A nossa Cia se
propõe ser um grupo de pesquisa, investigação, e para isso é necessário que haja
verdadeiros descobrimentos e também problemas a serem resolvidos, desafios.
Muitas vezes é fácil cairmos na tentação de pegar a plasticidade de certos
exercícios e colocá-lo na cena, buscando uma resolução apenas imagética. Claro
que não há o menor problema de se agir assim, e existem muitos processos que
seguem essa linha e apresentam resultados muito bons. Mas é preciso honestidade
quando a proposta é outra, não podemos deixar que o objetivo de se montar um
espetáculo seja mais importante do que o processo de descobertas. Esse é um
grande desafio, que Grotowski vai sempre citar em suas palestras sobre o ofício
do teatro. É preciso atentar durante um processo de trabalho, se de fato ele
está acontecendo de forma ética.
No processo da
montagem de Canudos, começamos a partir da mimesis corpórea de xilogravuras do
artista Adir Botelho sobre o tema. Partimos de um lugar estritamente plástico.
Mas através desse lugar percebemos a possibilidade de atingir um lugar que nos
gerasse impulsos de ação verdadeiros, um entendimento físico e mental do que
nos fez estar atraídas pelo tema e por aquelas imagens.
Responsável
pelo treinamento e direção do trabalho, eu propus exercícios com intenções que
se transformaram ao longo do processo, e a partir dos resultados, foi necessária
sensibilidade a esses novos estados que apareceram, além das intenções iniciais.
Dentre esses
exercícios, dois merecem destaque:
O primeiro é
um exercício simples, onde através de um improviso “muscular”, ou seja, de
exercícios que trabalham diretamente as possibilidades do movimento, fossem
estimulados livremente sons e vozes a partir de uma necessidade real de que
eles ocorressem. No início temos sempre a questão: “será que estou me
enganando? Como saberei se o que faço é de fato verdadeiro?” Para mim, esse
lugar não é um estado racional, ou que pode ser forçado, é um momento sensível,
e a partir do momento em que você sente essa verdade, quando se atinge esse
estado de “consciência inconsciente”, ou seja, quando apesar de estar consciente
da ação, é o seu corpo que comanda as necessidades dessa ação, não há mais
possibilidade de fingir durante um exercício, pois você conhece, de uma maneira
verdadeira - que ultrapassa o seu julgamento crítico racional - o que é ser
pleno. Mas acredito que esse movimento verdadeiro e necessário não faz parte de
um manual ou uma regra, ele pode estar presente ou não durante o exercício,
devemos estar abertos para ele, mas a partir do momento em que forçamos esse
estado já estamos fingindo. O que existe é que aos poucos vamos encontrando
esse estado como um lugar familiar. O processo é árduo e delicado.
Voltando ao exercício
das vozes, através da busca da “voz dos nossos músculos”, encontramos não um
exercício de virtuosismo vocal, mas sim um exercício de destravamento do corpo.
E também percebemos o contrário; que o corpo destrava nossa voz. E então, conseguimos
um improviso sincero, que nos levou a descobrir novas potências de trabalho.
O segundo
exercício é um trabalho a partir de algumas máscaras faciais retiradas das
xilogravuras do Adir. Queríamos de alguma maneira encontrar um corpo para essas
máscaras, descobrir o que elas nos dizem. Um detalhe importante era não cairmos
na facilidade de começar a fazer o corpo que achamos que a máscara tinha. Isso
nos levaria para um lugar farsesco, caricato e puramente plástico. Por isso,
decidi que antes de fazermos qualquer movimento, era necessário deixar que a
máscara te levasse ao movimento. A partir de uma vontade. Começamos paradas e
deixamos que a máscara facial nos guiasse. Caso não houvesse necessidade de
sair do lugar, tudo bem. É preciso tirar da cabeça essa obrigatoriedade que os
atores têm de sempre estarem fazendo alguma coisa. Se nada pede que você aja,
não aja. Mas esteja atento a essa necessidade de ação, estimule-a.
Com o
exercício das máscaras faciais descobrimos lugares muito originais, que nunca
sequer sonharíamos. Cenas e situações, assim como alguns personagens muito
fortes, cheios de atitude, já se mostraram presentes. Para não perder essas
conquistas, devemos trabalhar mais vezes: caso as características se percam
durante o processo, é que não eram verdadeiras. O interessante nesse trabalho é
que a máscara é nosso rosto, e existe uma série de músculos trabalhando que nos
geram compensações e estímulos, bem como sensações e emoções provindas do movimento
desses músculos faciais.
Resumindo,
através desses exercícios estamos encontrando a potência dessas imagens no
nosso corpo, e a partir disso, construindo uma dramaturgia de imagens e
memórias, ainda que um pouco confusas e fragmentadas, mas que certamente nos
levarão a um ponto de encontro.
Detalhe de No compasso (1994) xilogravura de Adir Botelho

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