Julio Cortázar
sempre inseriu a música em sua literatura, desde referências que permeiam a
vida e o gosto pessoal de seus personagens até em suas construções estéticas onde
cada frase se desencadeia em fluência, em um trabalho minucioso de ritmo e
melodia, uma vertigem progressiva.
Meierhold,
grande encenador da vanguarda russa, considerava a gestão do ritmo um fator
essencial para a justeza da encenação e a qualidade da emoção capaz de ser
despertada no espectador. Esse ritmo não estava contido apenas na trilha sonora
do espetáculo, mas na musicalidade do texto, no caminhar dos atores, nas pausas
dos movimentos, etc.
O
Jazz (estilo musical) foi criado pelos negros no início do século, no delta do Mississippi
e em New Orleans. Caracteriza-se pelo swing, balanço, maneira de tocar. Pode ser
composto por improvisos temáticos ou individuação. Durante um tempo teve a
função de ritual, herdada das reuniões de igreja, onde a participação da plateia
era fundamental.
Durante
o processo de Rayuela, montagem que
visa trabalhar com alguns capítulos do livro O Jogo da Amarelinha de Julio Cortázar, esbarramos na possibilidade de contato desses
três elementos citados acima: a literatura, os exercícios de Meierhold e o
improviso e o swing do jazz. A partir dessa descoberta, estamos criando
partituras rítmicas para compor imagens cênicas, utilizando não somente a música
como estímulo, mas também a composição dos textos e dos nossos corpos como
material musical.
Dessa
forma, nossa intenção é, além de percorrer a trajetória dos casais Horácio e
Maga em um jogo de amarelinha, conseguir arejar esse texto, conferindo diversas
possibilidades de alcance e radiação dessa potência, não somente narrativa, mas
sobretudo rítmica. Para isso, incluímos na nossa pesquisa os conceitos de
teatro-dança.
De
acordo com Eugênio Barba no livro A Arte
Secreta do Ator, a rígida distinção entre teatro e dança, que é típica da
nossa cultura, revela “uma profunda ferida, um vazio de tradição que está
sempre correndo o risco de atrair o ator para o mutismo do corpo e o dançarino
para o virtuosismo” (p. 19).
Na concepção
de Rudolf Laban, a dança como composição de movimentos pode ser comparada à
linguagem oral. Assim como as palavras são formadas por letras, os movimentos
são combinações de elementos e organizam-se sintaticamente, como os
constituintes em orações.
É
através dessa pesquisa de outros sentidos, entrelaçando nossa composição como
uma matemática emocional (como é a própria música), que buscamos nos apropriar
do ponto em comum para Cortázar, Meierhold e o Jazz: a rigidez do ritmo que se
transforma em elemento de composição livre.

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