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14 de abril de 2014

Canudos é aqui. (por Ana Cecilia Reis)

É com muito pesar que por vezes nos deparamos com acontecimentos do passado que geram profunda tristeza, mas o pior talvez seja perceber que esses acontecimentos não estão tão distantes assim. Pensando na violência policial que estamos vivenciando no Rio de Janeiro, é impossível não compararmos à violência militar que os habitantes de Canudos sofreram.

Situações diferentes, mesmo procedimento. Somente para dar um exemplo, segue abaixo um texto que estamos preparando para uma das cenas, adaptado diretamente do livro “Os Sertões”, onde Euclides da Cunha fala sobre o treinamento dos soldados:

“Homens inermes carregando armas magníficas. Ora, um chefe militar deve ter algo de psicólogo. Por mais mecanizado que fique o soldado pela disciplina, tendendo para esse sinistro ideal de homúnculo, feito um feixe de ossos amarrados por um feixe de músculos, energias inconscientes sobre alavancas rígidas, sem nervos, sem temperamento, sem arbítrio, agindo como um autômato pela vibração dos clarins, transfiguram-no as emoções da guerra, é preciso incentivá-lo, torná-lo corajoso, como que implantando uma nova religião: a luta pela glória perante o inimigo.”


                Ao escolheremos a temática do massacre de Canudos nossa intenção principal era explorar os conflitos e oposições de corpos em luta, a partir do trabalho imagético de um artista plástico, mas sem focar tanto no objetivo de contarmos essa história. Mas surpreendentemente, nos vemos cada vez mais próximos de temáticas cotidianas, mesmo abordando um fato do passado. Começamos a nos perguntar quais são as possibilidades de resistência para esses acontecimentos, tanto no teatro quanto fora dele. E percebemos que esse trabalho caminha cada vez mais para o resgate dessas memórias, pois através delas somos mais fortes.  


7 de abril de 2014

Inspirações...

"Se um bailarino dança - o que não é a mesma coisa que ter teorias sobre a dança ou sobre o desejo de dançar ou sobre os ensaios que se fazem para dançar ou sobre as recordações deixadas no corpo pela dança de algum outro -, mas se um bailarino dança, tudo já está presente. O sentido presente, se é isso que queremos. É como este apartamento onde vivo; olho em toda a minha volta, de manhã, e pergunto-me, o que é que tudo isso significa? Significa: isto é onde eu vivo. Quando danço, significa: isto é o que eu estou fazendo. Uma coisa que é justamente a coisa que aqui está." 

Merce Cunningham


ANTIC MEET (1958), Merce Cunningham, Photo by Richard Rutledge

31 de março de 2014

Por um corpo menos ansioso (por Ana Cecilia Reis)

“Diga um defeito seu? Sou muito ansioso!”

Essa deve ser a resposta de 90 % dos entrevistados em qualquer empresa de RH. E de fato, a maioria de nós é um poço de ansiedade. Isso é muito natural, pois vivemos cercados de “urgências”. A internet é uma valiosa ferramenta de pesquisa e socialização, mas também nos provocou a dispersão de atenção e a exigência de um olhar cada vez mais rápido, bem como uma sede de novidades e acontecimentos. Cada barulhinho de mensagem nos faz automaticamente parar o que estamos fazendo e verificar as notificações, sempre tão mais importantes do que o momento presente. Depois a internet passou a ser móvel, e então passamos a estar conectados 24 horas. Resultado: ansiedade multiplicada.

Afinal, aquele e-mail importante não pode deixar de ser respondido, mesmo que se esteja conversando com alguém, ou almoçando. Mas se pararmos para pensar, há uns 05 anos atrás só responderíamos o e-mail quando chegássemos em casa. E ninguém morria. Também me lembro, há mais de 10 anos, como a falta de celular nos fazia menos desesperados. Quando eu viajava, às vezes passava uma semana fora e ligava para minha mãe apenas uma vez, para avisar que cheguei, ou que estava indo embora. Hoje, se eu não respondo uma mensagem, já passa pela cabeça de muita gente que fui sequestrada. Ansiedade, ansiedade, ansiedade. Precisamos sempre ler muito, estarmos antenados, não podemos nunca chegar atrasados, pois isso é uma irresponsabilidade, mas o trânsito... ah, o trânsito! Quantas unhas roídas ao pegar todos os sinais fechados!

