“Diga um defeito seu? Sou muito
ansioso!”
Essa deve ser a
resposta de 90 % dos entrevistados em qualquer empresa de RH. E de fato, a
maioria de nós é um poço de ansiedade. Isso é muito natural, pois vivemos
cercados de “urgências”. A internet é uma valiosa ferramenta de pesquisa e
socialização, mas também nos provocou a dispersão de atenção e a exigência de
um olhar cada vez mais rápido, bem como uma sede de novidades e acontecimentos.
Cada barulhinho de mensagem nos faz automaticamente parar o que estamos fazendo
e verificar as notificações, sempre tão mais importantes do que o momento
presente. Depois a internet passou a ser móvel, e então passamos a estar
conectados 24 horas. Resultado: ansiedade multiplicada.
Afinal, aquele
e-mail importante não pode deixar de ser respondido, mesmo que se esteja
conversando com alguém, ou almoçando. Mas se pararmos para pensar, há uns 05
anos atrás só responderíamos o e-mail quando chegássemos em casa. E ninguém
morria. Também me lembro, há mais de 10 anos, como a falta de celular nos fazia
menos desesperados. Quando eu viajava, às vezes passava uma semana fora e
ligava para minha mãe apenas uma vez, para avisar que cheguei, ou que estava
indo embora. Hoje, se eu não respondo uma mensagem, já passa pela cabeça de
muita gente que fui sequestrada. Ansiedade, ansiedade, ansiedade. Precisamos
sempre ler muito, estarmos antenados, não podemos nunca chegar atrasados, pois
isso é uma irresponsabilidade, mas o trânsito... ah, o trânsito! Quantas unhas roídas
ao pegar todos os sinais fechados!
Porque falar de
tudo isso, e o que isso tem a ver com o teatro? Bem, toda essa ansiedade acaba
passando para o nosso corpo. Criando pequenos espasmos, características que
ficam evidentes durante os exercícios. Caminhar em câmera lenta pode ser uma
tortura. Eu percebo braços que balançam constantemente enquanto falo. Alguns exercícios
duram menos do que deveriam por acharmos que “já deu”. Muitas vezes
simplesmente não queremos “não fazer nada”. Ficar em silêncio pode ser um
grande desafio. Ah, e às vezes não experimentamos por experimentar,
simplesmente já esperamos a utilidade do que estamos fazendo.
É muito difícil
nos libertarmos da visão mecanicista e produtivista das coisas, pois refletimos
a cidade em que vivemos. Mas se há um espaço para subverter essas leis, é o
teatro. Porque o teatro nos dá a oportunidade de moldarmos o tempo. Estamos
distantes das maquinarias durante os ensaios, só temos ao nosso corpo, nossos
sentidos. Muitos exercícios nos desafiam e nos trazem um novo corpo. Ou melhor,
um nosso corpo que se esconde no dia-a-dia. Um corpo familiar, aconchegante
e potente, ritualístico, que sempre esteve lá, mas soterrado pelas armaduras
construídas para a sobrevivência urbana.
Por isso que é
tão belo ver um corpo que dança, ver um corpo não-cotidiano em cena. Porque nos
sentimos tocados nessa esfera sensível, em uma comunhão liberta desses
aprisionamentos. Aos poucos, podemos ir trazendo essas experiências para o
nosso dia-a-dia, os momentos de silêncio, de respiração, do corpo presente,
atento, e então, não teríamos mais dois corpos divididos, o corpo urbano e o
corpo que faz/vê teatro, mas um corpo livre, a partir dessas percepções
sensíveis. Seríamos então, quem sabe, donos de nós mesmo, a partir da percepção
de do domínio de nossos corpos. Utopia?
Francis Bacon
Figura em Movimento, 1976
Óleo sobre tela 198 x 147,5 cm
Genebra, Colecção Particular




