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29 de dezembro de 2020

Estudos...

 O processo da descoberta do clown pessoal provoca a quebra de couraças que usamos na vida cotidiana. (...) Mais do que formas estereotipadas, o que causa o riso são as manifestações autênticas advindas da sensação de desconforto e insegurança do clown diante do público. O clown toma consciência de sua estupidez logo após ter sido estúpido; por isso ele é triste. As risadas do público fazem com que ele se aprofunde na sua própria dor. Se o clown rir, o público não ri. Para o público rir, o clown chora. Engibarov, clown russo, diz: “O clown faz tudo, sempre, seriamente. Por certo, isto não significa que não queira ser cômico. Ao contrário, sua meta é fazer rir. Mas o verdadeiro cômico consegue isso sem tentar fazer rir a qualquer preço”.

Luís Otávio Burnier, em A arte de ator: da técnica à representação.


Imagem: Os palhaços Teotônio e Carolino, em Cravo, Lírio e Rosa do Lume Teatro

6 de dezembro de 2020

Inspirações: Meierhold

 

“Ensaiando. Quem, mais leve e mais jovem do que o mais jovem, improvisa uma dança em cena, quem voa sobre o praticável dando mostras de um ímpeto de adolescente? Meierhold em seus 60 anos. [...] Quem chora em cena, representando o papel de uma jovem de 16 anos que foi maculada? E os alunos, prendendo a respiração, olham a cena, sem ver seus cabelos brancos nem o nariz pronunciado: eles veem diante de si uma moça de gestos juvenis e femininos, ouvem as entonações tão cristalinas, tão inesperadas que as lágrimas que afloram aos olhos de cada um se misturam à alegria de um entusiasmo sem limites diante desses ápices geniais da arte do ator [...] Quem nunca viu Meierhold ensaiando ignora o que há de mais precioso nele.”

Igor Ilinski, retirado do livro A cena em ensaios de Béatrice Picon-Vallin

 

24 de novembro de 2020

Antígona Cartunizada

Fomos apoiadoras do trabalho do artista Pedro Naine e recebemos a versão de uma foto do espetáculo "A Arte de Enterrar seus Mortos" cartunizada. Essa é a cena do julgamento de Antígona, e os traços foram inspirados na obra de Yoshitaka Amano.

Também quer ser cartunizada (o)? Entra lá na página dele pra conhecer mais o trabalho e na plataforma do apoia.se/pedronaine
Adoramos!




23 de novembro de 2020

Em processo: Através do espelho: caminhos para uma atuação autoral

Estamos preparando um material inédito, com reflexões sobre possíveis caminhos para uma liberdade e consciência de atuação! 

Em breve teremos novidades! 








19 de novembro de 2020

Difíceis existências: Florbela Espanca na FLIPE



Esse sábado, 21 de novembro, às 11h, estaremos conversando sobre a poeta Florbela Espanca, sobre literatura, poesia, feminismo, teatro, existências periféricas e trajetórias independentes no Festival Literário da Periferia de Pernambuco.

Uma oportunidade muito bacana de celebrar a existência da poeta portuguesa que deixou o mundo por vontade própria aos 36 anos de idade, mas que se tornou imortal com seus escritos. 

Até lá! 




1 de novembro de 2020

Diário do último ato vencedor do Prêmio Maestro Guerra Peixe 2020

 É com muita honra e alegria que recebemos o Prêmio Maestro-Guerra Peixe de Cultura 2020!

