Pesquise o conteúdo deste blog!

28 de abril de 2020

Haverá fundo nesse poço em que nos atiraram?

"Banalizada por força da pandemia, a morte descartável agride a nossa dignidade humana. São tétricas as cenas de corpos coletados por caminhões frigoríficos e coveiros vestidos como astronautas. Nem cães e gatos domésticos merecem igual tratamento.
Cinco séculos antes de Cristo, Sófocles tratou do tema em sua célebre peça de teatro, Antígona. Creonte, rei de Tebas, proibiu que Antígona sepultasse seu irmão Polinices. O governante queria que o corpo permanecesse exposto à voracidade de aves e cães. O horror visava a inibir os pretendentes ao trono, como mais tarde fariam os romanos com suas vítimas crucificadas no tempo de Jesus.
Antígona, levada à prisão, pôs fim à vida antes de saber que o sábio Tirésias convencera Creonte a libertá-la e permitir o sepultamento do corpo de Polinices. Tal como, cinco séculos depois, José de Arimateia convenceria Pilatos a consentir que ele desse túmulo ao corpo de Jesus descido da cruz.
Ao escárnio de ver seu irmão insepulto, Antígona preferiu morrer. Agora, ao nos obrigar a tratar os mortos como mero refugo, a pandemia mata em nós um dos mais fortes atributos da condição humana. A ponto de os povos indígenas insistirem em jamais abandonar a terra na qual sepultaram seus antepassados.
As imagens são lúgubres: corpos previamente encaixotados atirados em covas sem identificação, enquanto os entes queridos do falecido miram à distância, impedidos de se aproximar para o adeus definitivo, imobilizados pela força necrófila de Hades, o deus do reino dos mortos.
Na guerra, morre-se distante da família e muitos corpos são enterrados em locais ignorados. Porém, ao menos, em tempos de paz, as vítimas merecem um mausoléu do soldado desconhecido. Haverá um monumento em memória das vítimas da Covid-19? Ou serão relegadas ao esquecimento, transformadas em frios números nas estatísticas oficiais, como mortos desaparecidos? No Dia de Finados, onde depositar as flores em memória do ente querido falecido?"
Frei Betto



Imagem do espetáculo "A Arte de Enterrar seus Mortos", repertório da Cia Plúmbea, por Rodrigo Domit.

20 de abril de 2020

Cinzas e diamantes



"Como uma chama alcatroada que queima
expandes em torno fagulhas crepitantes.
Sabes, ao menos, se ardendo, tornas-te livre,
ou se apressas o desastre de tudo aquilo que foi teu?
Se de ti restarás somente um punhado de cinzas
levadas embora pela tempestade, ou encontrar-se-á
no mais profundo das cinzas um diamante estrelado
promessa e penhor de vitória eterna?"

Cyprian Norwid

9 de abril de 2020

Aceitar a pausa teatral. Aprendizados de uma quarentena.

O fazer teatral só se justifica enquanto presença física. Não estou falando aqui das novas possíveis experimentações de linguagens dentro das Artes Cênicas, mas sim desse fazer que só se justifica enquanto criação, processo e resultado a partir do contato com o outro. O teatro tem uma coisa tão humana no seu fazer que se você filmá-lo ele se transforma em uma coisa completamente diferente, e, mesmo ainda sendo possível acompanhar a história ou proposta estética de uma montagem por vídeo, no fundo sabemos que estamos vendo um simulacro sem alma, porque é nessa estranha conexão presencial que a magia do teatro acontece. É assim que funciona.
Então, me deparo agora com essa grande pausa da pulsão que me move diariamente: Ensaios. Pesquisas. Encontros. Conversas. Espetáculos. Não consigo pensar em agir, porque também quero me permitir encontrar uma potência na não-ação. Ainda mais quando qualquer ação em sua maioria se resume ao virtual. Já faz tempo que me sinto sufocada de informação, de bate-papos, de “lives” de imagens, de vídeos, das redes sociais. E era exatamente nesses momentos que começava a me propor um resgate do palpável: imprimia fotos de minha última viagem, tentava ler livros com todas as telas desligadas, e claro, nunca parava de fazer teatro, a arte que mais precisa do contato e da presença real.
Esse não é um texto que vai dizer o que fazer justo no momento onde o encontro, que é a força que gera o meu trabalho, é a mais nociva para a transmissão do vírus. Poderia tentar ser útil aqui e ganhar alguns “likes” e parcerias dando dicas de livros, de composições, de dramaturgias, de projetos de pesquisa para uma possível graduação ou pós, mas nesses dias provavelmente isso já foi exaustivamente pensado e compartilhado.
Esse texto é só para que eu diga para mim, e para quem chegou até aqui, que está tudo bem pararmos (se você tem esse privilégio). Que está tudo bem não fazer nada nesse momento. Observar, abrir um baú de memórias do que já se foi feito. Permitir imaginar futuras trajetórias.
E é acreditando na impermanência do que se faz e se desfaz a cada momento, como ao assistir uma peça de teatro que jamais irá se repetir, que vamos passar por isso. Para voltar a ensaiar, a despertar risos e lágrimas nas pessoas, em nós. É essa pausa que permitirá uma reconexão com nós mesmas, por trás da correria, por trás da técnica e por trás das tantas máscaras e personas do dia-a-dia. Essa pessoa que mora dentro de nós, e que tanto deixamos de lado no cotidiano precisará voltar com mais força e mais atenção. Aceitem a pausa como quando ela aparece em uma boa cena, onde não temos pressa que ela acabe. Perceba o que ela diz, o que a compõe, o peso e a leveza que ela carrega. Não se sintam forçadas a produzir sem parar. Se forem agir, procurem uma ação verdadeira, que venha de uma vontade própria, sem se preocupar em agradar a plateia.
Beijos no coração,
Ana Cecilia Reis
(Diretora e atriz da Cia Plúmbea)