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27 de maio de 2013

A Arte de Enterrar seus Mortos - Única apresentação no Sobrado Boemia




Uma mulher grita. Com o que resta de suas forças, joga um punhado de terra sobre o corpo morto de seu irmão. E assim, se faz uma criminosa. A história de Antígona, a princesa banida, que retorna à sua terra natal para cumprir os rituais fúnebres de seu irmão. Mas sua manifestação de amor fraterno a torna uma fora da lei, e como tal, será julgada.

O espetáculo A Arte de Enterrar seus Mortos fará parte da programação do evento Dia da Boemia  - evento  cultural do Sobrado Boemia que inclui exposições, shows, performances e teatro.

Data: 05 de junho (quarta-feira)
Horário: 19:00
Local: Sobrado Boemia: Praça São Salvador, 1 - Laranjeiras, Rio de Janeiro - RJ
Lotação: 30 lugares.
Valor: Gratuito - enviar e-mail de confirmação para: ciaplumbea@gmail.com

20 de maio de 2013

O espaço do teatro. (por Ana Cecilia Reis)


  A partir de uma dificuldade em conseguir pauta nos teatros do Rio de Janeiro – por questões não somente burocráticas, mas também pessoais, como, por exemplo, sermos uma companhia nova e não conhecermos pessoalmente os artistas que gerenciam alguns desses espaços (pois a maioria das ocupações artísticas prefere colocar amigos ou formatos já consolidados de espetáculos em pauta a apostar em um trabalho novo. Claro, há sempre boas exceções, mas os critérios de avaliação para se ocupar os teatros no Rio de Janeiro ainda são obscuros para mim) – começamos a buscar alternativas para circular com nossos espetáculos. Como vocês sabem, nossa estreia no Rio de Janeiro foi em um hostel, um lindo espaço, que nos gerou uma experiência muito bacana. A partir dessa experiência, em função das dificuldades já mencionadas, comecei a refletir: qual o espaço do (nosso) teatro? Sim, essa discussão é antiga, mas nós, até algum tempo atrás, não havíamos percebido a potência dos circuitos artísticos alternativos da nossa cidade. E quando eu digo alternativo, não estou falando em espaços pequenos já consolidados que saem nos guias da cidade, estou falando em locais onde rolam festas alternativas semanalmente, com música, artes plásticas, poesia e... não, teatro não. O teatro, não se sabe o porquê, está afastado disso. Sobrados, mercadões, editoras, casas de festa, hotéis, bares, todos esses lugares são pólos culturais que ficam lotados de jovens interessados por arte em geral, mas que, “sem nenhuma explicação”, ao mesmo tempo em que veem um filme por semana, vão a shows pelo menos uma vez por mês e se “amarram” em grafite e intervenções urbanas, dizem muitas vezes que “mal conseguem se lembrar a última vez que foram ao teatro”. O que está acontecendo então? Será que o problema está nessas pessoas? Será que o problema é a tão falada “crise” do teatro? Ou será que nós, como artistas do palco, de alguma forma acabamos “elitizando” nossa arte, tornando-a congelada, segura, com pouco espaço para a surpresa e a interação? E quando eu digo ‘interação’ não estou me referindo ao assim chamado “teatro interativo”, me refiro a um teatro que busca se livrar das amarras de pré-requisitos estruturais para acontecer. Por exemplo: porque não tornar o seu espetáculo parte de um evento maior? Um festival livre de artes, por exemplo? Assim, haverá um público novo que não vai espontaneamente ao teatro, porque o considera distante. Mas se o próprio teatro se aproximar desse público, quebra uma barreira, é um novo contato que se faz, é um novo movimento possível (para quem estiver interessado, claro).

  É óbvio que existem espetáculos que são criados para um formato de palco italiano e possuem aparatos tecnológicos, o que requer um mínimo de estrutura e os condiciona a apresentações somente em determinados espaços. Ok. Mas existe também um grau de “flexibilidade” em alguns projetos que podem ser adaptados para espaços não convencionais, expandindo o "lugar" do teatro e atingindo novos públicos. Em um projeto como o Palco Giratório do Sesc, por exemplo, vários artistas dão depoimentos de como tiveram que adaptar seus espetáculos não somente para palcos menores, mas para cidades que muitas vezes não possuíam um teatro. Prova disso está no bate-papo com a dançarina Lia Rodrigues publicado no catálogo Palco Giratório desse ano (ISSN 2317-1596), no qual destaco dois trechos:

A oportunidade de fazer o Palco Giratório em 2001 e em 2008 fez com que eu levasse meu trabalho a lugares em que eu nunca tinha imaginado me apresentar. Em algumas cidades eu nunca tinha estado e as pessoas nunca tinham me visto. Meu primeiro encontro foi no Ceará, em 2001. Eu fui para o Crato. O Sesc ainda não tinha uma estrutura de teatro, que hoje tem. Eu me lembro que a gente dançou numa academia de ginástica e foi maravilhoso. É um grande exercício criativo para o artista  ter que procurar adaptar seu trabalho a lugares alternativos.”

