Cuidado para não cair nas garras do capitalismo estético produtivista com suas pulsões artísticas. Estamos em uma pandemia, pessoas estão morrendo, outras passam fome e existem aquelas que não têm onde enterrar os seus mortos. Perceba se sua ideia de produção artística não é uma tentativa de surfar em uma onda mórbida, repetindo modelos que em outros momentos você criticaria. Que as ações partam de vontade própria e não de um olhar angustiante de não querer ficar para trás.
Estamos há pouco mais de dois meses parados. Você já levou muito mais tempo do que isso para produzir um espetáculo. Pense como uma oportunidade de se aprofundar em questões que nunca teve tempo antes. Estudar, pesquisar, fazer exercícios, ver vídeos de espetáculos, escrever, fazer uma reunião com aquela pessoa que você admira para vocês trocarem ideias, assistir à debates, enfim, inspirações para o presente e para criações futuras, tendo possibilidade de estar em um palco ou não. Acredite, as ideias virão, mas quanto mais você se pressionar, maior é a tendência à frustração. Esteja aberta para o que surgir, mas não procure desesperadamente. Fique confortável em não produzir nada. Foi você que determinou a sua profissão, não foi ela que moldou quem você é. Toda aquela força criativa de quem escolheu existir no mundo pela arte ainda está aí dentro, só está esperando você se afastar da pressão produtivista sistemática que engole à (quase) todos.
Permita-se estar em silêncio, que é diferente de estar silenciada. Para que novas e potentes coisas possam surgir elas precisam de distanciamento, elas precisam ser observadas de muitos ângulos, não é necessário saber absorver esse momento agora, o que é o hoje ou o que será o amanhã, porque ninguém, absolutamente ninguém sabe, e nesses momentos talvez seja necessário se perguntar o quanto você sabe do ontem. Ainda existe muito para se pensar sobre o ontem, sobre o já produzido. Você não teve tempo ainda de olhar, ou passou rápido demais por ele.
Eu gostaria muito de ter a capacidade de olhar com mais calma para as coisas. Eu ainda não sou capaz de devorar esse instante que eu não sei o que é. E eu não preciso ser. Eu não quero ser. É a potência do que eu posso não fazer. Eu confio na minha liberdade.
(Ana Cecilia Reis)

