Existem atores que não escutamos. Eles têm vozes bonitas, uma dicção impecável, temos o prazer de vê-los e a eles são confiados papéis importantes. Na hora que entram em cena, ficamos atentos, mas depois de cinco minutos toda a nossa atenção é tomada por um ator desconhecido que interpreta um personagem secundário, mas que possui o maravilhoso dom da "presença".
Estar lá (agradar ou não agradar). Causar interesse, mesmo irritando. Ainda que não se queira ser observado, preencher o próprio lugar no espaço, tornar-se necessário. A presença é uma qualidade discreta que emana da alma, que irradia e se impõe. O ator, quanto tem consciência da própria presença, ousa exteriorizar aquilo que sente e o faz de modo apropriado, porque não precisa se esforçar: o espectador o segue, o escuta.
Esse desdobramento necessário se dá sob o efeito de uma sensação física que faz o ator dizer, ao sair de cena: "Meu Deus, como atuei mal, não senti o público". Por uma razão que não depende da nossa vontade, não estávamos lá, interpretávamos nosso papel mais ou menos bem, porém não vivíamos. O fantasma do personagem não tinha nos seguido até a cena, e nós o procurávamos em vão durante todo aquele ato.
A arte do ator tem algo de misterioso. Seu sucesso não depende apenas do estudo, da preparação, da inteligência e da vontade. Até o maior especialista sobre as questões da nossa arte, ainda que tenha um corpo admirável e uma voz divina, pode ser um ator abominável. Essa ideia é expressa de várias maneiras em nossa gíria teatral. O grande Mounet-Sully dizia: "hoje a noite, a divindade não desceu". Um ator instintivo de melodrama exclamava: "meu personagem não calçou meus sapatos." O vaidoso vai dizer: "que público estúpido hoje à noite." Outro ator, saindo de cena, vai pigarrear e tocar suas cordas vocais.
A única coisa certa é que tanto um quanto o outro precisam dessa presença (que está neles mesmos) e que não depende totalmente deles.
Na foto: Cacilda Becker, considerada uma das melhores atrizes brasileiras de todos os tempos.

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