Os lugares eram muito diferentes. Eu nunca vejo problema com o público. Nunca. E olha que, uma vez, dancei dentro de um shopping. O mesmo espetáculo que eu levo para Paris. Não tem nenhuma diferença de público. Aliás, o público é sempre respeitoso, sempre generoso. Eu acho isso, é o meu sentimento.”

Pode-se pensar que há uma diferença entre se apresentar em um hotel ou sobrado no Rio de Janeiro com pouca verba e circular no projeto Palco Giratório pelo Brasil inteiro e acabar se apresentando em um shopping com uma boa verba pra isso. Eu digo que não, não há diferença. O que existe são as características que te diferenciam, e resumem o tipo de artista que você quer ser. E em minha opinião, as mais importantes são: resistência e disponibilidade.

Apresentação do espetáculo "A Arte de Enterrar seus Mortos" no espaço Covil Imaginário (espaço criado na garagem de uma casa em Petrópolis-RJ)


13 de maio de 2013

Acabar com as obras-primas (por Antonin Artaud)

Eis um trecho polêmico de Artaud, para refletir sobre nossas escolhas artísticas:

 “Uma das razões da atmosfera asfixiante, na qual vivemos sem escapatória possível e sem remédio – e pela qual somos todos um pouco culpados, mesmos os mais revolucionários entre nós –, é o respeito pelo que é escrito, formulado ou pintado e que tomou forma, como se toda expressão já não estivesse exaurida e não tivesse chegado ao ponto em que é preciso que as coisas arrebentem para se começar tudo de novo.

É preciso acabar com a ideia das obras-primas reservadas a uma assim chamada elite e que a massa não entende; e admitir que não existe, no espírito, uma zona reservada, como para as ligações sexuais clandestinas.

As obras-primas do passado são boas para o passado, não para nós. Temos o direito de dizer o que foi dito e mesmo o que não foi dito de um modo que seja nosso, imediato, direto, que responda aos modos de sentir atuais e que todo mundo o compreenda.

É idiotice censurar a massa por não ter o senso do sublime, quando se confunde o sublime com uma de suas manifestações formais que são, aliás, e sempre, manifestações mortas. E se, por exemplo, a massa de hoje já não compreende Édipo rei, ouso dizer que a culpa é de Édipo rei e não da massa.”


Artaud, Antonin. O teatro e seu duplo. São Paulo: Martins Fontes, 2006.


6 de maio de 2013

Encontros, escolhas e caos: iniciando um novo processo. (por Ana Cecilia Reis)


A obra de arte, uma vez concluída, não permite que a abordemos com rápidos olhares e brincadeiras intelectuais. Ela parece confundir a inteligência, ou algemá-la. Ora, estou brincando. De certo modo, as obras de arte nos tornariam idiotas se sua fascinação não fosse a prova – incontrolável, não obstante indiscutível – de que esta paralisia da inteligência se mistura com a mais luminosa certeza. Da qual nada sei. (...) Que tenho eu então? Por quê? O que significam essas pinturas das quais mal consigo me desgrudar? (...)”
                JEAN GENET, Rembrandt

Encontrar é revelar. Encontrar é se re-encontrar, ser reencontrado por algo. Olhar é ser olhado também. E quando estamos diante de uma obra artística isso é mais do que comprovado, embora não tão interessantemente explicado quanto vivido. Que obra é essa que vejo? Quem eu vejo através dessa obra? Como eu me vejo nessa obra? Porque essa obra?

                Longe de análises psicanalistas, mais uma vez inicio o texto com perguntas que não irei responder, e que também não pretendo voltar nelas (situação que me tira alguns pontos nas provas dissertativas teóricas, e que talvez seja um pouco irritante). Isso porque, todas essas perguntas flutuam o tempo todo na cabeça de quem se interessa por arte e talvez seja mais interessante deixá-las flutuando do que engaioladas em respostas fechadas.

                Enfim, estamos começando um novo trabalho. E iniciar um novo trabalho é encontrar, se revelar e buscar. Temos tantos caminhos para percorrer, desde a primeira escolha, o início. O que? Por quê? Como? Imagem, corpo, texto, som, canção... A aventura de percorrer esses caminhos desconhecidos, que, tais como o efeito do bater de asas de uma borboleta, poderá nos levar para um novo rumo. Destino?

                Por enquanto, caminhamos como quem aguarda, sempre atentos aos pequenos brilhos que possam surgir entre as pedras.

                Nada sabemos, e tudo sabemos! Intuição, sensibilidade, treinamento, treinamento, treinamento.

As ideias, sensações e pensamentos voam e se dispersam. Por isso, deixo para vocês um trecho do diário de Paul Klee, que fala sobre isso de uma forma mais poética e muito bela:

 “Começo, logicamente, a partir do caos, isso é o que há de mais natural. Permaneço calmo ao fazê-lo, porque me foi permitido, inicialmente, ser eu mesmo um caos. Essa é a mãe materna. Diante da superfície branca, era frequente eu ficar trêmulo e tímido. Mesmo assim, eu me sacudia e me obrigava à estreiteza das representações lineares.

Até a próxima!



"Abraço" - de Paul Klee