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16 de dezembro de 2013

Um pouco mais sobre Julio Cortázar e o Jogo da Amarelinha... nosso próximo projeto!

Nascido na Argentina em 1914, Julio Cortázar viveu durante a ditadura militar, e não concordando com o regime em seu país, se mudou para Paris em 1951, onde morou até sua morte. Cortázar é considerado um dos autores mais inovadores e originais do seu tempo, comparado a Jorge Luis Borges e Edgar Allan Poe. Michelangelo Antonioni se inspirou no seu conto As Babas do Diabo do livro As armas secretas para criar o filme Blow-up. Seu livro mais conhecido é O Jogo da Amarelinha (Rayuela, no original), escrito em 1963 que teve uma grande recepção em diversas línguas.

De acordo com Ari Roitman, na contracapa do livro, esse sucesso se deu pelo período de ruptura vivido no momento, na política e nas artes, onde se buscava inovações em todos os sentidos. Esse livro é uma captura dessa vertigem, pela forma, pela abordagem dos personagens envolvidos, pela viagem através das ruas parisienses e das praças argentinas.

“Encontraria a Maga?” – essa é a pergunta que inicia o jogo. E tal como o jogo evocado, onde a pedra é lançada em cada casa, em cada capítulo há possibilidades múltiplas capazes de fazer o jogo prosseguir, paralisar ou recomeçar.

O leitor também é interpelado para participar de forma ativa.

Não há mensagem, há mensageiros, e isso é a mensagem.

Herdeiro literário do surrealismo e do existencialismo, Cortázar propõe uma literatura onde o humor e o assombro se cruzam, em uma experiência mais do que literária, uma experiência sensorial:

Não é uma novela, mas sim um relato muito longo que definitivamente acabará sendo a crônica de uma loucura.




Na foto: Julio Cortázar

9 de dezembro de 2013

Presença (por Charles Dullin*)

 Existem atores que não escutamos. Eles têm vozes bonitas, uma dicção impecável, temos o prazer de vê-los e a eles são confiados papéis importantes. Na hora que entram em cena, ficamos atentos, mas depois de cinco minutos toda a nossa atenção é tomada por um ator desconhecido que interpreta um personagem secundário, mas que possui o maravilhoso dom da "presença". 

Estar lá (agradar ou não agradar). Causar interesse, mesmo irritando. Ainda que não se queira ser observado, preencher o próprio lugar no espaço, tornar-se necessário. A presença é uma qualidade discreta que emana da alma, que irradia e se impõe. O ator, quanto tem consciência da própria presença, ousa exteriorizar aquilo que sente e o faz de modo apropriado, porque não precisa se esforçar: o espectador o segue, o escuta. 

Esse desdobramento necessário se dá sob o efeito de uma sensação física que faz o ator dizer, ao sair de cena: "Meu Deus, como atuei mal, não senti o público". Por uma razão que não depende da nossa vontade, não estávamos lá, interpretávamos nosso papel mais ou menos bem, porém não vivíamos. O fantasma do personagem não tinha nos seguido até a cena, e nós o procurávamos em vão durante todo aquele ato. 

A arte do ator tem algo de misterioso. Seu sucesso não depende apenas do estudo, da preparação, da inteligência e da vontade. Até o maior especialista sobre as questões da nossa arte, ainda que tenha um corpo admirável e uma voz divina, pode ser um ator abominável. Essa ideia é expressa de várias maneiras em nossa gíria teatral. O grande Mounet-Sully dizia: "hoje a noite, a divindade não desceu". Um ator instintivo de melodrama exclamava: "meu personagem não calçou meus sapatos." O vaidoso vai dizer: "que público estúpido hoje à noite." Outro ator, saindo de cena, vai pigarrear e tocar suas cordas vocais. 

A única coisa certa é que tanto um quanto o outro precisam dessa presença (que está neles mesmos) e que não depende totalmente deles. 

* Retirado do livro Souvenirs et Notes de Travail d' Un Acteur. (Paris, Librairie Théâtrale, 1985)

Na foto: Cacilda Becker, considerada uma das melhores atrizes brasileiras de todos os tempos. 

2 de dezembro de 2013

Rayuela – um dos nossos próximos projetos para 2014!

Começamos a pesquisar, juntamente com o ator convidado Paulo Barbeto, 04 capítulos específicos do livro O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, escrito nos anos 60. 

