"Fatores históricos de ordem diversa foram os responsáveis pela estruturação da arte do ator ocidental tendo por base elementos altamente subjetivos, como, por exemplo, sua "identificação psíquica e emotiva" com o personagem. É evidente que a importância da técnica é conhecida, pois é emprestada de várias fontes pelo artista: da dança (moderna, clássica, sapateado etc.), do canto, de lutas marciais, da esgrima, das técnicas circenses de acrobacia, da mímica e da pantomima. Entretanto, ele, artista de palco, é desprovido de técnica própria. Esta realidade torna-se ainda mais transparente se compararmos o teatro ocidental com o oriental.
Muitas pessoas associam o fazer teatral do Oriente à sua cultura. Esse é um fato não só inegável como inevitável. Mas, independentemente dos valores estéticos e culturais, constatamos que o teatro oriental vem indissoluvelmente acompanhado de técnicas corpóreas precisas e codificadas de atuação, que levam o ator a um conhecimento e domínio primoroso de seu instrumento de trabalho e, por meio deste, de sua arte (entenda-se por "arte" as faculdades criadora e operativa do homem). Para exemplificar, podemos citar o teatro nô, o kabuqui, o kyogen, a ópera de Pequim, o kathakali, entre tantos outros.
O curioso é que essas manifestações teatrais possuem em comum apenas o fato de suas técnicas de atuação serem codificadas e sistematizadas em conjuntos coesos de regras. No Oriente, é difícil definir se o caminho utilizado para a criação é a técnica ou se é a própria criação que se "corporifica" e "toma forma" por meio dos elementos técnicos.
Trabalhar a arte de ator significou, para nós, constatar a fragilidade com que vêm sendo trabalhados pelos atores os pólos extremos da criação e da técnica. De um lado, no que tange ao método ou aos elementos técnicos, notamos a completa ausência de técnicas corpóreas e vocais de representação codificadas e estruturadas e, de outro, no que tange à criação ou à vida, sentimos a incapacidade de se entrar em contato com o real potencial de energia do ator. Ao acentuar e explorar, de modo que reforce esses pólos, é que poderemos, na prática, realizar um estudo objetivo que nos permita vislumbrar a arte de ator."
BURNIER, Luís Otávio. "A arte de ator: da técnica à representação" Campinas: Editora da Unicamp, 2009. p.20.
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