Percebo no teatro atual certas abordagens estéticas assumidamente inspiradas em Brecht que presumem que o público tem o mesmo conhecimento histórico e o mesmo interesse em determinados assuntos que os criadores dos trabalhos. O distanciamento explorado em Brecht não significa que devemos apresentar ao público algo que ele não quer ouvir, esfregar em sua cara algo que ele não quer ver, com textos políticos arrogantes e enfadonhos. Não é falando em socialismo, revolução e direitos igualitários que estamos atingindo o espectador e “iluminando” sua vida diante das injustiças cotidianas. Não é gritando próximo ao ouvido dele que ele vai ouvir mais. Não é fazendo com que ele participe da cena que o tornará mais ativo (certas participações podem ser uma forma de automatização também).
O que ser “proletariado” significa hoje para esses jovens atores e atrizes? O que significa para a plateia que os assistem? Como suscitar um real interesse de transformação em jovens (ou velhos) no Brasil de 2016 dando como exemplo a Revolução Soviética?
Enxergo uma falta de sensibilidade e certa preguiça de começarem a olhar e investigar a fundo a nossa história, e começar a criar novas (e nossas) próprias ferramentas de aproximação e jogo com o público. Um novo vocabulário, novas formas de conectividade.
Brecht foi um autor que revisitava constantemente os clássicos, e era ativo ao transformá-los de forma provocativa, atento ao seu próprio tempo. Pesquisava estímulos estéticos em diferentes partes do mundo. Não podemos tratar Brecht como um autor congelado requentado no microondas, não podemos ter a ingenuidade de achar que as frases de efeito de outrora impactam a geração atual da mesma forma. Se existe um legado que Brecht nos deixou, é o exemplo de sua constante e insaciável busca pelo estudo, e, principalmente, a luta para não estacionar em velhos métodos.