(Essa postagem é uma continuação
de relatos de trabalho que podem ser acompanhados
aqui, e
aqui )
Após algumas apresentações,
durante os debates ou bate-papos informais de bar, algumas pessoas se
interessaram em saber como criamos a dramaturgia do espetáculo Terrabatida: Reminiscência de Canudos.
Essa postagem pretende pontuar algumas das nossas referências e caminhos para essa
composição.
Como já foi dito, nossa primeira
inspiração dramatúrgica foram as imagens das xilogravuras de Adir Botelho. Além das imagens, no catálogo
da exposição Espanto e Barbárie em
Canudos encontrávamos inspirações nos trechos retirados do livro Os Sertões de Euclides da Cunha. Apesar de não anteciparmos nenhuma leitura dos
textos que acompanhavam as imagens durante as experimentações, ao final sempre
nos deparávamos com gratas surpresas de afinidade ou de total estranhamento ao
que havíamos proposto improvisando, o que nos acrescentava camadas de leitura.
O primeiro livro que nos
acompanhou no início do processo foi Os
Sertões, clássico já citado.
Enquanto íamos explorando as figuras das
xilogravuras em nossos corpos, íamos começando a saga literária. E não foi uma
leitura fácil. Passamos uns seis meses pela extensa análise da Terra, do Homem,
da Luta. Eu e Caju (primeira companheira de percurso nessa viagem) íamos
sublinhando frases que nos inspiravam, imagens fortes, frases racistas que nos
irritavam, sempre tentando sair do senso comum. Muitas imagens foram
abandonadas, mas marcaram nosso inconsciente. Ossos, animais, cores, calor,
escombros, pobreza, procissão, sangue, miséria, força militar... as palavras nos
levavam para muitos caminhos, e íamos conversando sobre o que nos estimulava e
sobre por onde não queríamos seguir. Não nos interessava puxar um sotaque
baiano, contar a história toda com figurino de pano cru. Não queríamos reforçar
um estereótipo já tão visado pelas novelas e filmes. Não nos cabia na verdade,
contar a história linear. Não me interessei por colocar a figura do Antônio
Conselheiro como uma imitação, ainda mais após lermos outro livro com
diferentes visões sobre sua figura, chamado Belo Monte: uma história da Guerra de Canudos de José Rivair Macedo e Mário Maestri, que apresenta uma
leitura mais popular e social acerca do massacre e da figura do Antônio, saindo
um pouco da leitura de louco, fanático religioso e pensando-o como um líder de
um movimento das classes menos favorecidas. Diante de tantas leituras,
interpretá-lo seria limitá-lo. Então Antônio surgiu como imagem, como música,
como mito na boca do povo.
O Nordeste é Invenção. Sim. No
tempo dos nossos avós, não existia Nordeste. Existia Norte e Sul. O Nordeste é
um produto imagético-discursivo, um recorte espacial imaginário. Quem vai
destrinchar essa questão é o professor Durval Muniz de Albuquerque no seu
livro A Invenção do Nordeste e Outras
Artes. Eita. Que baque. Pois é. Como carioca, do séc. XXI, falar de uma
guerra que aconteceu na Bahia no final do séc. XIX era uma responsabilidade
grande. E a Invenção do Nordeste acabou se tornando nossa introdução, a partir
de palavras recortadas e costuradas. “Costurar
a memória, história tecida, de fios de lacunas de buracos”. Nos posicionamos: nosso trabalho era partir de
diferentes visões, recortes, sobreposições. Terrabatida iria se apresentar,
também como a nossa invenção aglutinadora, pensando a nossa realidade, nosso
tempo.
Continuando as pesquisas, nos
deparamos com um achado peculiar: Veredicto
em Canudos de Sandor Marái. Um
livro de ficção de um escritor húngaro (!) muito provocativo sobre a partir do
tema. Pensar que a história de Canudos atingiu
pessoas de terras tão distantes nos trouxe o sentimento de que o massacre não
precisava ser narrado apenas como um acontecimento histórico, mas que ele
estava vivo e fértil, capaz de abrir portas também para a imaginação e
adaptações. Do livro de Marai saíram frases cruciais que sentimos necessidade
de colocar em cena, uma inclusive parecia dizer exatamente o cerne da questão que
estávamos desenvolvendo: “A memória é
que nem doença de pele: coça e arde”. Canudos nos atravessava exatamente assim.
A memória dessa história não passava por nós somente pelos registros escritos,
mas pelas imagens, pelo corpo, pelas sensações. Parafraseando Zé Celso: A experiência da sobrevivência na
noite desses anos, sua memória,
está gravada no corpo...
Outro livro na linha de romance
histórico-ficcional que lemos foi A
Guerra do Fim do Mundo de Mario
Vargas Llosa, onde nos inspiramos para criar o discurso do General Moreira
César antes de partir para a expedição onde seria exterminado.
Corpo, imagem, texto. Muita coisa
ainda não foi citada aqui, mas vamos deixar para a próxima porque já está
ficando longo. Pretendo continuar nas próximas postagens falando das
referências cinematográficas, musicais, jornalísticas e como isso tudo foi se
alinhavando, e como o Rio de Janeiro do séc. XXI entrou nessa história...
Até breve!
=)