Nesse trecho do texto "Da Companhia Teatral à Arte Como Vanguarda" de Jerzy Grotowski*, o diretor reflete sobre a importância de formação de companhias teatrais em uma era da industrialização dos espetáculos, como uma forma de preservação da criatividade artística. Confiram:
“ (...) E quanto tempo é preciso
ensaiar?
Depende.
Stanislávski frequentemente ensaiava por um ano e chegou a trabalhar na mesma
coisa por três anos. Também Brecht trabalhava por longos períodos. Mas existe
algo como a duração média. Por exemplo, na Polônia, nos anos sessenta, o período
normal de ensaio era de três meses. Para os jovens diretores que preparam o seu
primeiro ou segundo espetáculo, pode ser oportuno ter diante de si uma data
definida para a estreia, dispondo de um período relativamente breve para os
ensaios, por exemplo, de dois meses e meio. De outro modo, podem abandonar-se a
um desperdício de tempo. No início do seu trabalho artístico, eles estão
repletos do material recolhido no decorrer da vida, material que ainda não foi
canalizado nas obras.
Por outro
lado, certos diretores aparentemente experientes admitem que, ao final do
período estabelecido de quatro semanas, não sabem mais o que fazer. Eis o
problema. Falta a cognição do que seja o trabalho com o ator e sobre a
encenação. Se querem obter em um mês os mesmos resultados que antes as famílias
dos atores obtinham em cinco dias, é lógico que, bem cedo, não se saiba mais o
que trabalhar. Os ensaios se tornam sempre mais sumários. Qual é a causa? A
comercialização. As companhias teatrais desaparecem, cedendo lugar à indústria do espetáculo; sobretudo nos
Estados Unidos, mas sempre mais também na Europa. Os teatros se tornam agências
que contratam o diretor, o qual, por sua vez – sozinho ou com o responsável
pela escalação do elenco (casting diretor)
– escolhe, entre dezenas ou centenas de candidatos, os atores para a estreia
programada; então começam os ensaios que duram semanas. O que significa tudo
isso?
É como cortar o bosque sem
plantar as árvores. Os atores não têm a possibilidade de encontrar algo que
seja uma descoberta artística e pessoal. Não podem. Portanto, para enfrentar,
devem explorar o que já sabem fazer e o que lhes deu sucesso – e isso vai
contra a criatividade. Porque criatividade é antes descobrir o que não se conhece.
É este o motivo-chave porque são necessárias as companhias. Elas dão a
possibilidade de renovar as descobertas artísticas. No trabalho de um grupo
teatral deve-se procurar uma continuidade por meio de cada uma das estreias que
se sucedem, durante um longo período de tempo e com a possibilidade de o ator
passar de um tipo de papel a outro. Os atores devem ter tempo para a pesquisa.
Então não é cortar o bosque, mas plantar as sementes da criatividade. (...)”
Na foto: Caju Bezerra e Ana Cecilia Reis durante processo de montagem sobre Canudos.

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