Pesquise o conteúdo deste blog!

27 de janeiro de 2014

Cortázar, Meierhold e o Jazz: novas descobertas na montagem de Rayuela

Julio Cortázar sempre inseriu a música em sua literatura, desde referências que permeiam a vida e o gosto pessoal de seus personagens até em suas construções estéticas onde cada frase se desencadeia em fluência, em um trabalho minucioso de ritmo e melodia, uma vertigem progressiva.

                Meierhold, grande encenador da vanguarda russa, considerava a gestão do ritmo um fator essencial para a justeza da encenação e a qualidade da emoção capaz de ser despertada no espectador. Esse ritmo não estava contido apenas na trilha sonora do espetáculo, mas na musicalidade do texto, no caminhar dos atores, nas pausas dos movimentos, etc.

                O Jazz (estilo musical) foi criado pelos negros no início do século, no delta do Mississippi e em New Orleans. Caracteriza-se pelo swing, balanço, maneira de tocar. Pode ser composto por improvisos temáticos ou individuação. Durante um tempo teve a função de ritual, herdada das reuniões de igreja, onde a participação da plateia era fundamental.

                Durante o processo de Rayuela, montagem que visa trabalhar com alguns capítulos do livro O Jogo da Amarelinha de Julio Cortázar, esbarramos na possibilidade de contato desses três elementos citados acima: a literatura, os exercícios de Meierhold e o improviso e o swing do jazz. A partir dessa descoberta, estamos criando partituras rítmicas para compor imagens cênicas, utilizando não somente a música como estímulo, mas também a composição dos textos e dos nossos corpos como material musical.

                Dessa forma, nossa intenção é, além de percorrer a trajetória dos casais Horácio e Maga em um jogo de amarelinha, conseguir arejar esse texto, conferindo diversas possibilidades de alcance e radiação dessa potência, não somente narrativa, mas sobretudo rítmica. Para isso, incluímos na nossa pesquisa os conceitos de teatro-dança.

                De acordo com Eugênio Barba no livro A Arte Secreta do Ator, a rígida distinção entre teatro e dança, que é típica da nossa cultura, revela “uma profunda ferida, um vazio de tradição que está sempre correndo o risco de atrair o ator para o mutismo do corpo e o dançarino para o virtuosismo” (p. 19).

Na concepção de Rudolf Laban, a dança como composição de movimentos pode ser comparada à linguagem oral. Assim como as palavras são formadas por letras, os movimentos são combinações de elementos e organizam-se sintaticamente, como os constituintes em orações.

                É através dessa pesquisa de outros sentidos, entrelaçando nossa composição como uma matemática emocional (como é a própria música), que buscamos nos apropriar do ponto em comum para Cortázar, Meierhold e o Jazz: a rigidez do ritmo que se transforma em elemento de composição livre.


     Kandinsky: Image Composition VIII (1923)

Nenhum comentário: