A partir de uma dificuldade em
conseguir pauta nos teatros do Rio de Janeiro – por questões não somente
burocráticas, mas também pessoais, como, por exemplo, sermos uma companhia nova
e não conhecermos pessoalmente os artistas que gerenciam alguns desses espaços
(pois a maioria das ocupações artísticas prefere colocar amigos ou formatos já
consolidados de espetáculos em pauta a apostar em um trabalho novo. Claro, há
sempre boas exceções, mas os critérios de avaliação para se ocupar os teatros
no Rio de Janeiro ainda são obscuros para mim) – começamos a buscar
alternativas para circular com nossos espetáculos. Como vocês sabem, nossa
estreia no Rio de Janeiro foi em um hostel, um lindo espaço, que nos gerou uma
experiência muito bacana. A partir dessa experiência, em função das dificuldades
já mencionadas, comecei a refletir: qual o espaço do (nosso) teatro? Sim, essa discussão
é antiga, mas nós, até algum tempo atrás, não havíamos percebido a potência dos
circuitos artísticos alternativos da nossa cidade. E quando eu digo alternativo,
não estou falando em espaços pequenos já consolidados que saem nos guias da
cidade, estou falando em locais onde rolam festas alternativas semanalmente,
com música, artes plásticas, poesia e... não, teatro não. O teatro, não se sabe
o porquê, está afastado disso. Sobrados, mercadões, editoras, casas de festa, hotéis,
bares, todos esses lugares são pólos culturais que ficam lotados de jovens interessados
por arte em geral, mas que, “sem nenhuma explicação”, ao mesmo tempo em que veem
um filme por semana, vão a shows pelo menos uma vez por mês e se “amarram” em
grafite e intervenções urbanas, dizem muitas vezes que “mal conseguem se
lembrar a última vez que foram ao teatro”. O que está acontecendo então? Será
que o problema está nessas pessoas? Será que o problema é a tão falada “crise”
do teatro? Ou será que nós, como artistas do palco, de alguma forma acabamos “elitizando”
nossa arte, tornando-a congelada, segura, com pouco espaço para a surpresa e a
interação? E quando eu digo ‘interação’ não estou me referindo ao assim chamado
“teatro interativo”, me refiro a um teatro que busca se livrar das amarras de
pré-requisitos estruturais para acontecer. Por exemplo: porque não tornar o seu
espetáculo parte de um evento maior? Um festival livre de artes, por exemplo?
Assim, haverá um público novo que não vai espontaneamente ao teatro, porque o
considera distante. Mas se o próprio teatro se aproximar desse público, quebra uma
barreira, é um novo contato que se faz, é um novo movimento possível (para quem
estiver interessado, claro).
É óbvio que existem espetáculos
que são criados para um formato de palco italiano e possuem aparatos
tecnológicos, o que requer um mínimo de estrutura e os condiciona a
apresentações somente em determinados espaços. Ok. Mas existe também um grau de
“flexibilidade” em alguns projetos que podem ser adaptados para espaços não convencionais, expandindo o "lugar" do teatro e atingindo novos públicos. Em um projeto
como o Palco Giratório do Sesc, por exemplo, vários artistas dão depoimentos de
como tiveram que adaptar seus espetáculos não somente para palcos menores, mas
para cidades que muitas vezes não possuíam um teatro. Prova disso está no
bate-papo com a dançarina Lia Rodrigues publicado no catálogo Palco Giratório
desse ano (ISSN 2317-1596), no qual destaco dois trechos:
“A oportunidade de fazer o Palco
Giratório em 2001 e em 2008 fez com que eu levasse meu trabalho a lugares em
que eu nunca tinha imaginado me apresentar. Em algumas cidades eu nunca tinha
estado e as pessoas nunca tinham me visto. Meu primeiro encontro foi no Ceará,
em 2001. Eu fui para o Crato. O Sesc ainda não tinha uma estrutura de teatro,
que hoje tem. Eu me lembro que a gente dançou numa academia de ginástica e foi
maravilhoso. É um grande exercício criativo para o artista ter que procurar adaptar seu trabalho a
lugares alternativos.”
“Os lugares eram muito
diferentes. Eu nunca vejo problema com o público. Nunca. E olha que, uma vez,
dancei dentro de um shopping. O mesmo espetáculo que eu levo para Paris. Não
tem nenhuma diferença de público. Aliás, o público é sempre respeitoso, sempre
generoso. Eu acho isso, é o meu sentimento.”
Pode-se pensar que há uma
diferença entre se apresentar em um hotel ou sobrado no Rio de Janeiro com
pouca verba e circular no projeto Palco Giratório pelo Brasil inteiro e acabar
se apresentando em um shopping com uma boa verba pra isso. Eu digo que não, não
há diferença. O que existe são as características que te diferenciam, e resumem
o tipo de artista que você quer ser. E em minha opinião, as mais importantes
são: resistência e disponibilidade.

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