Quando a Cia Plúmbea foi fundada, em 2013, seu principal interesse era o trabalho continuado, apresentar peças que partissem de uma pesquisa e que possuíssem uma identidade, sem perder de vista a comunicação com o público, partindo de temas, imagens, dramaturgias e personagens que merecessem um tempo em comum compartilhado.
Que felicidade receber esse reconhecimento da cidade com um trabalho que fala de uma mulher tão gigante e transbordante como Florbela Espanca.
Em tempos de isolamento, a iniciativa de seguir com a premiação de forma online foi um momento de união, de afeto, e toda a transmissão foi encaminhada com muito carinho, capricho e sensibilidade! Obrigada à toda a organização por isso!
Agradecimentos ao Centro Nacional de Cultura de Portugal, que tornou essa produção possível, à Casa de Cultura Claudio de Souza, por abraçar a nossa estreia, à Mostra de Teatro de Petrópolis, que nos convidou para fazer parte da programação, e assim possibilitou o acesso ao trabalho de mais integrantes da comissão julgadora, e à todos e todas que nos incentivam diariamente, nossos familiares, a tantos e tantas artistas que trocam referências conosco, que acreditam no trabalho coletivo, que passam “perrengue” sem esmaecer, que emprestam material e mão de obra, que correm atrás de seus sonhos, de mãos dadas, segurando entre os dentes a primavera!
Diário do último ato é um espetáculo feito por Ana Cecilia Reis, Ronaldo Ventura e Patricia Almeida, cada qual com sua especialidade, sem essa união, ele não seria o que é.
Nosso profundo agradecimento, parabéns à todos os trabalhos indicados e que a arte e a cultura petropolitana possam se fortalecer cada dia mais!






7 de setembro de 2020

Inspirações: Grotowski fala sobre o Teatro Laboratório

 "O que é para mim o Teatro Laboratório? 

Em princípio era um teatro. Depois era um laboratório. Agora é um lugar em que tenho a esperança de ser fiel a mim mesmo. É um lugar em que espero que cada um dos meus companheiros possa ser fiel a si mesmo. É um lugar em que o ato, os testemunhos dados pelo ser humano serão concretos e corpóreos. Onde não se pesquisa alguma ginástica artística, alguma surpresa acrobática, nem o training. Onde ninguém quer dominar o gesto para exprimir algo. Onde se quer ser descoberto, desvelado, nu; sincero com o corpo e com o sangue, com a inteira natureza do homem, com tudo aquilo que podem chamar como quiserem: intelecto, alma, psique, memória e coisas semelhantes. Mas sempre trangivelmente, por isso digo: de maneira corpórea, porque tangível. É o encontro, ir ao encontro, ser desarmado, não ter medo um do outro, em nada. Eis o que eu gostaria que fosse o Teatro Laboratório. E não é essencial que se chame de Laboratório, não é essencial se em geral for chamado de teatro. Um tal lugar é necessário. Se o teatro não existisse, encontraríamos um outro pretexto".

Jerzy Grotowski




31 de agosto de 2020

Teatro e Artes Visuais

As artes visuais podem servir de inspirações plásticas para criações cênicas. Elas podem estimular a criação de imagens e histórias, estados emocionais, movimentos, ritmos, etc.

Já tentou representar a sensação do amarelo em um quadro de Van Gogh?
Ou o sentimento azulado de um quadro de Hopper?
Já olhou para um quadro ou escultura e não conseguiu tirar os olhos? O que será que nos prende? Já tentou mimetizar corpos não realistas?
É possível começar a expandir o olhar e enxergar dramaturgia para muito além do texto escrito!



























Fotos: Cena de "Terrabatida: Reminiscência de Canudos" - inspirada na xilogravura de Adir Botelho e cena de "Diário do último ato" inspirada nas sensações de "Rooms by the Sea" de Edward Hopper.


21 de agosto de 2020

Das possíveis definições de teatro...

 

[…] teatro significa um tempo de vida em comum que atores e espectadores passam juntos no ar que respiram juntos daquele espaço em que a peça teatral e os espectadores se encontram frente a frente [...]. A representação teatral faz surgir a partir do comportamento no palco e na plateia um texto em comum, mesmo que não haja discurso falado. Desse modo, uma descrição pertinente do teatro está ligada à leitura desses textos em comum. (LEHMANN)


Foto: Guido Artes 

Espetáculo: Diário do último ato 

20 de julho de 2020

Inspirações...

