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11 de outubro de 2016

A Flor da Pele: relato de criação teatral (3ª parte) - por Ana Cecilia Reis

(Essa postagem é uma continuação de relatos de trabalho que podem ser acompanhados aqui, e aqui )

Após algumas apresentações, durante os debates ou bate-papos informais de bar, algumas pessoas se interessaram em saber como criamos a dramaturgia do espetáculo Terrabatida: Reminiscência de Canudos. Essa postagem pretende pontuar algumas das nossas referências e caminhos para essa composição.

Como já foi dito, nossa primeira inspiração dramatúrgica foram as imagens das xilogravuras de Adir Botelho. Além das imagens, no catálogo da exposição Espanto e Barbárie em Canudos encontrávamos inspirações nos trechos retirados do livro Os Sertões de Euclides da Cunha. Apesar de não anteciparmos nenhuma leitura dos textos que acompanhavam as imagens durante as experimentações, ao final sempre nos deparávamos com gratas surpresas de afinidade ou de total estranhamento ao que havíamos proposto improvisando, o que nos acrescentava camadas de leitura.
O primeiro livro que nos acompanhou no início do processo foi Os Sertões, clássico já citado. 

Enquanto íamos explorando as figuras das xilogravuras em nossos corpos, íamos começando a saga literária. E não foi uma leitura fácil. Passamos uns seis meses pela extensa análise da Terra, do Homem, da Luta. Eu e Caju (primeira companheira de percurso nessa viagem) íamos sublinhando frases que nos inspiravam, imagens fortes, frases racistas que nos irritavam, sempre tentando sair do senso comum. Muitas imagens foram abandonadas, mas marcaram nosso inconsciente. Ossos, animais, cores, calor, escombros, pobreza, procissão, sangue, miséria, força militar... as palavras nos levavam para muitos caminhos, e íamos conversando sobre o que nos estimulava e sobre por onde não queríamos seguir. Não nos interessava puxar um sotaque baiano, contar a história toda com figurino de pano cru. Não queríamos reforçar um estereótipo já tão visado pelas novelas e filmes. Não nos cabia na verdade, contar a história linear. Não me interessei por colocar a figura do Antônio Conselheiro como uma imitação, ainda mais após lermos outro livro com diferentes visões sobre sua figura, chamado Belo Monte: uma história da Guerra de Canudos de José Rivair Macedo e Mário Maestri, que apresenta uma leitura mais popular e social acerca do massacre e da figura do Antônio, saindo um pouco da leitura de louco, fanático religioso e pensando-o como um líder de um movimento das classes menos favorecidas. Diante de tantas leituras, interpretá-lo seria limitá-lo. Então Antônio surgiu como imagem, como música, como mito na boca do povo.

O Nordeste é Invenção. Sim. No tempo dos nossos avós, não existia Nordeste. Existia Norte e Sul. O Nordeste é um produto imagético-discursivo, um recorte espacial imaginário. Quem vai destrinchar essa questão é o professor  Durval Muniz de Albuquerque no seu livro A Invenção do Nordeste e Outras Artes. Eita. Que baque. Pois é. Como carioca, do séc. XXI, falar de uma guerra que aconteceu na Bahia no final do séc. XIX era uma responsabilidade grande. E a Invenção do Nordeste acabou se tornando nossa introdução, a partir de palavras recortadas e costuradas. “Costurar a memória, história tecida, de fios de lacunas de buracos”.  Nos posicionamos: nosso trabalho era partir de diferentes visões, recortes, sobreposições. Terrabatida iria se apresentar, também como a nossa invenção aglutinadora, pensando a nossa realidade, nosso tempo.

Continuando as pesquisas, nos deparamos com um achado peculiar: Veredicto em Canudos de Sandor Marái. Um livro de ficção de um escritor húngaro (!) muito provocativo sobre a partir do tema. Pensar que a história de Canudos atingiu pessoas de terras tão distantes nos trouxe o sentimento de que o massacre não precisava ser narrado apenas como um acontecimento histórico, mas que ele estava vivo e fértil, capaz de abrir portas também para a imaginação e adaptações. Do livro de Marai saíram frases cruciais que sentimos necessidade de colocar em cena, uma inclusive parecia dizer exatamente o cerne da questão que estávamos desenvolvendo: “A memória é que nem doença de pele: coça e arde”. Canudos nos atravessava exatamente assim. A memória dessa história não passava por nós somente pelos registros escritos, mas pelas imagens, pelo corpo, pelas sensações. Parafraseando Zé Celso: A experiência da sobrevivência na noite desses anos,  sua memória, está gravada no corpo...  

Outro livro na linha de romance histórico-ficcional que lemos foi A Guerra do Fim do Mundo de Mario Vargas Llosa, onde nos inspiramos para criar o discurso do General Moreira César antes de partir para a expedição onde seria exterminado.

Corpo, imagem, texto. Muita coisa ainda não foi citada aqui, mas vamos deixar para a próxima porque já está ficando longo. Pretendo continuar nas próximas postagens falando das referências cinematográficas, musicais, jornalísticas e como isso tudo foi se alinhavando, e como o Rio de Janeiro do séc. XXI entrou nessa história...
Até breve!

=)






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