Porque falar de tudo isso, e o que isso tem a ver com o teatro? Bem, toda essa ansiedade acaba passando para o nosso corpo. Criando pequenos espasmos, características que ficam evidentes durante os exercícios. Caminhar em câmera lenta pode ser uma tortura. Eu percebo braços que balançam constantemente enquanto falo. Alguns exercícios duram menos do que deveriam por acharmos que “já deu”. Muitas vezes simplesmente não queremos “não fazer nada”. Ficar em silêncio pode ser um grande desafio. Ah, e às vezes não experimentamos por experimentar, simplesmente já esperamos a utilidade do que estamos fazendo.

É muito difícil nos libertarmos da visão mecanicista e produtivista das coisas, pois refletimos a cidade em que vivemos. Mas se há um espaço para subverter essas leis, é o teatro. Porque o teatro nos dá a oportunidade de moldarmos o tempo. Estamos distantes das maquinarias durante os ensaios, só temos ao nosso corpo, nossos sentidos. Muitos exercícios nos desafiam e nos trazem um novo corpo. Ou melhor, um nosso corpo que se esconde no dia-a-dia. Um corpo familiar, aconchegante e potente, ritualístico, que sempre esteve lá, mas soterrado pelas armaduras construídas para a sobrevivência urbana.


Por isso que é tão belo ver um corpo que dança, ver um corpo não-cotidiano em cena. Porque nos sentimos tocados nessa esfera sensível, em uma comunhão liberta desses aprisionamentos. Aos poucos, podemos ir trazendo essas experiências para o nosso dia-a-dia, os momentos de silêncio, de respiração, do corpo presente, atento, e então, não teríamos mais dois corpos divididos, o corpo urbano e o corpo que faz/vê teatro, mas um corpo livre, a partir dessas percepções sensíveis. Seríamos então, quem sabe, donos de nós mesmo, a partir da percepção de do domínio de nossos corpos.  Utopia?


Francis Bacon 
Figura em Movimento, 1976
Óleo sobre tela 198 x 147,5 cm
Genebra, Colecção Particular

24 de março de 2014

Inspirações...

O corpo é esvaziado dos seus órgãos. O arrancamento deixou uma nuvem flutuante de afetos, uma névoa de sensações num espaço atmosférico. Este meio é, sobretudo, afetivo. É percorrido por dinamismos caóticos sem ponto de ancoragem. A reversão do meio sobre a pele implica a transformação desta última; porque o afeto atrai a ele matérias que se confundem com a pele, por um lado, e, por outro, a pele torna-se matéria do devir. 

José Gil, no livro Movimento Total: O Corpo e a Dança. 


Nijinsky - Bailarina ou O Deus da Dança, 1975. 

17 de março de 2014

Fazer Arte é Sinônimo de Roubar (por Marcos Melo)

Quando um artista honesto é perguntado sobre de onde tira suas ideias, ele responde simplesmente "eu roubo". Essa é a opinião do escritor Austin Kleon. Para o cineasta Jim Jarmusch, originalidade não existe; a única meta possível de ser alcançada pelo artista é a autenticidade, conquistada a partir do roubo de tudo aquilo que fala diretamente à sua alma.

Um dos trabalhos atualmente desenvolvidos na Cia Plúmbea é diretamente inspirado (isto é, roubado) no clássico latinoamericano O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar. Quem acompanha o blog tem podido ver algo do progresso desse trabalho. Cortázar roubou fortes elementos, entre outros, do jazz, dos surrealistas franceses e de Edgar Allan Poe.

O escritor espanhol Augustin Fernandez Mallo, roubando várias ideias de Cortazar e de seu Jogo da Amarelinha, escreveu um livro incrível chamado Nocilla Dream, que tem causado tamanho impacto entre os escritores espanhóis que a atual geração já é conhecida como 'geração nocilla'. 

A Cia Plúmbea produziu seu primeiro filme de curta metragem em meados do ano passado, e nesse momento o filme está sendo editado. Em breve estará pronto o primeiro filme produzido pela Cia.

A ideia do filme foi roubada de um dos microcapítulos de Nocilla Dream, e mixada com um punhado de outras ideias roubadas de outros lugares.


De modo que, indiretamente, através de muitos roubos, Cortázar se encontra na origem de dois dos trabalhos atualmente desenvolvidos pela Cia Plúmbea. Talvez isso signifique alguma coisa. Talvez sejamos simplesmente ladrões que seguem um padrão misterioso.



11 de março de 2014

Inspirações...

"(...) Era engraçado o Théatre-Libre. Alguém dizia: são cinco horas. E havia um relógio de verdade que soava cinco horas. A liberdade de um relógio não é bem isso. Quando o relógio soar duzentas horas, aí é que começará o teatro." 

