É com muito
pesar que por vezes nos deparamos com acontecimentos do passado que geram
profunda tristeza, mas o pior talvez seja perceber que esses acontecimentos não
estão tão distantes assim. Pensando na violência policial que estamos
vivenciando no Rio de Janeiro, é impossível não compararmos à violência militar
que os habitantes de Canudos sofreram.
Situações
diferentes, mesmo procedimento. Somente para dar um exemplo, segue abaixo um
texto que estamos preparando para uma das cenas, adaptado diretamente do livro “Os
Sertões”, onde Euclides da Cunha fala sobre o treinamento dos soldados:
“Homens inermes carregando armas magníficas. Ora, um chefe militar deve
ter algo de psicólogo. Por mais mecanizado que fique o soldado pela disciplina,
tendendo para esse sinistro ideal de homúnculo, feito um feixe de ossos
amarrados por um feixe de músculos, energias inconscientes sobre alavancas
rígidas, sem nervos, sem temperamento, sem arbítrio, agindo como um autômato
pela vibração dos clarins, transfiguram-no as emoções da guerra, é preciso
incentivá-lo, torná-lo corajoso, como que implantando uma nova religião: a luta
pela glória perante o inimigo.”
Ao
escolheremos a temática do massacre de Canudos nossa intenção principal era
explorar os conflitos e oposições de corpos em luta, a partir do trabalho
imagético de um artista plástico, mas sem focar tanto no objetivo de contarmos
essa história. Mas surpreendentemente, nos vemos cada vez mais próximos de
temáticas cotidianas, mesmo abordando um fato do passado. Começamos a nos
perguntar quais são as possibilidades de resistência para esses acontecimentos,
tanto no teatro quanto fora dele. E percebemos que esse trabalho caminha cada
vez mais para o resgate dessas memórias, pois através delas somos mais fortes.