O primeiro
trabalho da Cia Plúmbea dirigido por mim foi baseado em técnicas do
teatro-dança. O desejo de trabalhar com os textos de Julio Cortázar nos levaram
a um jogo vertiginoso com as palavras e o corpo. Pesquisei relações espaciais e
jogos de ação e reação entre os atores. Neste trabalho, o entendimento do texto não tinha tanta prioridade, a intenção era fazer com que o público entrasse em um labirinto de emoções. Ouvimos da plateia o quanto a composição tinha um
efeito hipnótico e o quanto as sensações do jogo se tornavam mais pungentes do
que o entendimento racional das palavras. E o mais interessante disso era que
após assistir ao trabalho, as pessoas ficavam com muita vontade de conhecer a
literatura de Cortázar.
Ficamos felizes com esse
resultado, porque foi dessa maneira que recebi “O Jogo da Amarelinha” de
Cortázar quando o li.
Agora estamos
com o nosso novo trabalho, Terrabatida: Reminiscência de Canudos - e nossa encenação parte de imagens das
xilogravuras de Adir Botelho, por isso, estamos buscando uma atuação
expressionista. Apesar do texto escrito não ser uma prioridade por estarmos
trabalhando mais com uma dramaturgia a partir de quadros imagéticos, existem
algumas cenas que optamos por utilizar palavras e por isso tivemos que
descobrir novas maneiras de dizê-las. Em algumas cenas fizemos um trabalho
vocal que trouxe expressividade também para a palavra, mas esse trabalho vocal tem
como foco as músicas cantadas e as vozes em coro.
Nas partes
narrativas, por exemplo, precisávamos de uma naturalidade convidativa, mas eu
achava que somente falar o texto não seria suficiente. Por isso
comecei a experimentar limitar fisicamente o ator,
a fim de perceber alguns tiques, como um balançar incessante das mãos, ou uma
coluna deslocada, etc. Comecei também a sugerir intenções e verificar que tipo
de gestualidade aparecia com elas. Foram aproximadamente umas 15 sugestões de
como falar um texto. Só essa repetição já fez surgir uma relação mais desinibida
com as palavras, e isso também gerou novas gestualidades.
Alguns
exemplos de formas de falar o texto:
1. Com
as mãos presas
2. Com
as mãos espalmadas
3. Com
os punhos fechados
4. Com
os olhos fechados
5. Deitado
6. De
costas
7. Como
se fosse uma piada
8. Como
se fosse uma coisa muito triste
9. Muito
lentamente
10. Com
muitas pausas entre as palavras
Etc. Etc.
Cada sugestão
gera um novo corpo de fala. É necessário que a pessoa de fora esteja atenta
para esses pequenos espasmos potenciais que surgem a cada tentativa. Cada área
travada libera outras. Além disso, as entonações mudam naturalmente a partir do
momento em que uma parte do corpo está fora da sua função cotidiana, ou seja, a
partir do momento que exploramos o tão falado corpo extracotidiano.
Atenta a isso
consegui anotar e sugerir para que o ator compusesse uma partitura com as
gestualidades e entonações interessantes que surgiram no caminho. É importante
que o ator esteja à vontade com as sugestões, mas raramente ele não estará,
porque os gestos partiram dele espontaneamente, ou seja, já estão no seu corpo,
é necessário apenas despertá-los e direcioná-los.
Sendo assim,
descobri uma nova maneira (bom, não sei se é nova para os outros, mas pra nós
sim) de trabalhar um texto, tornando-o interessante também plasticamente, sem
perder a espontaneidade de se dizê-lo, mais uma vez a partir do trabalho físico.
Não saberia dizer se essa técnica funcionaria com um diálogo, mas para uma cena
narrativa acredito que funcionou muito bem.
Até a próxima!
=)
Na foto: o ator Paulo Barbeto durante o ensaio de "Terrabatida: Reminiscência de Canudos"