"Caneta, sinto-me como em casa em sua tinta, dando uma pirueta, misturando as teias, deixando minha assinatura nos vidros da janela. Caneta, como pude alguma vez ter medo de você? Você não tem casa, mas é sua impetuosidade que me deixa apaixonada. Tenho que me livrar de você quando começar a ser previsível, quando parar de perseguir diabinhos. Quanto mais você me supera, mais eu a amo. É quando estou cansada, ou quando tomei muita cafeína ou vinho que você ultrapassa minhas defesas e digo mais do que pretendia. Você me surpreende, me choca quando revela alguma parte de mim que mantive em segredo de mim mesma."

Gloria Anzaldua


(Não encontramos a autoria da imagem, se souberem, entrem em contato ou informem nos comentários. Obrigada!) 

12 de julho de 2020

Lapsos processuais de enclausuramento (por Ana Cecilia Reis)

E se de repente, nossa vida se resumisse às memórias dos eventos que já vivemos? Nada de novo aconteceria mais. Nos encontraríamos e nosso maior prazer seria ficar relembrando, com o máximo de detalhes, todas as vezes que o acaso (ou o destino) nos pregou peças inesperadas, todas as vezes que perdemos as estribeiras, rimos, brigamos, nos deixamos levar pelas paixões, nos perdemos, nos encontramos, um tombo, a vergonha, uma vitória, o prêmio, o dia em que aquele conhecido apareceu no Jornal...
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Era sobre isso que eu pensava enquanto via os olhos de minha avó brilhando, enquanto contava sobre sua juventude. Assim é a vida de quem fica preso no passado, de quem vive pelas histórias, suas ou dos outros porque acha que tudo que passou sempre é mais colorido, feliz, verdadeiro, do que a realidade presente.
Os olhos de minha avó eram geralmente pálidos, aguados e voltados para o chão, pareciam estar para sempre presos à uma espécie de angústia, de não se reconhecer naquele quarto, naquele corpo. Sua voz e seu olhos só se acendiam quando ela encontrava alguém para falar sobre o seu passado. Então, como alguém que utiliza uma droga estimulante, ela era até capaz de dançar! (esquecia que suas pernas doíam, que sua coluna era frágil). Dançava, falava, cantava e ria, relembrando dos amigos e amores, que já partiram. Bastava pouco, bastava alguém perguntar. Mas era raro que alguém perguntasse. Eu mesma só perguntei agora. Presa aqui. Nesses dias iguais. Porque me vi também relembrando (a nostalgia não escolhe idade). Mas não durava muito. Logo a lembrança-vento atravessava o rosto de minha avó, percorria a sala e saía pela janela. Então, o silêncio gritado da televisão ou do rádio voltava a preencher o ambiente e a gravidade fazia seu papel, murchando as expressões.
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Não há nada para fazer. Há muito o que fazer. Não há por que planejar. Esse é o momento de planejar. Eu tenho todo o tempo do mundo. Tudo parece demorar.
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Minha avó me parece uma triste figura irônica e melancólica de um filme do Fellini. Minha avó é personagem de uma dramaturgia que jamais irei escrever.


Figura só - Tarsila do Amaral

1 de julho de 2020

Inspirações...

"Por que sou levada a escrever? Porque a escrita me salva da complacência que me amedronta. Porque não tenho escolha. Porque devo manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome. Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você. Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias. Escreverei sobre o não dito, sem me importar com o suspiro de ultraje do censor e da audiência. Finalmente, escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior de não escrever."
Glória Anzaldua

19 de junho de 2020

Diário de construção de um ato II: (breves relatos de processo por Ana Cecilia Reis)

