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19 de junho de 2020

Diário de construção de um ato II: (breves relatos de processo por Ana Cecilia Reis)

Dando continuidade aos escritos sobre a criação do espetáculo “Diário do último ato” (o primeiro pode ser lido aqui), hoje gostaria de compartilhar uma técnica que utilizamos para maior controle das nuances das emoções apresentadas no texto.
A dramaturgia parte dos escritos pessoais de Florbela Espanca, organizados e “costurados” por Ronaldo Ventura. Nesses solilóquios dos últimos momentos da personagem antes de se matar, trabalhamos com estados de transição do luto. Por exemplo: Raiva, Barganha, Depressão, Aceitação...
Ronaldo pediu que eu escolhesse em quais momentos eu gostaria de trabalhar esses sentimentos no texto e criar uma respiração específica para cada um deles.
Você já parou para analisar como fica a sua respiração quando você está dominada pela raiva, pelo desânimo, quando está tentando negociar algo, ou na expectativa da chegada de alguém que você está apaixonada? É muito interessante olhar para dentro e investigar o ritmo dessa respiração, ela chega até a ter temperaturas diferentes! E a partir disso, como você costuma falar nesses estados? Cada respiração te dará um tom, uma musculatura facial e uma energia para trabalhar com as palavras que irá reverberar nos seus movimentos corporais.
É importante perceber o quanto a respiração pode colorir um texto, e servir também como um “energético” para os movimentos. Lembrando que é preciso investigar fundo, sem estereótipos, tentar rememorar essas sensações e sentir como você respira em determinadas situações. Existem pessoas que quando estão com muita raiva explodem e gritam, mas existem outras que se contêm e rangem os dentes, então, não existe um caminho único, e é preciso sempre trabalhar honestamente, sem se preocupar com efeitos cênicos, deixe isso para a direção posteriormente (mesmo que você mesma esteja se dirigindo). Como atuante, considero essas autodescobertas a parte mais preciosa do processo.
Através dessa consciência da respiração, você pode chegar à estágios muito orgânicos de atuação, sem se preocupar se “está” ou “não está” na personagem, pois a sua respiração não tem como mentir, e você pode exercitá-la sempre, resgatando essas sensações.
Voltando à minha experiência: a partir dessa conexão com o estado de respiração de cada etapa do luto, a dinâmica do texto pedia que eu falasse diretamente para o público, e a cada encontro com as pessoas, elas me davam o retorno através de seus olhares, disponibilidades e respostas à minha fala, que iam conduzindo minha própria emoção. Como se, por exemplo, a respiração depressiva pudesse ir para um lugar mais emotivo, choroso, ou mais frio, distante, ou ainda, mais terno, acolhedor, sempre a partir do contato com a resposta do (a) outro (a). Isso foi muito novo para mim como atriz, porque não havia "dosagem" de emoção pré-concebida, eu poderia me emocionar com mais ou menos intensidade em momentos diferentes, a depender da energia doada da plateia!
Bem, esse é o relato de hoje.
Lembrando que a Cia Plúmbea tem como objetivo a investigação das técnicas e da ética do ofício de atuar, estamos à disposição para conversar mais detalhadamente com quem tiver interesse em conhecer mais sobre os nossos processos, e espero que, em breve, possamos nos encontrar para praticar através de demonstrações de trabalho e oficinas.
Importante citar que esse processo foi conduzido pelo Ronaldo Ventura, grande parceiro em minha trajetória como atriz.
Até a próxima!
Beijos e abraços!
Foto: Guido Artes
    

6 de junho de 2020

A questão que se coloca...

"O que é grave
É sabermos
que atrás da ordem deste mundo
existe uma outra
Que outra?
Não o sabemos.
O número e a ordem de suposições possíveis
neste campo
é precisamente
o infinito!
E o que é o infinito?
Não o sabemos com certeza.
É uma palavra que usamos
para designar
abertura
da nossa consciência
diante da possibilidade
desmedida,
inesgotável e desmedida.
E o que é a consciência?
Não o sabemos com certeza.
É o nada.
Um nada
que usamos
para designar
quando não sabemos alguma coisa
e de que forma
não o sabemos
e então
dizemos
consciência,
do lado da consciência
quando há cem mil outros lados.
E então?
Parece que a consciência
está ligada
em nós
ao desejo sexual
e à fome.
Mas poderia
igualmente
não estar ligada
a eles.
Dizem,
é possível dizer,
há quem diga
que a consciência
é um apetite,
o apetite de viver:
e imediatamente
junto com o apetite de viver
o apetite da comida
imediatamente nos vem à mente;
como se não houvesse gente que come
sem o mínimo apetite;
e que tem fome.
Pois isso também
existe:
os que tem fome
sem apetite;
e então?
Então
o espaço do possível
foi-me apresentado
um dia
como um grande peido
que eu tivesse soltado;
mas nem o espaço
nem a possibilidade
eu sabia exatamente o que fossem,
nem sentia necessidade de pensar nisso,
eram palavras
inventadas para definir coisas
que existiam
ou não existiam
diante da
premente urgência
de uma necessidade:
suprimir a idéia,
a idéia e seu mito
e no seu lugar instaurar
a manifestação tonante
dessa necessidade explosiva:
dilatar o corpo da minha noite interior,
do nada interior
do meu eu
que é noite,
nada,
irreflexão,
mas que é explosiva afirmação
de que há
alguma coisa
para dar lugar:
meu corpo.
Mas como,
reduzir meu corpo
a um gás fétido?
Dizer que tenho um corpo
porque tenho um gás fétido
que se forma em mim?
Não sei
mas
sei que
o espaço,
o tempo,
a dimensão,
o devir,
o futuro,
o destino,
o ser,
o não-ser,
o eu,
o não-eu
nada são para mim;
mas há uma coisa
que é algo,
uma só coisa
que é algo
e que sinto
por ela querer
SAIR:
a presença
da minha dor
do corpo,
a presença
ameaçadora
infatigável
do meu corpo;
e ainda que me pressionem com perguntas
e por mais que eu me esquive a elas
há um ponto
em que me vejo forçado
a dizer não,
NÃO
à negação;
e chego a esse ponto
quando me pressionam,
e me apertam
e me manipulam
até sair de mim
o alimento,
meu alimento
e seu leite,
e então o que fica?
Fico eu sufocado;
e não sei que ação é essa
mas ao me pressionarem com perguntas
até a ausência
e a anulação
da pergunta
eles me pressionam
até sufocarem em mim
a idéia de um corpo
e de ser um corpo,
e foi então que senti o obsceno
e que
soltei um peido
de saturação
e de excesso
e de revolta
pela minha sufocação.
É que me pressionavam
ao meu corpo
e contra meu corpo
e foi então
que eu fiz tudo explodir
porque no meu corpo
não se toca nunca"

Texto-poesia retirado de uma transmissão radiofônica - intitulada "PARA
ACABAR COM O JULGAMENTO DE DEUS" de Antonin Artaud
Imagem: desenho de Antonin Artaud