O livro foi considerado ousado na época, ao apresentar um caleidoscópio verbal minuciosamente calculado e ao propor que o próprio leitor monte o seu jogo, lendo cada capítulo na sequência que preferir, na sequência estipulada pelo escritor ou seguindo a ordem linear.

A intenção do projeto é trazer para a cena o jogo proposto pelo autor no romance: as linhas, pedras e saltos que constituem o percurso para se chegar ao encontro do outro, ou, mais especificamente, ao céu.

Abordando diretamente o capítulo 34 do livro, que propõe uma sobreposição de duas vozes, gerando um diálogo desencontrado, a proposta cênica parte de uma pesquisa de exercícios de ação e reação, gerando estímulos de resposta através do corpo e gerando uma partitura física que ao mesmo tempo narra os conflitos internos e os desencontros de cada personagem, e remete a uma dança sem sentido (mas que ao final se completa), como um movimento browniano, como um jogo ao acaso:

 e tudo isso vai tecendo um desenho, uma figura (...) dançando para ninguém, nem para si mesmos, uma interminável figura sem sentido.

O trabalho já se encontra em fase de desenvolvimento há 06 meses, a ideia a princípio é criar uma cena curta que fará parte do repertório da Cia Plúmbea! Aguardem!




25 de novembro de 2013

Inspirações...




                           "Traduzir o vento invisível através da água que o esculpe ao passar..."
                                            (Robert Bresson) 


4 de novembro de 2013

Eros e o teatro (por Roland Barthes*)

 O teatro (a cena recortada) é o próprio lugar da venustidade, isto é, de Eros olhado, iluminado (por Psiquê e sua lâmpada). Basta que uma personagem secundária, episódica, apresente algum motivo de desejo (esse motivo  pode ser perverso, não se ligar à beleza mas a um pormenor do corpo, à textura da pele, a um modo de respirar, ou até mesmo a uma falta de jeito), para que todo um espetáculo esteja salvo. A função erótica do teatro não é acessória, porque só o teatro, dentre todas as artes figurativas (cinema, pintura), dá os corpos e não sua representação. O corpo de teatro é ao mesmo tempo contingente e essencial: essencial, não pode ser possuído (ele é magnificado pelo prestígio do desejo nostálgico); contingente, poderia sê-lo, pois bastaria ficarmos loucos por um momento (o que está dentro de nossas possibilidades), pular para o palco e tocar aquilo que desejamos. O cinema, pelo contrário, exclui, por uma fatalidade de natureza, qualquer passagem ao ato: a imagem é ali a ausência irremediável do corpo representado.
 (O cinema seria semelhante a esses corpos que vão, no verão, com a camisa largamente aberta: olhem mas não toquem, dizem esses corpos e o cinema, ambos literalmente factícios.)



* Retirado do livro: Roland Barthes por Roland Barthes. Estação Liberdade, 2003

29 de outubro de 2013

A invenção do Nordeste

Estamos em processo e já decidimos nosso tema. Impressionadas com as obras de Adir Botelho, falaremos da Guerra de Canudos em nosso próximo trabalho. Entretanto, não podemos deixar de pensar de onde falamos, e como falar de um lugar tão distante de nosso cotidiano e de uma guerra cheia de mitos e versões (como todas?). O primeiro texto fundamental para entendermos do que falamos e evitar cair em um discurso pré-moldado cheio de chavões foi uma indicação de Marcos Melo, nosso assistente de cena e criação. O texto a seguir é uma releitura e reorganização feita por Ana Cecilia Reis do texto "Nos destinos da fronteira: a invenção do Nordeste (a produção imagético-discursiva de um espaço regional)*" do professor Durval Muniz de Albuquerque Júnior, que têm deslocado nosso pensamento sobre as questões "nordestinas". Essa modificação foi feita com o intuito de dinamizar as perguntas e problematizações do autor para o nosso trabalho na cena:


Como se traçaram as bordas de nossa identidade? 

Como foi traçada a geografia que nos marca e demarca? 

 Em algum momento histórico, a partir de dadas condições. 

Precisamos aprender a cortar os espaços inteiros que nos aparecem como contínuos e naturais, que se afloram e cristalizam. 

Quais condições históricas nos fazem ser brasileiros? 

 Quais condições históricas nos fazem ser nordestinos? 

Qual recorte espacial designa o "Nordeste"?

Quais mecanismos de assujeitamento essa espacialidade põe em funcionamento? 