Dando continuidade aos escritos sobre a criação do espetáculo “Diário do último ato” (o primeiro pode ser lido aqui), hoje gostaria de compartilhar uma técnica que utilizamos para maior controle das nuances das emoções apresentadas no texto.
A dramaturgia parte dos escritos pessoais de Florbela Espanca, organizados e “costurados” por Ronaldo Ventura. Nesses solilóquios dos últimos momentos da personagem antes de se matar, trabalhamos com estados de transição do luto. Por exemplo: Raiva, Barganha, Depressão, Aceitação...
Ronaldo pediu que eu escolhesse em quais momentos eu gostaria de trabalhar esses sentimentos no texto e criar uma respiração específica para cada um deles.
Você já parou para analisar como fica a sua respiração quando você está dominada pela raiva, pelo desânimo, quando está tentando negociar algo, ou na expectativa da chegada de alguém que você está apaixonada? É muito interessante olhar para dentro e investigar o ritmo dessa respiração, ela chega até a ter temperaturas diferentes! E a partir disso, como você costuma falar nesses estados? Cada respiração te dará um tom, uma musculatura facial e uma energia para trabalhar com as palavras que irá reverberar nos seus movimentos corporais.
É importante perceber o quanto a respiração pode colorir um texto, e servir também como um “energético” para os movimentos. Lembrando que é preciso investigar fundo, sem estereótipos, tentar rememorar essas sensações e sentir como você respira em determinadas situações. Existem pessoas que quando estão com muita raiva explodem e gritam, mas existem outras que se contêm e rangem os dentes, então, não existe um caminho único, e é preciso sempre trabalhar honestamente, sem se preocupar com efeitos cênicos, deixe isso para a direção posteriormente (mesmo que você mesma esteja se dirigindo). Como atuante, considero essas autodescobertas a parte mais preciosa do processo.
Através dessa consciência da respiração, você pode chegar à estágios muito orgânicos de atuação, sem se preocupar se “está” ou “não está” na personagem, pois a sua respiração não tem como mentir, e você pode exercitá-la sempre, resgatando essas sensações.
Voltando à minha experiência: a partir dessa conexão com o estado de respiração de cada etapa do luto, a dinâmica do texto pedia que eu falasse diretamente para o público, e a cada encontro com as pessoas, elas me davam o retorno através de seus olhares, disponibilidades e respostas à minha fala, que iam conduzindo minha própria emoção. Como se, por exemplo, a respiração depressiva pudesse ir para um lugar mais emotivo, choroso, ou mais frio, distante, ou ainda, mais terno, acolhedor, sempre a partir do contato com a resposta do (a) outro (a). Isso foi muito novo para mim como atriz, porque não havia "dosagem" de emoção pré-concebida, eu poderia me emocionar com mais ou menos intensidade em momentos diferentes, a depender da energia doada da plateia!
Bem, esse é o relato de hoje.
Lembrando que a Cia Plúmbea tem como objetivo a investigação das técnicas e da ética do ofício de atuar, estamos à disposição para conversar mais detalhadamente com quem tiver interesse em conhecer mais sobre os nossos processos, e espero que, em breve, possamos nos encontrar para praticar através de demonstrações de trabalho e oficinas.
Importante citar que esse processo foi conduzido pelo Ronaldo Ventura, grande parceiro em minha trajetória como atriz.
Até a próxima!
Beijos e abraços!
Foto: Guido Artes
    

6 de junho de 2020

A questão que se coloca...

