“Uma das razões da
atmosfera asfixiante, na qual vivemos sem escapatória possível e sem remédio –
e pela qual somos todos um pouco culpados, mesmos os mais revolucionários entre
nós –, é o respeito pelo que é escrito, formulado ou pintado e que tomou forma,
como se toda expressão já não estivesse exaurida e não tivesse chegado ao ponto
em que é preciso que as coisas arrebentem para se começar tudo de novo.
É preciso acabar com a
ideia das obras-primas reservadas a uma assim chamada elite e que a massa não
entende; e admitir que não existe, no espírito, uma zona reservada, como para
as ligações sexuais clandestinas.
As obras-primas do
passado são boas para o passado, não para nós. Temos o direito de dizer o que
foi dito e mesmo o que não foi dito de um modo que seja nosso, imediato, direto,
que responda aos modos de sentir atuais e que todo mundo o compreenda.
É idiotice censurar a massa por não ter o senso do sublime, quando se confunde o sublime com uma de suas manifestações formais que são, aliás, e sempre, manifestações mortas. E se, por exemplo, a massa de hoje já não compreende Édipo rei, ouso dizer que a culpa é de Édipo rei e não da massa.”
Artaud, Antonin. O teatro e seu duplo. São Paulo: Martins
Fontes, 2006.

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