O Nordeste é uma invenção da modernidade brasileira. Uma invenção reativa. 
Seca. Cangaço. Messianismo. Lutas. 
O Nordeste. 
Recorte espacial preenchido com imagens e textos. 
Máscaras nordestinas. 
Nordeste: espaço da saudade. 
Origem e tradição. acabamento, origem ou retorno.
Imagem de um espaço preso a um tempo contínuo e totalizador. 

O Nordeste de Gilberto Freyre. José Lins do Rêgo. Ariano Suassuna. Cícero Dias. Lula Cardoso Ayres. Portinari. 

Nordeste de árvores gordas, de sombras profundas, de bois achorrentos, de gente vagorosa e às vezes arredondada quase que em sanchospanças pelo mel de engenho, pelo peixe cozido com pirão, pelo trabalho parado e sempre o mesmo, pela opilação, pela aguardente, pela garapa de cana, pelo feijão de coco, pelos vermes, pela erisipela, pelo ócio, pelas doenças que fazem as pessoas inchar, pelo próprio mal de comer terra. 

Mangueiras... paisagem azul e rosa, casas-grandes, fantasmas de bumba-meu-boi, bagaceira, pedra e cal, muralha segura. Saudade de quem migra, terrítorio de revolta. revolução social. teleologia. reencontro no futuro. Verdade do homem perdida na história. Miséria e injustiça social. Revolta primitiva, Alienação e consciência. Areia seca rangendo debaixo dos pés. Paisagens duras doendo nos olhos. Mandacarus, bois e cavalos angulosos. Sombras leves como umas almas do outro mundo com medo do sol. Vidas secas, homens e bichos vultos compridos que se arrastam entre a poeira das estradas. 

Nordeste do menino morto na rede, das figuras expressionistas de esqueletos que erguem seus braços, só ossos, para os céus e derramam compridas lágrimas que saem de seus olhos vazados. Deus e Diabo.Beato e cangaceiro. pobres, severinos amarelos, velhas cidades barrocas, heróis populares, negro sensual e sábio, capitães de areia. Lampião. 

Nordeste, seara vermelha. 

A experiência não é a fundadora da verdade. É produto de dadas condições de possibilidade.

O regional não é limite. É ponto de partida.

OBS: Texto original disponível em: http://pt.scribd.com/doc/140278557/Nos-Destinos-Da-Fronteira


Obra de Adir Botelho: Morte de Antônio Conselheiro, 2001 - carvão sobre papel, 50 X 70 cm

21 de outubro de 2013

Em processo: Barbárie e Espanto em Canudos (por Ana Cecilia Reis)

Em meados de 2012, me deparei com a exposição Barbárie e espanto em Canudos do artista plástico e professor Adir Botelho. Pensei que seria mais uma daquelas exposições ilustrativas históricas, mas fiquei realmente impressionada ao me deparar com as xilogravuras do artista. O que mais me surpreendeu foi a maneira com que ele trabalhava esses corpos na guerra. Como o meu trabalho na Cia é efetivamente a busca por um corpo expressivo, fiquei impactada com o trabalho de Adir que trazia exatamente esse efeito na tela, a partir de um trabalho de oposições, desequilíbrios, composições cênicas que destacavam o movimento e ao mesmo tempo a imobilidade. Imediatamente comentei a exposição com a Caju Bezerra, atriz da Cia, que se mostrou muito empolgada com minha descrição. Naquela época estávamos em busca de algum artista que pudéssemos começar um trabalho baseado em mimese corpórea a partir de imagens, e o trabalho do Adir desde então tem nos servido de exemplo e inspiração.

Percebemos através do deslocamento das imagens para o nosso corpo, toda a riqueza de suas composições, e, é um prazer perceber a expressividade contida nos elementos bases que estudamos (tais como desequilíbrio, peso, oposição, sustentação) em outra linguagem. Esse é apenas o começo do nosso trabalho, que tem nos levado à pesquisa da história de Canudos em diversas vertentes e à descoberta de personagens incríveis escondidos em cada expressão das xilogravuras do artista. É através dessas imagens que construiremos nossa dramaturgia do corpo e da cena, e o processo é desafiador e instigante!


Em breve descreverei mais sobre esse processo, abaixo algumas fotos de nosso treinamento baseado nas imagens da exposição do Adir Botelho: 


Obra: Enforcado (1978)



Obra: O canhão (1986)




Obra: Ímpeto (1981)


Obra: Transe (1981)