Para
a pesquisa vocal do trabalho sobre Canudos, percebemos que era necessário um trabalho
múltiplo de tonalidades, pois, somos somente duas atrizes no elenco e estaremos
contando a história de milhares de pessoas. É necessário investigar timbres de
personagens diversos; homens, mulheres, crianças, soldados, generais, religiosos,
bem como de situações que permeiam a narrativa, tais como a guerra, as
procissões, ladainhas, os momentos de diversão, de dor, etc.
Inicialmente
começamos por um trabalho vibracional, inspirado nas caixas de ressonância de
Grotowski, pois eu já havia trabalhado nessa linha com o diretor Ronaldo
Ventura para o espetáculo A Arte de
Enterrar seus Mortos. Entretanto, a Caju teve dificuldades em seguir esse processo,
por mais que durante certos improvisos algumas sonoridades
surgissem, quando o foco eram as vibrações e a fala, a potência desaparecia. Lembro-me
de uma demonstração de trabalho da atriz Julia Varley, do Odin Teatret, onde
ela contou que durante o treinamento vocal em grupo, ela era a única cujos
exercícios não faziam efeito, então ela começou a criar seu próprio método para
chegar ao mesmo resultado de seus colegas.
Durante os processos de ensaio, comecei a ler o livro O Teatro Laboratório de Jerzy Grotowiski:
1959 – 1969, livro organizado por seu ator Ludwik Flaszen e me deparei com a conferência denominada “A Voz”. A partir dessa leitura, fui percebendo
novas possibilidades do trabalho vocal, que poderiam ser a partir das vibrações
ou não. O próprio Grotowski vai dizer que
Trabalhar
com os vibradores tem, na base, uma única finalidade: fazer-nos entender que
nossa voz não é limitada e que, na verdade, podemos fazer qualquer coisa com a
voz, experimentar que o impossível é possível. E todo o resto pertence à esfera
dos impulsos vivos (p. 161).
Partimos
então para a busca desses impulsos vivos a partir de um exercício citado por
ele, em que através da investigação da sonoridade de determinados animais
encontrávamos estilos de falar/cantar, volume, potência, e também
personalidade.
Escolhemos
alguns animais para trabalhar. Ao improvisarmos com essas vozes, percebemos que
existia uma forte integração entre a voz e o corpo, impulsionando novas
posturas, deslocamentos, expressões faciais. Percebemos que dependendo do bicho
escolhido os problemas de inibição de volume acabavam, pois a própria vibração
do animal nos desinibia, gerando vozes potentes, altas, marcantes, e
principalmente, múltiplas. Depois de algumas investigações escolhemos trabalhar mais aprofundadamente em um exercício utilizando um pato e um cabrito. Decidimos
começar uma procissão com essas vozes esganiçadas e vibrantes.
Mesmo
sendo apenas duas atrizes, a combinação dos dois animais gerou um efeito de multidão,
principalmente se começássemos uma um pouquinho depois da outra. A partir desse
exercício aparentemente simples, descobrimos uma potencialidade incrível. Mas é
necessário lembrar que se não fossem os exercícios das caixas de ressonância em
vibração, nós não teríamos atingido essa potência, e correríamos o risco de nos
machucarmos, se forçássemos nossas cordas vocais. È necessário ter consciência
da parte em que a voz do animal vibra, por exemplo, o pato possui vibração
anasalada e o cabrito possui vibração na região da cabeça, frontal.
Ainda estamos prosseguindo nas descobertas, mas ficamos
felizes e impressionadas com esses resultados iniciais. Finalizo esse texto com
uma citação do próprio Grotowski, sobre suas experimentações do tipo em seu
Teatro Laboratório:
Certas
mensagens me foram transmitidas pelos discos: por exemplo, o modo de cantar de
Louis Armstrong. Enquanto o escutava, pensava que era falso dizer que ele era
rouco, porque se pode observar entre os africanos esse mesmo modo de cantar:
talvez seja mais um tipo de tradição antiga. Como canta Louis Armstrong? É como
o canto de um tigre. Pude observar esse mesmo modo de cantar em certos tipo de
teatro oriental clássico onde as mulheres interpretavam os papéis – até os
papéis masculinos – e onde todos usavam somente essa voz, com a ressonância
animal. Aí perguntei – “Qual o modelo para as suas vozes?” A resposta: “São
todos os animais selvagens que cantam” (p.149).

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