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27 de abril de 2015

Todo mundo sabe dançar (por Ana Cecilia Reis)

                                                                 
E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.

Nietzsche

Para algumas pessoas, ainda pode soar estranho que se possa fazer “teatro-dança” com atores que nunca foram dançarinos. No geral, as pessoas imaginam que para se conseguir qualidade no trabalho de dança é necessário ter um corpo tecnicamente preparado com os conceitos básicos das danças clássicas, ser magro e alongado, trabalhar incansavelmente conceitos de equilíbrio, salto, giro, etc. Claro que os fundamentos da dança são muito importantes, mas o ato de dançar verdadeiramente pode se dar sem eles, e pode ser muito belo.

Quando crianças, simplesmente ouvimos uma música e mexemos nosso corpo de acordo com os impulsos que o ritmo nos traz. Com o passar do tempo, aprendemos a chamada “coreografia” de algumas bandas, e o virtuosismo está em conseguirmos fazer “igual”. Algumas crianças conseguem pegar a coreografia mais rápido que outras, ou se mexem dentro de um padrão que é considerado “dançar bem”. Então a dança começa a ficar restrita a quem “dança bem”, a quem “leva jeito”. Na adolescência, o “correto” para as meninas dançarem na boate é em grupo e iguais (geralmente de forma discreta), e para "pegar mulher” os meninos precisam aprender a dançar a dois alguns ritmos como forró, salsa, dança de salão, entre outros. A dança começa a perder sua relação com o prazer, com a liberação de um impulso ou com o ritual e cada vez mais se relaciona a convenções sociais. Podemos pensar que hoje em dia isso mudou, mas volta e meia encontramos algum vídeo viral de alguém dançando de forma “ridícula”, ( por estar fora do padrão) em algum evento social, geralmente por estar embriagado ou sob efeito de drogas sintéticas (que de certa forma liberam o Id, dão uma calada no Superego e fazem emergir os impulsos mais primitivos, ignorando os julgamentos alheios).

 Nos trabalhos da Cia Plúmbea, gosto de trabalhar com dois conceitos diferentes (que pretendo estudar em um futuro mestrado): o quanto um trabalho estritamente técnico e regrado (tais como equilíbrio, alongamento, aquecimento, impulso, partes do corpo em evidencia, tensão, etc) podem gerar um improviso orgânico e libertador, e o inverso: o quanto o improviso livre a fim de descobrir seus impulsos pessoais pode gerar uma técnica partiturada, a partir da análise desse movimento espontâneo.

Especificamente nos exercícios da montagem de "Terrabatida", percebo que quando trabalho com atores que possuem resistência para dançar, eles se sentem mais à vontade quando coloco alguma regra, como por exemplo, “deixar suas mãos te guiarem” ou “o movimento parte do quadril”. Dessa maneira, o foco na regra libera o fluir de outras partes que normalmente não estariam envolvidas nesse dançar por causa de uma possível timidez, um bloqueio de auto-julgamento.

Inclusive isso também funciona comigo, que muitas vezes danço em cena e não sou formada em dança. A questão de me dirigir em cena, e propor os exercícios para mim mesma é um desafio bem grande, e costumo trabalhar com a câmera para avaliar resultados. Mas isso já é papo para outro texto. O que eu acho importante deixar claro, não é um discurso anti-técnica na dança, mas, sobretudo um entendimento que dançar passa por muitas camadas. Dançar não é somente saber fazer um passo de forma grandiosa e perfeita. Acredito que dançar é antes de tudo é uma abertura sensível para si mesmo e para o mundo, deixar com que a energia interna que te atravessa seja externalizada. Claro que os exercícios técnicos são importantes para gerar estímulos, memória corporal e resistência, também são riquezas culturais e presentes na maioria das danças,  mas cada um de nós já possui uma vivência pessoal de movimentos únicos, que quando deixamos aflorar verdadeiramente, se tornam muito belos.

Também podemos aprofundar a discussão e pensar em "danças" e não somente na "Dança".

Um processo de dança intrigante é o Butoh, mas isso também é assunto para um próximo texto.

Até mais!

=)
                

Na foto: apresentação do espetáculo "Rayuela" com Ana Cecilia Reis e Paulo Barbeto 

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