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24 de fevereiro de 2014

Em busca de vozes – processos (por Ana Cecilia Reis)

Para a pesquisa vocal do trabalho sobre Canudos, percebemos que era necessário um trabalho múltiplo de tonalidades, pois, somos somente duas atrizes no elenco e estaremos contando a história de milhares de pessoas. É necessário investigar timbres de personagens diversos; homens, mulheres, crianças, soldados, generais, religiosos, bem como de situações que permeiam a narrativa, tais como a guerra, as procissões, ladainhas, os momentos de diversão, de dor, etc.

Inicialmente começamos por um trabalho vibracional, inspirado nas caixas de ressonância de Grotowski, pois eu já havia trabalhado nessa linha com o diretor Ronaldo Ventura para o espetáculo A Arte de Enterrar seus Mortos. Entretanto, a Caju teve dificuldades em seguir esse processo, por mais que durante certos improvisos algumas sonoridades surgissem, quando o foco eram as vibrações e a fala, a potência desaparecia. Lembro-me de uma demonstração de trabalho da atriz Julia Varley, do Odin Teatret, onde ela contou que durante o treinamento vocal em grupo, ela era a única cujos exercícios não faziam efeito, então ela começou a criar seu próprio método para chegar ao mesmo resultado de seus colegas.

            Durante os processos de ensaio, comecei a ler o livro O Teatro Laboratório de Jerzy Grotowiski: 1959 – 1969, livro organizado por seu ator Ludwik Flaszen e me deparei com a conferência denominada “A Voz”. A partir dessa leitura, fui percebendo novas possibilidades do trabalho vocal, que poderiam ser a partir das vibrações ou não. O próprio Grotowski vai dizer que

Trabalhar com os vibradores tem, na base, uma única finalidade: fazer-nos entender que nossa voz não é limitada e que, na verdade, podemos fazer qualquer coisa com a voz, experimentar que o impossível é possível. E todo o resto pertence à esfera dos impulsos vivos (p. 161).

Partimos então para a busca desses impulsos vivos a partir de um exercício citado por ele, em que através da investigação da sonoridade de determinados animais encontrávamos estilos de falar/cantar, volume, potência, e também personalidade.

Escolhemos alguns animais para trabalhar. Ao improvisarmos com essas vozes, percebemos que existia uma forte integração entre a voz e o corpo, impulsionando novas posturas, deslocamentos, expressões faciais. Percebemos que dependendo do bicho escolhido os problemas de inibição de volume acabavam, pois a própria vibração do animal nos desinibia, gerando vozes potentes, altas, marcantes, e principalmente, múltiplas. Depois de algumas investigações escolhemos trabalhar mais aprofundadamente em um exercício utilizando um pato e um cabrito. Decidimos começar uma procissão com essas vozes esganiçadas e vibrantes.

Mesmo sendo apenas duas atrizes, a combinação dos dois animais gerou um efeito de multidão, principalmente se começássemos uma um pouquinho depois da outra. A partir desse exercício aparentemente simples, descobrimos uma potencialidade incrível. Mas é necessário lembrar que se não fossem os exercícios das caixas de ressonância em vibração, nós não teríamos atingido essa potência, e correríamos o risco de nos machucarmos, se forçássemos nossas cordas vocais. È necessário ter consciência da parte em que a voz do animal vibra, por exemplo, o pato possui vibração anasalada e o cabrito possui vibração na região da cabeça, frontal.

            Ainda estamos prosseguindo nas descobertas, mas ficamos felizes e impressionadas com esses resultados iniciais. Finalizo esse texto com uma citação do próprio Grotowski, sobre suas experimentações do tipo em seu Teatro Laboratório:

Certas mensagens me foram transmitidas pelos discos: por exemplo, o modo de cantar de Louis Armstrong. Enquanto o escutava, pensava que era falso dizer que ele era rouco, porque se pode observar entre os africanos esse mesmo modo de cantar: talvez seja mais um tipo de tradição antiga. Como canta Louis Armstrong? É como o canto de um tigre. Pude observar esse mesmo modo de cantar em certos tipo de teatro oriental clássico onde as mulheres interpretavam os papéis – até os papéis masculinos – e onde todos usavam somente essa voz, com a ressonância animal. Aí perguntei – “Qual o modelo para as suas vozes?” A resposta: “São todos os animais selvagens que cantam” (p.149).






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