"O que é grave
É sabermos
que atrás da ordem deste mundo
existe uma outra
Que outra?
Não o sabemos.
O número e a ordem de suposições possíveis
neste campo
é precisamente
o infinito!
E o que é o infinito?
Não o sabemos com certeza.
É uma palavra que usamos
para designar
abertura
da nossa consciência
diante da possibilidade
desmedida,
inesgotável e desmedida.
E o que é a consciência?
Não o sabemos com certeza.
É o nada.
Um nada
que usamos
para designar
quando não sabemos alguma coisa
e de que forma
não o sabemos
e então
dizemos
consciência,
do lado da consciência
quando há cem mil outros lados.
E então?
Parece que a consciência
está ligada
em nós
ao desejo sexual
e à fome.
Mas poderia
igualmente
não estar ligada
a eles.
Dizem,
é possível dizer,
há quem diga
que a consciência
é um apetite,
o apetite de viver:
e imediatamente
junto com o apetite de viver
o apetite da comida
imediatamente nos vem à mente;
como se não houvesse gente que come
sem o mínimo apetite;
e que tem fome.
Pois isso também
existe:
os que tem fome
sem apetite;
e então?
Então
o espaço do possível
foi-me apresentado
um dia
como um grande peido
que eu tivesse soltado;
mas nem o espaço
nem a possibilidade
eu sabia exatamente o que fossem,
nem sentia necessidade de pensar nisso,
eram palavras
inventadas para definir coisas
que existiam
ou não existiam
diante da
premente urgência
de uma necessidade:
suprimir a idéia,
a idéia e seu mito
e no seu lugar instaurar
a manifestação tonante
dessa necessidade explosiva:
dilatar o corpo da minha noite interior,
do nada interior
do meu eu
que é noite,
nada,
irreflexão,
mas que é explosiva afirmação
de que há
alguma coisa
para dar lugar:
meu corpo.
Mas como,
reduzir meu corpo
a um gás fétido?
Dizer que tenho um corpo
porque tenho um gás fétido
que se forma em mim?
Não sei
mas
sei que
o espaço,
o tempo,
a dimensão,
o devir,
o futuro,
o destino,
o ser,
o não-ser,
o eu,
o não-eu
nada são para mim;
mas há uma coisa
que é algo,
uma só coisa
que é algo
e que sinto
por ela querer
SAIR:
a presença
da minha dor
do corpo,
a presença
ameaçadora
infatigável
do meu corpo;
e ainda que me pressionem com perguntas
e por mais que eu me esquive a elas
há um ponto
em que me vejo forçado
a dizer não,
NÃO
à negação;
e chego a esse ponto
quando me pressionam,
e me apertam
e me manipulam
até sair de mim
o alimento,
meu alimento
e seu leite,
e então o que fica?
Fico eu sufocado;
e não sei que ação é essa
mas ao me pressionarem com perguntas
até a ausência
e a anulação
da pergunta
eles me pressionam
até sufocarem em mim
a idéia de um corpo
e de ser um corpo,
e foi então que senti o obsceno
e que
soltei um peido
de saturação
e de excesso
e de revolta
pela minha sufocação.
É que me pressionavam
ao meu corpo
e contra meu corpo
e foi então
que eu fiz tudo explodir
porque no meu corpo
não se toca nunca"

Texto-poesia retirado de uma transmissão radiofônica - intitulada "PARA
ACABAR COM O JULGAMENTO DE DEUS" de Antonin Artaud
Imagem: desenho de Antonin Artaud


25 de maio de 2020

Conservar a confiança de sua liberdade. Anotações mentais de uma quarentena (2)

Cuidado para não cair nas garras do capitalismo estético produtivista com suas pulsões artísticas. Estamos em uma pandemia, pessoas estão morrendo, outras passam fome e existem aquelas que não têm onde enterrar os seus mortos. Perceba se sua ideia de produção artística não é uma tentativa de surfar em uma onda mórbida, repetindo modelos que em outros momentos você criticaria. Que as ações partam de vontade própria e não de um olhar angustiante de não querer ficar para trás.
Estamos há pouco mais de dois meses parados. Você já levou muito mais tempo do que isso para produzir um espetáculo. Pense como uma oportunidade de se aprofundar em questões que nunca teve tempo antes. Estudar, pesquisar, fazer exercícios, ver vídeos de espetáculos, escrever, fazer uma reunião com aquela pessoa que você admira para vocês trocarem ideias, assistir à debates, enfim, inspirações para o presente e para criações futuras, tendo possibilidade de estar em um palco ou não. Acredite, as ideias virão, mas quanto mais você se pressionar, maior é a tendência à frustração. Esteja aberta para o que surgir, mas não procure desesperadamente. Fique confortável em não produzir nada. Foi você que determinou a sua profissão, não foi ela que moldou quem você é. Toda aquela força criativa de quem escolheu existir no mundo pela arte ainda está aí dentro, só está esperando você se afastar da pressão produtivista sistemática que engole à (quase) todos.
Permita-se estar em silêncio, que é diferente de estar silenciada. Para que novas e potentes coisas possam surgir elas precisam de distanciamento, elas precisam ser observadas de muitos ângulos, não é necessário saber absorver esse momento agora, o que é o hoje ou o que será o amanhã, porque ninguém, absolutamente ninguém sabe, e nesses momentos talvez seja necessário se perguntar o quanto você sabe do ontem. Ainda existe muito para se pensar sobre o ontem, sobre o já produzido. Você não teve tempo ainda de olhar, ou passou rápido demais por ele.
Eu gostaria muito de ter a capacidade de olhar com mais calma para as coisas. Eu ainda não sou capaz de devorar esse instante que eu não sei o que é. E eu não preciso ser. Eu não quero ser. É a potência do que eu posso não fazer. Eu confio na minha liberdade.
(Ana Cecilia Reis)

