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13 de janeiro de 2014

Imagens e Memória no trabalho sobre Canudos (por Ana Cecilia Reis)

A nossa Cia se propõe ser um grupo de pesquisa, investigação, e para isso é necessário que haja verdadeiros descobrimentos e também problemas a serem resolvidos, desafios. Muitas vezes é fácil cairmos na tentação de pegar a plasticidade de certos exercícios e colocá-lo na cena, buscando uma resolução apenas imagética. Claro que não há o menor problema de se agir assim, e existem muitos processos que seguem essa linha e apresentam resultados muito bons. Mas é preciso honestidade quando a proposta é outra, não podemos deixar que o objetivo de se montar um espetáculo seja mais importante do que o processo de descobertas. Esse é um grande desafio, que Grotowski vai sempre citar em suas palestras sobre o ofício do teatro. É preciso atentar durante um processo de trabalho, se de fato ele está acontecendo de forma ética.

No processo da montagem de Canudos, começamos a partir da mimesis corpórea de xilogravuras do artista Adir Botelho sobre o tema. Partimos de um lugar estritamente plástico. Mas através desse lugar percebemos a possibilidade de atingir um lugar que nos gerasse impulsos de ação verdadeiros, um entendimento físico e mental do que nos fez estar atraídas pelo tema e por aquelas imagens.

Responsável pelo treinamento e direção do trabalho, eu propus exercícios com intenções que se transformaram ao longo do processo, e a partir dos resultados, foi necessária sensibilidade a esses novos estados que apareceram, além das intenções iniciais.

Dentre esses exercícios, dois merecem destaque:

O primeiro é um exercício simples, onde através de um improviso “muscular”, ou seja, de exercícios que trabalham diretamente as possibilidades do movimento, fossem estimulados livremente sons e vozes a partir de uma necessidade real de que eles ocorressem. No início temos sempre a questão: “será que estou me enganando? Como saberei se o que faço é de fato verdadeiro?” Para mim, esse lugar não é um estado racional, ou que pode ser forçado, é um momento sensível, e a partir do momento em que você sente essa verdade, quando se atinge esse estado de “consciência inconsciente”, ou seja, quando apesar de estar consciente da ação, é o seu corpo que comanda as necessidades dessa ação, não há mais possibilidade de fingir durante um exercício, pois você conhece, de uma maneira verdadeira - que ultrapassa o seu julgamento crítico racional - o que é ser pleno. Mas acredito que esse movimento verdadeiro e necessário não faz parte de um manual ou uma regra, ele pode estar presente ou não durante o exercício, devemos estar abertos para ele, mas a partir do momento em que forçamos esse estado já estamos fingindo. O que existe é que aos poucos vamos encontrando esse estado como um lugar familiar. O processo é árduo e delicado.

Voltando ao exercício das vozes, através da busca da “voz dos nossos músculos”, encontramos não um exercício de virtuosismo vocal, mas sim um exercício de destravamento do corpo. E também percebemos o contrário; que o corpo destrava nossa voz. E então, conseguimos um improviso sincero, que nos levou a descobrir novas potências de trabalho.

O segundo exercício é um trabalho a partir de algumas máscaras faciais retiradas das xilogravuras do Adir. Queríamos de alguma maneira encontrar um corpo para essas máscaras, descobrir o que elas nos dizem. Um detalhe importante era não cairmos na facilidade de começar a fazer o corpo que achamos que a máscara tinha. Isso nos levaria para um lugar farsesco, caricato e puramente plástico. Por isso, decidi que antes de fazermos qualquer movimento, era necessário deixar que a máscara te levasse ao movimento. A partir de uma vontade. Começamos paradas e deixamos que a máscara facial nos guiasse. Caso não houvesse necessidade de sair do lugar, tudo bem. É preciso tirar da cabeça essa obrigatoriedade que os atores têm de sempre estarem fazendo alguma coisa. Se nada pede que você aja, não aja. Mas esteja atento a essa necessidade de ação, estimule-a.

Com o exercício das máscaras faciais descobrimos lugares muito originais, que nunca sequer sonharíamos. Cenas e situações, assim como alguns personagens muito fortes, cheios de atitude, já se mostraram presentes. Para não perder essas conquistas, devemos trabalhar mais vezes: caso as características se percam durante o processo, é que não eram verdadeiras. O interessante nesse trabalho é que a máscara é nosso rosto, e existe uma série de músculos trabalhando que nos geram compensações e estímulos, bem como sensações e emoções provindas do movimento desses músculos faciais.


Resumindo, através desses exercícios estamos encontrando a potência dessas imagens no nosso corpo, e a partir disso, construindo uma dramaturgia de imagens e memórias, ainda que um pouco confusas e fragmentadas, mas que certamente nos levarão a um ponto de encontro. 


 Detalhe de No compasso (1994) xilogravura de Adir Botelho

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