Giraudoux

"Sonho Causado pelo voo de uma abelha ao redor de uma romã um segundo antes de acordar" 
de Salvador Dali, 1944

24 de fevereiro de 2014

Em busca de vozes – processos (por Ana Cecilia Reis)

Para a pesquisa vocal do trabalho sobre Canudos, percebemos que era necessário um trabalho múltiplo de tonalidades, pois, somos somente duas atrizes no elenco e estaremos contando a história de milhares de pessoas. É necessário investigar timbres de personagens diversos; homens, mulheres, crianças, soldados, generais, religiosos, bem como de situações que permeiam a narrativa, tais como a guerra, as procissões, ladainhas, os momentos de diversão, de dor, etc.

Inicialmente começamos por um trabalho vibracional, inspirado nas caixas de ressonância de Grotowski, pois eu já havia trabalhado nessa linha com o diretor Ronaldo Ventura para o espetáculo A Arte de Enterrar seus Mortos. Entretanto, a Caju teve dificuldades em seguir esse processo, por mais que durante certos improvisos algumas sonoridades surgissem, quando o foco eram as vibrações e a fala, a potência desaparecia. Lembro-me de uma demonstração de trabalho da atriz Julia Varley, do Odin Teatret, onde ela contou que durante o treinamento vocal em grupo, ela era a única cujos exercícios não faziam efeito, então ela começou a criar seu próprio método para chegar ao mesmo resultado de seus colegas.

            Durante os processos de ensaio, comecei a ler o livro O Teatro Laboratório de Jerzy Grotowiski: 1959 – 1969, livro organizado por seu ator Ludwik Flaszen e me deparei com a conferência denominada “A Voz”. A partir dessa leitura, fui percebendo novas possibilidades do trabalho vocal, que poderiam ser a partir das vibrações ou não. O próprio Grotowski vai dizer que

Trabalhar com os vibradores tem, na base, uma única finalidade: fazer-nos entender que nossa voz não é limitada e que, na verdade, podemos fazer qualquer coisa com a voz, experimentar que o impossível é possível. E todo o resto pertence à esfera dos impulsos vivos (p. 161).

Partimos então para a busca desses impulsos vivos a partir de um exercício citado por ele, em que através da investigação da sonoridade de determinados animais encontrávamos estilos de falar/cantar, volume, potência, e também personalidade.

Escolhemos alguns animais para trabalhar. Ao improvisarmos com essas vozes, percebemos que existia uma forte integração entre a voz e o corpo, impulsionando novas posturas, deslocamentos, expressões faciais. Percebemos que dependendo do bicho escolhido os problemas de inibição de volume acabavam, pois a própria vibração do animal nos desinibia, gerando vozes potentes, altas, marcantes, e principalmente, múltiplas. Depois de algumas investigações escolhemos trabalhar mais aprofundadamente em um exercício utilizando um pato e um cabrito. Decidimos começar uma procissão com essas vozes esganiçadas e vibrantes.

Mesmo sendo apenas duas atrizes, a combinação dos dois animais gerou um efeito de multidão, principalmente se começássemos uma um pouquinho depois da outra. A partir desse exercício aparentemente simples, descobrimos uma potencialidade incrível. Mas é necessário lembrar que se não fossem os exercícios das caixas de ressonância em vibração, nós não teríamos atingido essa potência, e correríamos o risco de nos machucarmos, se forçássemos nossas cordas vocais. È necessário ter consciência da parte em que a voz do animal vibra, por exemplo, o pato possui vibração anasalada e o cabrito possui vibração na região da cabeça, frontal.

            Ainda estamos prosseguindo nas descobertas, mas ficamos felizes e impressionadas com esses resultados iniciais. Finalizo esse texto com uma citação do próprio Grotowski, sobre suas experimentações do tipo em seu Teatro Laboratório:

Certas mensagens me foram transmitidas pelos discos: por exemplo, o modo de cantar de Louis Armstrong. Enquanto o escutava, pensava que era falso dizer que ele era rouco, porque se pode observar entre os africanos esse mesmo modo de cantar: talvez seja mais um tipo de tradição antiga. Como canta Louis Armstrong? É como o canto de um tigre. Pude observar esse mesmo modo de cantar em certos tipo de teatro oriental clássico onde as mulheres interpretavam os papéis – até os papéis masculinos – e onde todos usavam somente essa voz, com a ressonância animal. Aí perguntei – “Qual o modelo para as suas vozes?” A resposta: “São todos os animais selvagens que cantam” (p.149).