Pesquise o conteúdo deste blog!

17 de agosto de 2019

Diário de construção de um ato (por Ana Cecilia Reis)

Ao me deparar com imagens de mulheres ao longo da história, sempre dedico alguns minutos para contemplar seus olhares. Diferente das nossas “selfies” cotidianas, os retratos antigos são momentos raros e preparados para um registro histórico. Ainda que essas mulheres possam estar distantes de como se pareceriam no dia a dia, existe algo em seus olhares que grita e extrapola a convenção formal da fotografia, e enchem a imagem de personalidade, fazendo com que a gente não consiga se desviar do magnetismo e imaginar conhecer profundamente a alma daquela que está diante de nós apenas como simulacro.
Quando fiz o ensaio fotográfico do espetáculo “Diário do último ato”, mais do que tentar mimetizar o olhar de Florbela, quis sentir aquela melancolia e profundo vazio. Diferente de um olhar (apenas) niilista, existia também uma fúria e paixão em estar viva, em querer transbordar tudo, mesclado a uma profunda insatisfação de não ser compreendida, e consequentemente, a solidão de quem se sente inadequada à própria existência. Posso dizer que a conheço através dos seus textos, mas talvez tivesse sentido isso ao olhar somente para a sua imagem.
Esse trabalho se diferencia de outros que fiz porque transpor a pessoa de Florbela para o palco não passou unicamente por exercícios técnicos, trabalho de texto, voz, corpo e respiração. Transpor Florbela para o palco foi um exercício de autoconhecimento, foi olhar para minhas próprias desilusões, vazios e ímpetos, contemplar seu olhar e pensar: eu sei como você se sente, e eu compartilho dessa dor com você. E eu, que me julgo tão racional, me vi muitas vezes chorando apenas ao ler o texto, ou a fazer um ensaio frio para entender o espaço, porque sempre que as palavras de Florbela se encontravam com minha voz, era como se ela estivesse falando para todas aquelas pessoas que se sentem sufocadas pela normalidade dos dias que atravessam “sem novos gestos nem palavras novas