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23 de março de 2015

Diário de Trabalho: Dominar um texto é dominar seu corpo (por Ana Cecilia Reis)

O primeiro trabalho da Cia Plúmbea dirigido por mim foi baseado em técnicas do teatro-dança. O desejo de trabalhar com os textos de Julio Cortázar nos levaram a um jogo vertiginoso com as palavras e o corpo. Pesquisei relações espaciais e jogos de ação e reação entre os atores. Neste trabalho, o entendimento do texto não tinha tanta prioridade, a intenção era fazer com que o público entrasse em um labirinto de emoções. Ouvimos da plateia o quanto a composição tinha um efeito hipnótico e o quanto as sensações do jogo se tornavam mais pungentes do que o entendimento racional das palavras. E o mais interessante disso era que após assistir ao trabalho, as pessoas ficavam com muita vontade de conhecer a literatura de Cortázar.

Ficamos felizes com esse resultado, porque foi dessa maneira que recebi “O Jogo da Amarelinha” de Cortázar quando o li.

Agora estamos com o nosso novo trabalho, Terrabatida: Reminiscência de Canudos - e nossa encenação parte de imagens das xilogravuras de Adir Botelho, por isso, estamos buscando uma atuação expressionista. Apesar do texto escrito não ser uma prioridade por estarmos trabalhando mais com uma dramaturgia a partir de quadros imagéticos, existem algumas cenas que optamos por utilizar palavras e por isso tivemos que descobrir novas maneiras de dizê-las. Em algumas cenas fizemos um trabalho vocal que trouxe expressividade também para a palavra, mas esse trabalho vocal tem como foco as músicas cantadas e as vozes em coro.

Nas partes narrativas, por exemplo, precisávamos de uma naturalidade convidativa, mas eu achava que somente falar o texto não seria suficiente. Por isso comecei a experimentar limitar fisicamente o ator, a fim de perceber alguns tiques, como um balançar incessante das mãos, ou uma coluna deslocada, etc. Comecei também a sugerir intenções e verificar que tipo de gestualidade aparecia com elas. Foram aproximadamente umas 15 sugestões de como falar um texto. Só essa repetição já fez surgir uma relação mais desinibida com as palavras, e isso também gerou novas gestualidades.

Alguns exemplos de formas de falar o texto:

1.       Com as mãos presas
2.       Com as mãos espalmadas
3.       Com os punhos fechados
4.       Com os olhos fechados
5.       Deitado
6.       De costas
7.       Como se fosse uma piada
8.       Como se fosse uma coisa muito triste
9.       Muito lentamente
10.   Com muitas pausas entre as palavras

Etc. Etc.

Cada sugestão gera um novo corpo de fala. É necessário que a pessoa de fora esteja atenta para esses pequenos espasmos potenciais que surgem a cada tentativa. Cada área travada libera outras. Além disso, as entonações mudam naturalmente a partir do momento em que uma parte do corpo está fora da sua função cotidiana, ou seja, a partir do momento que exploramos o tão falado corpo extracotidiano.

Atenta a isso consegui anotar e sugerir para que o ator compusesse uma partitura com as gestualidades e entonações interessantes que surgiram no caminho. É importante que o ator esteja à vontade com as sugestões, mas raramente ele não estará, porque os gestos partiram dele espontaneamente, ou seja, já estão no seu corpo, é necessário apenas despertá-los e direcioná-los.

Sendo assim, descobri uma nova maneira (bom, não sei se é nova para os outros, mas pra nós sim) de trabalhar um texto, tornando-o interessante também plasticamente, sem perder a espontaneidade de se dizê-lo, mais uma vez a partir do trabalho físico. Não saberia dizer se essa técnica funcionaria com um diálogo, mas para uma cena narrativa acredito que funcionou muito bem.
 
Até a próxima!

=)


Na foto: o ator Paulo Barbeto durante o ensaio de "Terrabatida: Reminiscência de Canudos"


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