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25 de maio de 2020

Conservar a confiança de sua liberdade. Anotações mentais de uma quarentena (2)

Cuidado para não cair nas garras do capitalismo estético produtivista com suas pulsões artísticas. Estamos em uma pandemia, pessoas estão morrendo, outras passam fome e existem aquelas que não têm onde enterrar os seus mortos. Perceba se sua ideia de produção artística não é uma tentativa de surfar em uma onda mórbida, repetindo modelos que em outros momentos você criticaria. Que as ações partam de vontade própria e não de um olhar angustiante de não querer ficar para trás.
Estamos há pouco mais de dois meses parados. Você já levou muito mais tempo do que isso para produzir um espetáculo. Pense como uma oportunidade de se aprofundar em questões que nunca teve tempo antes. Estudar, pesquisar, fazer exercícios, ver vídeos de espetáculos, escrever, fazer uma reunião com aquela pessoa que você admira para vocês trocarem ideias, assistir à debates, enfim, inspirações para o presente e para criações futuras, tendo possibilidade de estar em um palco ou não. Acredite, as ideias virão, mas quanto mais você se pressionar, maior é a tendência à frustração. Esteja aberta para o que surgir, mas não procure desesperadamente. Fique confortável em não produzir nada. Foi você que determinou a sua profissão, não foi ela que moldou quem você é. Toda aquela força criativa de quem escolheu existir no mundo pela arte ainda está aí dentro, só está esperando você se afastar da pressão produtivista sistemática que engole à (quase) todos.
Permita-se estar em silêncio, que é diferente de estar silenciada. Para que novas e potentes coisas possam surgir elas precisam de distanciamento, elas precisam ser observadas de muitos ângulos, não é necessário saber absorver esse momento agora, o que é o hoje ou o que será o amanhã, porque ninguém, absolutamente ninguém sabe, e nesses momentos talvez seja necessário se perguntar o quanto você sabe do ontem. Ainda existe muito para se pensar sobre o ontem, sobre o já produzido. Você não teve tempo ainda de olhar, ou passou rápido demais por ele.
Eu gostaria muito de ter a capacidade de olhar com mais calma para as coisas. Eu ainda não sou capaz de devorar esse instante que eu não sei o que é. E eu não preciso ser. Eu não quero ser. É a potência do que eu posso não fazer. Eu confio na minha liberdade.
(Ana Cecilia Reis)

11 de maio de 2020

Uzume

Segue um trecho da apresentação do livro Corpos em fuga, corpos em arte por Renato Ferracini:

“Em algum lugar do Japão mítico, Amaterasu, deusa do Sol, enfurecida pelas travessuras do irmão, esconde-se em uma gruta e priva o mundo e os próprios deuses de sua luz divina. Uma reunião é realizada e muitos deuses vão até a gruta tentar dissuadir Amaterasu a sair para que o mundo conviva novamente com a luz. Alguns entoam canções sagradas, outros tocam instrumentos mágicos, mas Amaterasu está irredutível. A deusa Uzume, então, prende suas vestes, amarra uma faixa em torno da testa, sobre em um grande barril e começa a dançar e bater os pés. Com essa dança Uzume entra em êxtase e desnuda os seios e as partes íntimas. Nesse momento, os outros deuses, vendo a situação na qual se encontra Uzume, soltam uma grande gargalhada. Amaterasu sai da gruta para ver o que está acontecendo, trazendo sua luz novamente ao mundo e palavras sagradas impedem que ela retorne.
O corpo em êxtase, o corpo em dança, o corpo em ação restaura a luz”.
Uzume é a deusa da chuva, felicidade, dança e riso.
Deusa da felicidade que enfrenta períodos de dificuldade com serenidade.
Deusa da dança a qual representa a libertação dos limites.
Deusa do riso relaxando a si mesma e aos outros para os desafios da vida.
Desejamos que a alegria e a disposição encontre a todos nesse momento tão difícil.
Estamos juntxs!


5 de maio de 2020

Velhas indagações para novos projetos

Como nós, mulheres ocidentais, lidamos com nossos sentimentos atualmente? Fomos estimuladas na infância pelos contos de fadas a esperar um príncipe encantado e sermos competitivas umas com as outras, amedrontadas com a menstruação, com a possibilidade de engravidar na adolescência e ser renegada pela família, defendendo-nos dos assédios e atentas às ameaças de estupros vindos das ruas escuras na madrugada ou de dentro de nosso próprio lar, sem entender direito nossos corpos e nossas possibilidades de prazer, limitando nossos objetivos profissionais e priorizando dedicação plena aos relacionamentos amorosos e à aparência, etc... Passamos por tudo isso, e hoje buscamos a liberdade, a desconstrução. Mas onde guardamos nosso coração? Será que superamos as expectativas, esquecemos os traumas, ignoramos o tempo que passa e tira nossa aparência juvenil, grande característica que nos torna objeto de desejo e muitas vezes dita a nossa importância como presença no mundo?


Imagem: A filha do policial, de Paula Rego.