11 de maio de 2020

Uzume

Segue um trecho da apresentação do livro Corpos em fuga, corpos em arte por Renato Ferracini:

“Em algum lugar do Japão mítico, Amaterasu, deusa do Sol, enfurecida pelas travessuras do irmão, esconde-se em uma gruta e priva o mundo e os próprios deuses de sua luz divina. Uma reunião é realizada e muitos deuses vão até a gruta tentar dissuadir Amaterasu a sair para que o mundo conviva novamente com a luz. Alguns entoam canções sagradas, outros tocam instrumentos mágicos, mas Amaterasu está irredutível. A deusa Uzume, então, prende suas vestes, amarra uma faixa em torno da testa, sobre em um grande barril e começa a dançar e bater os pés. Com essa dança Uzume entra em êxtase e desnuda os seios e as partes íntimas. Nesse momento, os outros deuses, vendo a situação na qual se encontra Uzume, soltam uma grande gargalhada. Amaterasu sai da gruta para ver o que está acontecendo, trazendo sua luz novamente ao mundo e palavras sagradas impedem que ela retorne.
O corpo em êxtase, o corpo em dança, o corpo em ação restaura a luz”.
Uzume é a deusa da chuva, felicidade, dança e riso.
Deusa da felicidade que enfrenta períodos de dificuldade com serenidade.
Deusa da dança a qual representa a libertação dos limites.
Deusa do riso relaxando a si mesma e aos outros para os desafios da vida.
Desejamos que a alegria e a disposição encontre a todos nesse momento tão difícil.
Estamos juntxs!


5 de maio de 2020

Velhas indagações para novos projetos

Como nós, mulheres ocidentais, lidamos com nossos sentimentos atualmente? Fomos estimuladas na infância pelos contos de fadas a esperar um príncipe encantado e sermos competitivas umas com as outras, amedrontadas com a menstruação, com a possibilidade de engravidar na adolescência e ser renegada pela família, defendendo-nos dos assédios e atentas às ameaças de estupros vindos das ruas escuras na madrugada ou de dentro de nosso próprio lar, sem entender direito nossos corpos e nossas possibilidades de prazer, limitando nossos objetivos profissionais e priorizando dedicação plena aos relacionamentos amorosos e à aparência, etc... Passamos por tudo isso, e hoje buscamos a liberdade, a desconstrução. Mas onde guardamos nosso coração? Será que superamos as expectativas, esquecemos os traumas, ignoramos o tempo que passa e tira nossa aparência juvenil, grande característica que nos torna objeto de desejo e muitas vezes dita a nossa importância como presença no mundo?


Imagem: A filha do policial, de Paula Rego.

28 de abril de 2020

Haverá fundo nesse poço em que nos atiraram?

