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13 de maio de 2013

Acabar com as obras-primas (por Antonin Artaud)

Eis um trecho polêmico de Artaud, para refletir sobre nossas escolhas artísticas:

 “Uma das razões da atmosfera asfixiante, na qual vivemos sem escapatória possível e sem remédio – e pela qual somos todos um pouco culpados, mesmos os mais revolucionários entre nós –, é o respeito pelo que é escrito, formulado ou pintado e que tomou forma, como se toda expressão já não estivesse exaurida e não tivesse chegado ao ponto em que é preciso que as coisas arrebentem para se começar tudo de novo.

É preciso acabar com a ideia das obras-primas reservadas a uma assim chamada elite e que a massa não entende; e admitir que não existe, no espírito, uma zona reservada, como para as ligações sexuais clandestinas.

As obras-primas do passado são boas para o passado, não para nós. Temos o direito de dizer o que foi dito e mesmo o que não foi dito de um modo que seja nosso, imediato, direto, que responda aos modos de sentir atuais e que todo mundo o compreenda.

É idiotice censurar a massa por não ter o senso do sublime, quando se confunde o sublime com uma de suas manifestações formais que são, aliás, e sempre, manifestações mortas. E se, por exemplo, a massa de hoje já não compreende Édipo rei, ouso dizer que a culpa é de Édipo rei e não da massa.”


Artaud, Antonin. O teatro e seu duplo. São Paulo: Martins Fontes, 2006.


6 de maio de 2013

Encontros, escolhas e caos: iniciando um novo processo. (por Ana Cecilia Reis)


A obra de arte, uma vez concluída, não permite que a abordemos com rápidos olhares e brincadeiras intelectuais. Ela parece confundir a inteligência, ou algemá-la. Ora, estou brincando. De certo modo, as obras de arte nos tornariam idiotas se sua fascinação não fosse a prova – incontrolável, não obstante indiscutível – de que esta paralisia da inteligência se mistura com a mais luminosa certeza. Da qual nada sei. (...) Que tenho eu então? Por quê? O que significam essas pinturas das quais mal consigo me desgrudar? (...)”
                JEAN GENET, Rembrandt

Encontrar é revelar. Encontrar é se re-encontrar, ser reencontrado por algo. Olhar é ser olhado também. E quando estamos diante de uma obra artística isso é mais do que comprovado, embora não tão interessantemente explicado quanto vivido. Que obra é essa que vejo? Quem eu vejo através dessa obra? Como eu me vejo nessa obra? Porque essa obra?

                Longe de análises psicanalistas, mais uma vez inicio o texto com perguntas que não irei responder, e que também não pretendo voltar nelas (situação que me tira alguns pontos nas provas dissertativas teóricas, e que talvez seja um pouco irritante). Isso porque, todas essas perguntas flutuam o tempo todo na cabeça de quem se interessa por arte e talvez seja mais interessante deixá-las flutuando do que engaioladas em respostas fechadas.

                Enfim, estamos começando um novo trabalho. E iniciar um novo trabalho é encontrar, se revelar e buscar. Temos tantos caminhos para percorrer, desde a primeira escolha, o início. O que? Por quê? Como? Imagem, corpo, texto, som, canção... A aventura de percorrer esses caminhos desconhecidos, que, tais como o efeito do bater de asas de uma borboleta, poderá nos levar para um novo rumo. Destino?

                Por enquanto, caminhamos como quem aguarda, sempre atentos aos pequenos brilhos que possam surgir entre as pedras.

                Nada sabemos, e tudo sabemos! Intuição, sensibilidade, treinamento, treinamento, treinamento.

As ideias, sensações e pensamentos voam e se dispersam. Por isso, deixo para vocês um trecho do diário de Paul Klee, que fala sobre isso de uma forma mais poética e muito bela:

 “Começo, logicamente, a partir do caos, isso é o que há de mais natural. Permaneço calmo ao fazê-lo, porque me foi permitido, inicialmente, ser eu mesmo um caos. Essa é a mãe materna. Diante da superfície branca, era frequente eu ficar trêmulo e tímido. Mesmo assim, eu me sacudia e me obrigava à estreiteza das representações lineares.

Até a próxima!



