O teatro (a cena recortada) é o próprio lugar da venustidade, isto é, de Eros olhado, iluminado (por Psiquê e sua lâmpada). Basta que uma personagem secundária, episódica, apresente algum motivo de desejo (esse motivo pode ser perverso, não se ligar à beleza mas a um pormenor do corpo, à textura da pele, a um modo de respirar, ou até mesmo a uma falta de jeito), para que todo um espetáculo esteja salvo. A função erótica do teatro não é acessória, porque só o teatro, dentre todas as artes figurativas (cinema, pintura), dá os corpos e não sua representação. O corpo de teatro é ao mesmo tempo contingente e essencial: essencial, não pode ser possuído (ele é magnificado pelo prestígio do desejo nostálgico); contingente, poderia sê-lo, pois bastaria ficarmos loucos por um momento (o que está dentro de nossas possibilidades), pular para o palco e tocar aquilo que desejamos. O cinema, pelo contrário, exclui, por uma fatalidade de natureza, qualquer passagem ao ato: a imagem é ali a ausência irremediável do corpo representado.
(O cinema seria semelhante a esses corpos que vão, no verão, com a camisa largamente aberta: olhem mas não toquem, dizem esses corpos e o cinema, ambos literalmente factícios.)
* Retirado do livro: Roland Barthes por Roland Barthes. Estação Liberdade, 2003

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