minha descrição. Naquela época estávamos em busca de algum artista que pudéssemos começar um trabalho baseado em mimese corpórea a partir de imagens, e o trabalho do Adir desde então tem nos servido de exemplo e inspiração.

Percebemos através do deslocamento das imagens para o nosso corpo, toda a riqueza de suas composições, e, é um prazer perceber a expressividade contida nos elementos bases que estudamos (tais como desequilíbrio, peso, oposição, sustentação) em outra linguagem. Esse é apenas o começo do nosso trabalho, que tem nos levado à pesquisa da história de Canudos em diversas vertentes e à descoberta de personagens incríveis escondidos em cada expressão das xilogravuras do artista. É através dessas imagens que construiremos nossa dramaturgia do corpo e da cena, e o processo é desafiador e instigante!


Em breve descreverei mais sobre esse processo, abaixo algumas fotos de nosso treinamento baseado nas imagens da exposição do Adir Botelho: 


Obra: Enforcado (1978)



Obra: O canhão (1986)




Obra: Ímpeto (1981)


Obra: Transe (1981)