“A obra de arte, uma vez concluída, não permite que a abordemos com
rápidos olhares e brincadeiras intelectuais. Ela parece confundir a
inteligência, ou algemá-la. Ora, estou brincando. De certo modo, as obras de
arte nos tornariam idiotas se sua fascinação não fosse a prova – incontrolável,
não obstante indiscutível – de que esta paralisia da inteligência se mistura
com a mais luminosa certeza. Da qual nada sei. (...) Que tenho eu então? Por
quê? O que significam essas pinturas das quais mal consigo me desgrudar? (...)”
JEAN GENET, Rembrandt
Encontrar é
revelar. Encontrar é se re-encontrar, ser reencontrado por algo. Olhar é ser
olhado também. E quando estamos diante de uma obra artística isso é mais do que
comprovado, embora não tão interessantemente explicado quanto vivido. Que obra
é essa que vejo? Quem eu vejo através dessa obra? Como eu me vejo nessa obra?
Porque essa obra?
Longe
de análises psicanalistas, mais uma vez inicio o texto com perguntas que não
irei responder, e que também não pretendo voltar nelas (situação que me tira
alguns pontos nas provas dissertativas teóricas, e que talvez seja um pouco
irritante). Isso porque, todas essas perguntas flutuam o tempo todo na cabeça
de quem se interessa por arte e talvez seja mais interessante deixá-las
flutuando do que engaioladas em respostas fechadas.
Enfim,
estamos começando um novo trabalho. E iniciar um novo trabalho é encontrar, se
revelar e buscar. Temos tantos caminhos para percorrer, desde a primeira
escolha, o início. O que? Por quê? Como? Imagem, corpo, texto, som, canção... A
aventura de percorrer esses caminhos desconhecidos, que, tais como o efeito do
bater de asas de uma borboleta, poderá nos levar para um novo rumo. Destino?
Por
enquanto, caminhamos como quem aguarda, sempre atentos aos pequenos brilhos que
possam surgir entre as pedras.
Nada
sabemos, e tudo sabemos! Intuição, sensibilidade, treinamento, treinamento,
treinamento.
As ideias,
sensações e pensamentos voam e se dispersam. Por isso, deixo para vocês um
trecho do diário de Paul Klee, que fala sobre isso de uma forma mais poética e
muito bela:
“Começo,
logicamente, a partir do caos, isso é o que há de mais natural. Permaneço calmo
ao fazê-lo, porque me foi permitido, inicialmente, ser eu mesmo um caos. Essa é
a mãe materna. Diante da superfície branca, era frequente eu ficar trêmulo e
tímido. Mesmo assim, eu me sacudia e me obrigava à estreiteza das
representações lineares.”
Até a próxima!
"Abraço" - de Paul Klee
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