"Banalizada por força da pandemia, a morte descartável agride a nossa dignidade humana. São tétricas as cenas de corpos coletados por caminhões frigoríficos e coveiros vestidos como astronautas. Nem cães e gatos domésticos merecem igual tratamento.
Cinco séculos antes de Cristo, Sófocles tratou do tema em sua célebre peça de teatro, Antígona. Creonte, rei de Tebas, proibiu que Antígona sepultasse seu irmão Polinices. O governante queria que o corpo permanecesse exposto à voracidade de aves e cães. O horror visava a inibir os pretendentes ao trono, como mais tarde fariam os romanos com suas vítimas crucificadas no tempo de Jesus.
Antígona, levada à prisão, pôs fim à vida antes de saber que o sábio Tirésias convencera Creonte a libertá-la e permitir o sepultamento do corpo de Polinices. Tal como, cinco séculos depois, José de Arimateia convenceria Pilatos a consentir que ele desse túmulo ao corpo de Jesus descido da cruz.
Ao escárnio de ver seu irmão insepulto, Antígona preferiu morrer. Agora, ao nos obrigar a tratar os mortos como mero refugo, a pandemia mata em nós um dos mais fortes atributos da condição humana. A ponto de os povos indígenas insistirem em jamais abandonar a terra na qual sepultaram seus antepassados.
As imagens são lúgubres: corpos previamente encaixotados atirados em covas sem identificação, enquanto os entes queridos do falecido miram à distância, impedidos de se aproximar para o adeus definitivo, imobilizados pela força necrófila de Hades, o deus do reino dos mortos.
Na guerra, morre-se distante da família e muitos corpos são enterrados em locais ignorados. Porém, ao menos, em tempos de paz, as vítimas merecem um mausoléu do soldado desconhecido. Haverá um monumento em memória das vítimas da Covid-19? Ou serão relegadas ao esquecimento, transformadas em frios números nas estatísticas oficiais, como mortos desaparecidos? No Dia de Finados, onde depositar as flores em memória do ente querido falecido?"
Frei Betto



Imagem do espetáculo "A Arte de Enterrar seus Mortos", repertório da Cia Plúmbea, por Rodrigo Domit.

20 de abril de 2020

Cinzas e diamantes



"Como uma chama alcatroada que queima
expandes em torno fagulhas crepitantes.
Sabes, ao menos, se ardendo, tornas-te livre,
ou se apressas o desastre de tudo aquilo que foi teu?
Se de ti restarás somente um punhado de cinzas
levadas embora pela tempestade, ou encontrar-se-á
no mais profundo das cinzas um diamante estrelado
promessa e penhor de vitória eterna?"

Cyprian Norwid

9 de abril de 2020

Aceitar a pausa teatral. Aprendizados de uma quarentena.

O fazer teatral só se justifica enquanto presença física. Não estou falando aqui das novas possíveis experimentações de linguagens dentro das Artes Cênicas, mas sim desse fazer que só se justifica enquanto criação, processo e resultado a partir do contato com o outro. O teatro tem uma coisa tão humana no seu fazer que se você filmá-lo ele se transforma em uma coisa completamente diferente, e, mesmo ainda sendo possível acompanhar a história ou proposta estética de uma montagem por vídeo, no fundo sabemos que estamos vendo um simulacro sem alma, porque é nessa estranha conexão presencial que a magia do teatro acontece. É assim que funciona.
Então, me deparo agora com essa grande pausa da pulsão que me move diariamente: Ensaios. Pesquisas. Encontros. Conversas. Espetáculos. Não consigo pensar em agir, porque também quero me permitir encontrar uma potência na não-ação. Ainda mais quando qualquer ação em sua maioria se resume ao virtual. Já faz tempo que me sinto sufocada de informação, de bate-papos, de “lives” de imagens, de vídeos, das redes sociais. E era exatamente nesses momentos que começava a me propor um resgate do palpável: imprimia fotos de minha última viagem, tentava ler livros com todas as telas desligadas, e claro, nunca parava de fazer teatro, a arte que mais precisa do contato e da presença real.
Esse não é um texto que vai dizer o que fazer justo no momento onde o encontro, que é a força que gera o meu trabalho, é a mais nociva para a transmissão do vírus. Poderia tentar ser útil aqui e ganhar alguns “likes” e parcerias dando dicas de livros, de composições, de dramaturgias, de projetos de pesquisa para uma possível graduação ou pós, mas nesses dias provavelmente isso já foi exaustivamente pensado e compartilhado.
Esse texto é só para que eu diga para mim, e para quem chegou até aqui, que está tudo bem pararmos (se você tem esse privilégio). Que está tudo bem não fazer nada nesse momento. Observar, abrir um baú de memórias do que já se foi feito. Permitir imaginar futuras trajetórias.
E é acreditando na impermanência do que se faz e se desfaz a cada momento, como ao assistir uma peça de teatro que jamais irá se repetir, que vamos passar por isso. Para voltar a ensaiar, a despertar risos e lágrimas nas pessoas, em nós. É essa pausa que permitirá uma reconexão com nós mesmas, por trás da correria, por trás da técnica e por trás das tantas máscaras e personas do dia-a-dia. Essa pessoa que mora dentro de nós, e que tanto deixamos de lado no cotidiano precisará voltar com mais força e mais atenção. Aceitem a pausa como quando ela aparece em uma boa cena, onde não temos pressa que ela acabe. Perceba o que ela diz, o que a compõe, o peso e a leveza que ela carrega. Não se sintam forçadas a produzir sem parar. Se forem agir, procurem uma ação verdadeira, que venha de uma vontade própria, sem se preocupar em agradar a plateia.
Beijos no coração,
Ana Cecilia Reis
(Diretora e atriz da Cia Plúmbea)

