E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.
Nietzsche
Para algumas
pessoas, ainda pode soar estranho que se possa fazer “teatro-dança” com atores
que nunca foram dançarinos. No geral, as pessoas imaginam que para se conseguir
qualidade no trabalho de dança é necessário ter um corpo tecnicamente preparado
com os conceitos básicos das danças clássicas, ser magro e
alongado, trabalhar incansavelmente conceitos de equilíbrio, salto, giro, etc. Claro
que os fundamentos da dança são muito importantes, mas o ato de dançar
verdadeiramente pode se dar sem eles, e pode ser muito belo.
Quando crianças, simplesmente ouvimos uma música e mexemos nosso corpo de acordo com os
impulsos que o ritmo nos traz. Com o passar do tempo, aprendemos a chamada
“coreografia” de algumas bandas, e o virtuosismo está em conseguirmos fazer
“igual”. Algumas crianças conseguem pegar a coreografia mais rápido que outras,
ou se mexem dentro de um padrão que é considerado “dançar bem”. Então a dança
começa a ficar restrita a quem “dança bem”, a quem “leva jeito”. Na
adolescência, o “correto” para as meninas dançarem na boate é em grupo e iguais
(geralmente de forma discreta), e para "pegar mulher” os meninos precisam
aprender a dançar a dois alguns ritmos como forró, salsa, dança de salão, entre outros. A
dança começa a perder sua relação com o prazer, com a liberação de um impulso ou com o ritual e
cada vez mais se relaciona a convenções sociais. Podemos pensar que hoje em dia
isso mudou, mas volta e meia encontramos algum vídeo viral de alguém dançando
de forma “ridícula”, ( por estar fora do padrão) em algum evento social,
geralmente por estar embriagado ou sob efeito de drogas sintéticas (que de
certa forma liberam o Id, dão uma calada no Superego e fazem emergir os
impulsos mais primitivos, ignorando os julgamentos alheios).
Nos trabalhos da Cia Plúmbea, gosto de
trabalhar com dois conceitos diferentes (que pretendo estudar em um futuro
mestrado): o quanto um trabalho estritamente técnico e regrado (tais como
equilíbrio, alongamento, aquecimento, impulso, partes do corpo em evidencia,
tensão, etc) podem gerar um improviso orgânico e libertador, e o inverso: o
quanto o improviso livre a fim de descobrir seus impulsos pessoais pode gerar
uma técnica partiturada, a partir da análise desse movimento espontâneo.
Especificamente nos exercícios da montagem de "Terrabatida", percebo que quando trabalho com atores que possuem resistência para
dançar, eles se sentem mais à vontade quando coloco alguma regra, como por
exemplo, “deixar suas mãos te guiarem” ou “o movimento parte do quadril”. Dessa
maneira, o foco na regra libera o fluir de outras
partes que normalmente não estariam envolvidas nesse dançar por causa de uma possível timidez, um bloqueio de auto-julgamento.
Inclusive isso
também funciona comigo, que muitas vezes danço em cena e não sou formada em
dança. A questão de me dirigir em cena, e propor os exercícios para mim mesma é
um desafio bem grande, e costumo trabalhar com a câmera para avaliar resultados. Mas
isso já é papo para outro texto. O que eu acho importante deixar claro, não é
um discurso anti-técnica na dança, mas, sobretudo um entendimento que dançar
passa por muitas camadas. Dançar não é somente saber fazer um passo de forma
grandiosa e perfeita. Acredito que dançar é antes de tudo é uma abertura
sensível para si mesmo e para o mundo, deixar com que a energia interna que te
atravessa seja externalizada. Claro que os exercícios técnicos são importantes para gerar
estímulos, memória corporal e resistência, também são riquezas culturais e presentes na maioria das danças, mas cada um de nós já possui uma
vivência pessoal de movimentos únicos, que quando deixamos aflorar verdadeiramente,
se tornam muito belos.
Também podemos aprofundar a discussão e pensar em "danças" e não somente na "Dança".
Um processo de dança intrigante é o Butoh, mas isso também é assunto para um próximo texto.
Também podemos aprofundar a discussão e pensar em "danças" e não somente na "Dança".
Um processo de dança intrigante é o Butoh, mas isso também é assunto para um próximo texto.
Até mais!
=)
Na foto: apresentação do espetáculo "Rayuela" com Ana Cecilia Reis e Paulo Barbeto



