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20 de julho de 2020

Inspirações...

"Caneta, sinto-me como em casa em sua tinta, dando uma pirueta, misturando as teias, deixando minha assinatura nos vidros da janela. Caneta, como pude alguma vez ter medo de você? Você não tem casa, mas é sua impetuosidade que me deixa apaixonada. Tenho que me livrar de você quando começar a ser previsível, quando parar de perseguir diabinhos. Quanto mais você me supera, mais eu a amo. É quando estou cansada, ou quando tomei muita cafeína ou vinho que você ultrapassa minhas defesas e digo mais do que pretendia. Você me surpreende, me choca quando revela alguma parte de mim que mantive em segredo de mim mesma."

Gloria Anzaldua


(Não encontramos a autoria da imagem, se souberem, entrem em contato ou informem nos comentários. Obrigada!) 

12 de julho de 2020

Lapsos processuais de enclausuramento (por Ana Cecilia Reis)

E se de repente, nossa vida se resumisse às memórias dos eventos que já vivemos? Nada de novo aconteceria mais. Nos encontraríamos e nosso maior prazer seria ficar relembrando, com o máximo de detalhes, todas as vezes que o acaso (ou o destino) nos pregou peças inesperadas, todas as vezes que perdemos as estribeiras, rimos, brigamos, nos deixamos levar pelas paixões, nos perdemos, nos encontramos, um tombo, a vergonha, uma vitória, o prêmio, o dia em que aquele conhecido apareceu no Jornal...
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Era sobre isso que eu pensava enquanto via os olhos de minha avó brilhando, enquanto contava sobre sua juventude. Assim é a vida de quem fica preso no passado, de quem vive pelas histórias, suas ou dos outros porque acha que tudo que passou sempre é mais colorido, feliz, verdadeiro, do que a realidade presente.
Os olhos de minha avó eram geralmente pálidos, aguados e voltados para o chão, pareciam estar para sempre presos à uma espécie de angústia, de não se reconhecer naquele quarto, naquele corpo. Sua voz e seu olhos só se acendiam quando ela encontrava alguém para falar sobre o seu passado. Então, como alguém que utiliza uma droga estimulante, ela era até capaz de dançar! (esquecia que suas pernas doíam, que sua coluna era frágil). Dançava, falava, cantava e ria, relembrando dos amigos e amores, que já partiram. Bastava pouco, bastava alguém perguntar. Mas era raro que alguém perguntasse. Eu mesma só perguntei agora. Presa aqui. Nesses dias iguais. Porque me vi também relembrando (a nostalgia não escolhe idade). Mas não durava muito. Logo a lembrança-vento atravessava o rosto de minha avó, percorria a sala e saía pela janela. Então, o silêncio gritado da televisão ou do rádio voltava a preencher o ambiente e a gravidade fazia seu papel, murchando as expressões.
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Não há nada para fazer. Há muito o que fazer. Não há por que planejar. Esse é o momento de planejar. Eu tenho todo o tempo do mundo. Tudo parece demorar.
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Minha avó me parece uma triste figura irônica e melancólica de um filme do Fellini. Minha avó é personagem de uma dramaturgia que jamais irei escrever.


Figura só - Tarsila do Amaral

1 de julho de 2020

Inspirações...

"Por que sou levada a escrever? Porque a escrita me salva da complacência que me amedronta. Porque não tenho escolha. Porque devo manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome. Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você. Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias. Escreverei sobre o não dito, sem me importar com o suspiro de ultraje do censor e da audiência. Finalmente, escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior de não escrever."
Glória Anzaldua