13 de março de 2020

Trechos: O Teatro e a Peste - Antonin Artaud

(...)
Se o teatro essencial é como a peste, não é por ser contagioso, mas porque, como a peste, ele é a revelação, a afirmação, a exteriorização de um fundo de crueldade latente através do qual se localizam num indivíduo ou num povo todas as possibilidades perversas do espírito. Assim como a peste, ele é o tempo do mal, o triunfo das forças negras que uma força ainda mais profunda alimenta até a extinção. Há nele, como na peste, uma espécie de estranho sol, uma luz de intensidade anormal em que parece que o difícil e mesmo o impossível tornam-se de repente nosso elemento normal.
(...)
O teatro, como a peste, é feito à imagem dessa carnificina, dessa essencial separação. Desenreda conflitos, libera forças, desencadeia possibilidades, e se essas possibilidades e essas forças são negras a culpa não é da peste ou do teatro, mas da vida. Não consideramos que a vida tal como é e tal como a fizeram para nós seja razão para exaltações. Parece que através da peste, e coletivamente, um gigantesco abscesso, tanto moral quanto social, é vazado; e, assim como a peste, o teatro existe para vazar abscessos coletivamente.
(...)
O teatro, como a peste, é uma crise que se resolve pela morte ou pela cura. E a peste é um mal superior porque é uma crise completa após a qual resta apenas a morte ou uma extrema purificação. Também o teatro é um mal porque é o equilíbrio supremo que não se adquire sem destruição. Ele convida o espírito a um delírio que exalta suas energias; e para terminar pode-se observar que, do ponto de vista humano, a ação do teatro, como a da peste, é benfazeja pois, levando os homens a se verem como são, faz cair a máscara, põe a descoberto a mentira, a tibieza, a baixeza, o engodo; sacode a inércia asfixiante da matéria que atinge até os dados mais claros dos sentidos; e, revelando para coletividades o poder obscuro delas, sua força oculta, convida-as a assumir diante do destino uma atitude heróica e superior que, sem isso, nunca assumiriam

Trechos do texto O teatro e a peste do livro O Teatro e o seu Duplo de Antonin Artaud.


Imagem: O Combate entre o Carnaval e a Quaresma de Pieter Bruegel

2 de fevereiro de 2020

Diário do último ato concorrendo ao Prêmio Guerra Peixe

O espetáculo "Diário do último ato" foi indicado ao Prêmio Maestro Guerra-Peixe, a principal premiação do setor de cultura da cidade de Petrópolis.
Agradecemos o reconhecimento e parabenizamos a equipe que realiza o evento anualmente!
E para quem ainda não viu o espetáculo, faremos mais duas apresentações no Rio de Janeiro, no Centro Cultural Parque das Ruínas, dias 08 e 09 de fevereiro



14 de janeiro de 2020

Teaser no Real Gabinete Português de Leitura

Confiram o teaser de "Diário do Último Ato" no Real Gabinete Português de Leitura, uma apresentação em parceria com o projeto FACE A FACE - Plataforma Lusófona de Artes Performativas

E lembrando que voltaremos com o espetáculo no Parque das Ruínas, nos dias 25 e 26 de janeiro e 08 e 09 de fevereiro, sempre às 16h.

Que 2020 venha recheado de circulações e trocas!