"Abraço" - de Paul Klee

29 de abril de 2013

A arte de ator - de acordo com Luis Otávio Burnier*

Essa semana resolvemos postar um trecho do livro "A arte de ator: da técnica à representação", de Luis Otávio Burnier, pois ele é uma grande referência para nossos estudos e reflexões sobre nossa arte. Segue abaixo:

"Fatores históricos de ordem diversa foram os responsáveis pela estruturação da arte do ator ocidental tendo por base elementos altamente subjetivos, como, por exemplo, sua "identificação psíquica e emotiva" com o personagem. É evidente que a importância da técnica é conhecida, pois é emprestada de várias fontes pelo artista: da dança (moderna, clássica, sapateado etc.), do canto, de lutas marciais, da esgrima, das técnicas circenses de acrobacia, da mímica e da pantomima. Entretanto, ele, artista de palco, é desprovido de técnica própria. Esta realidade torna-se ainda mais transparente se compararmos o teatro ocidental com o oriental.

Muitas pessoas associam o fazer teatral do Oriente à sua cultura. Esse é um fato não só inegável como inevitável. Mas, independentemente dos valores estéticos e culturais, constatamos que o teatro oriental vem indissoluvelmente acompanhado de técnicas corpóreas precisas e codificadas de atuação, que levam o ator a um conhecimento e domínio primoroso de seu instrumento de trabalho e, por meio deste, de sua arte (entenda-se por "arte" as faculdades criadora e operativa do homem). Para exemplificar, podemos citar o teatro , o kabuqui, o kyogen, a ópera de Pequim, o kathakali, entre tantos outros.

O curioso  é que essas manifestações teatrais possuem em comum apenas o fato de suas técnicas de atuação serem codificadas e sistematizadas em conjuntos coesos de regras. No Oriente, é difícil definir se o caminho utilizado para  a criação é a técnica ou se é a própria criação que se "corporifica" e "toma forma" por meio dos elementos técnicos.

Trabalhar a arte de ator significou, para nós, constatar a fragilidade com que vêm sendo trabalhados pelos atores os pólos extremos da criação e da técnica. De um lado, no que tange ao método ou aos elementos técnicos, notamos a completa ausência de técnicas corpóreas e vocais de representação codificadas e estruturadas e, de outro, no que tange à criação ou à vida, sentimos a incapacidade de se entrar em contato com o real potencial de energia do ator. Ao acentuar e explorar, de modo que reforce esses pólos, é que poderemos, na prática, realizar um estudo objetivo que nos permita vislumbrar a arte de ator."


BURNIER, Luís Otávio. "A arte de ator: da técnica à representação" Campinas: Editora da Unicamp, 2009. p.20.




* Clique aqui para conhecer mais sobre Luis Otávio Burnier.

11 de março de 2013

Sobre origens: a escolha de um nome (por Marcos Melo)



As línguas humanas são pobres. Carecem de recursos para descrever precisamente as coisas mais importantes do mundo; carecem tanto que desde seu surgimento a maioria é carregada dessas belas aberrações lógicas que são as figuras de linguagem. Sem elas, nada do mundo das ideias se faria entender bem. A beleza da poesia é quase sempre proporcional ao seu potencial anárquico: catar no mundo o corriqueiro e atribuir-lhe nova conotação por associá-lo a uma abstração. A descrição precisa não basta: definir-se como emotivo é vago, mas dizer-se possuir um coração que é um balde derramado garante uma misteriosa inteligibilidade cúmplice.

O chumbo é um metal pesado altamente tóxico usado desde sempre pelo homem. O clichê linguístico o consagrou como sinônimo de peso existencial, político-social e climático. A nossa companhia de teatro quer lembrar outras características desse metal ignoradas pelo mundo das figuras de linguagem e metaforizar a sua própria maneira de ser no mundo. A maleabilidade, a resistência à corrosão, a blindagem contra a radiação. A habilidade de formar ligas com praticamente qualquer outro metal. A ductilidade – capacidade de um material se deformar sem se fraturar – única. A versatilidade. Ser plúmbeo.

Na escolha de seu nome, a Cia. Plúmbea demonstra o compromisso de uma busca por acrescentar mais camadas de significação e interpretação a fenômenos já conhecidos e sedimentados pelo uso. 


3 de março de 2013

Sejam bem-vindos!


Olá! Esse é um novo blog, para uma nova Cia. de teatro que está surgindo. Em breve atualizaremos com notícias, postagens sobre processos de trabalho, depoimentos de integrantes, agenda, e muito mais! Estamos muito felizes com a sua presença! Fiquem à vontade para conhecer nosso trabalho e opinar! A Cia. Plúmbea agradece!

Até breve!