"O contato é uma das coisas mais essenciais. Muitas vezes, quando um ator fala de contato, ou pensa em contato, acredita que isto significa olhar fixamente. Mas isto não é contato. Contato não é ficar fixado, mas ver. Agora, estou em contato com vocês, vejo quais de vocês, vejo quais de vocês estão contra mim. Vejo uma pessoa que está indiferente, outra que escuta com algum interesse, e outra que sorri. Tudo isso modifica minhas ações: trata-se de contato, e isto me força a modificar meu jeito de agir. O padrão está sempre fixo. Neste caso, por exemplo, vou dar meu conselho final. Tenho aqui algumas notas essenciais sobre o que falar, mas a maneira como falo depende do contato. Se, por exemplo, ouço alguém sussurrando, falo mais alto e articuladamente, e isto inconscientemente, por causa do contato.
Dessa forma, durante a representação, quando a partitura - o texto e a ação claramente definidos - já está fixada, deve-se entrar em contato com os companheiros. O companheiro se é um bom ator, sempre segue a mesma partitura de ações. Nada é deixado ao acaso, nenhum detalhe é modificado. Mas há mudanças de última hora nesse jogo de partituras, toda vez que ele representa levemente diferente e vocês devem observá-lo intimamente, ouvir e observá-lo, respondendo às suas ações imediatas. Todo o dia, ele diz, "Bom dia", com a mesma entonação, exatamente como seu vizinho diz sempre "bom dia" a vocês. Um dia, ele está de bom humor, outro cansado, outro com pressa. Sempre diz: "Bom dia", mas com uma pequena diferença de cada vez. Tem-se de perceber isso, não com a mente, mas ver e ouvir. Na verdade, vocês sempre dão a mesma resposta: "Bom dia", mas se tiverem realmente ouvido, perceberão que será um pouco diferente cada dia. A ação e a entonação são as mesmas, mas o contato é tão rápido que é impossível analisá-lo racionalmente. Isto modifica todas as relações, e é também o segredo da harmonia entre os homens. Quando um homem diz "bom dia" e outro responde, já automaticamente uma harmonia vocal entre os dois. No palco, muitas vezes detectamos uma desarmonia, porque os atores não escutam seus companheiros. O problema não é ouvir e perguntar qual é o tipo de entonação, e sim apenas escutar e responder."
* Trecho de um texto do discurso de encerramento em um seminário na Escola Dramática de Skara (Suécia). Pode ser encontrado no livro "Em busca de um teatro pobre" com o título: "O discurso de Skara".
Na foto: o ator Ryszard Cieslak e Jerzy Grotowski

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