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1 de setembro de 2016

Luto: substantivo e verbo.

AS NOVAS ERAS
As novas eras não começam de uma vez
Meu avô já vivia no novo tempo
Meu neto viverá talvez ainda no velho.
A nova carne é comida com os velhos garfos.
(...)
Das novas antenas vêm as velhas tolices.
A sabedoria é transmitida de boca em boca.
Bertolt Brecht
(trad. Paulo César de Souza)



25 de agosto de 2016

Inspirações...

“(...) Ah, querido irmão, às vezes sei tão bem o que quero. Na vida e na pintura, posso bem renunciar ao bom vinho, mas não posso, eu que sofro, renunciar a algo maior do que eu, que é a minha vida, a potência criativa. (...) E quando estamos frustrados na potência física, tentamos dar vida aos pensamentos no lugar dos filhos, e participamos assim da humanidade. E com um quadro, quero exprimir algo comovente como uma música. Gostaria de pintar homens e mulheres como algo de eterno, aquilo do qual o símbolo já foi a auréola, e que agora tentamos representar com o mesmo esplendor usando a vibração das cores”.

Van Gogh, em carta para seu irmão Theo.

 Retrato de Eugène Boch, 1888.

17 de agosto de 2016

A política, o teatro e o que eu tenho a ver com isso (por Ana Cecilia Reis)

Em meio a tantos acontecimentos grotescos na política nacional e internacional, em meio às Olimpíadas, ao extermínio silencioso da população negra, gay, trans, em meio às remoções em função de uma cidade higienizada, em meio à exclusão da maioria dos cariocas ao direito de morar e transitar pela cidade, em meio ao golpe, ao silenciamento da democracia, à perda de direitos básicos, ao sucateamento das escolas e do ensino superior, em meio à bancada evangélica tomando poder na sua forma mais grotesca e preconceituosa em meio a... (infelizmente a lista é tão extensa e triste que prefiro parar por aqui), tive um baque há alguns meses ao perceber que minha voz era pequena, quase nula, que repetia diariamente coisas para amigos e amigas que já sabiam a minha opinião e concordavam. Eu me fortalecia nesse eco de vozes unificadas, mas era evidente que só atingia quem já queria me ouvir (a gente só aprende o que já sabe?). Me senti muda, impotente, ao gritar, ao escrever, ao levantar cartazes, porque ao meu redor existia uma surdez absoluta, um total aniquilamento do diálogo e da troca de ideias diferentes. Então me calei. Me calei virtualmente. Me calei fisicamente. Parei de ir para as ruas. Me calei, tentei refletir sobre onde eu estava, o que fazia. Refletir sobre as máquinas internas do sistema, que eu entendo tão pouco.

Como é difícil... Vejo que a força presente nas ocupações, nas ruas, na militância diária é necessária, mas não achei o meu lugar ali. Não achei e me sentia falsa apenas compartilhando, compartilhando para os meus, apoiando com um clique, sentada... E quando saía, percebia a força do coletivo que grita, que luta e que quer, mas as vozes dissonantes também me assustavam e me retraía ao reconhecer velhas fórmulas de politicagem disfarçadas, e percebia que nunca tive a malícia necessária para contornar os desvios que um discurso de lobo em pele de cordeiro pode alcançar.
Mas, apesar de tudo, é preciso continuar. Mas como não proclamar o discurso hipócrita da “intelectual sensível” que faz sua arte enquanto tudo desmorona ao redor? Por isso também calei. Era como estar numa cúpula falando comigo mesma que o teatro e a arte irão salvar a humanidade e que então tudo bem, porque é isso que precisar ser feito e é aos poucos, aos poucos, aos poucos... Ignorando que 90% das pessoas que eu conheço não vão ao teatro. Ignorando a pífia quantidade de leitores no país, ignorando...
Percebem em que labirinto me coloco? É fundamental o desenvolvimento do pensamento sensível e crítico através do acesso à arte, isso é transformador. A busca pela experiência coletiva, através do lúdico, do jogo, do rito, é o que vai nos tirar do poço sem fundo da busca cega pelo lucro e pelo consumo em que nos encontramos, gerando uma sociedade depressiva, arrogante, alienada. O cotidiano massacra qualquer tentativa de diferenciação, do direito de apenas ser, ou de se permitir descobrir algo que não siga um protocolo. Eu sei. Mas ainda assim, as ações parecem insuficientes, invisíveis.
Ainda quieta, ainda observando, e tentando estar consciente de todas as contradições que esse texto (talvez inútil) envolve, admito que não há outra escolha para mim que não seja a de fazer e estar no teatro. Se é o que continua pulsando, utilizo essa ferramenta como ação porque ainda que como uma fagulha, a cada dia de apresentação, a cada tentativa de circulação, a cada não que aceito de cabeça erguida pronta para outra, é o que ainda faz sentido por aqui. Ainda que sem dinheiro, ainda que sem espaço (um teatro inteiro cabe no corpo do ator), não posso deixar de me apresentar nunca, porque é no brilho do olhar do outro, é no susto pelo estranho, é na revolta da discórdia, é no diálogo para o novo que eu percebo que ainda estamos vivos, e fortes. Atuar no dissenso. Então, torço para que as pessoas encontrem o que faz sentido por aí, o que faz vibrar, e que a gente descubra uma força nova e limpa, a partir do esgotamento em que nos encontramos. Não é uma solução, mas “o fim está no começo e no entanto continua-se”.

10 de agosto de 2016

Edgar Morin



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Não basta mais denunciar. 
Doravante precisamos enunciar. 
Não basta apenas relembrar a urgência.
É preciso também saber começar.


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3 de agosto de 2016

Festival Nacional de Barbacena: Premiação

A Cia Plúmbea volta do Festival Nacional de Barbacena cheia de alegria no coração!
O espetáculo Terrabatida: Reminiscência de Canudos ganhou os prêmios de:
MELHOR DIREÇÃO: Ana Cecilia Reis
MELHOR ATOR: Paulo Barbeto
E recebeu indicações:
MELHOR ATRIZ
MELHOR ESPETÁCULO
MELHOR TRILHA SONORA
MELHOR CENÁRIO
Agradecemos muito o carinho de todas as pessoas envolvidas que fizeram esse Festival acontecer, com todos os dias lotados (maior público que já tivemos)! Adoramos a sede de arte, de debate, de encontros! Saímos com a mala cheia de contatos e trocas riquíssimas!
Agradecemos à nossa equipe maravilhosa que fez com que esses prêmios fossem possíveis: Raphael Vianna, Mariana Pimentel, Pedro Martins e Fernanda Almeida!
Sigamos!!

Foto: Márcio Oliveira 


28 de julho de 2016

Inspirações...

“A arte “singulariza os objetos”, obscurece as formas familiares e incrementa a dificuldade e a duração da percepção. Na arte, o ato perceptivo é um fim em si mesmo e deve ser prolongado. A arte é um meio de experimentar o devir do objeto: aquilo que ele já é, na arte é despojado de importância. O processo artístico é assim a liberação do objeto do automatismo da percepção".
Victor Chklovski no ensaio A arte como técnica (1917)


Foto de Márcio Oliveira. Paulo Barbeto em Terrabatida: Reminiscência de Canudos.

21 de julho de 2016

Rayuela: demonstração de trabalho na Unirio

No final deste semestre na Unirio, em maio, a Cia Plúmbea apresentou cenas de Rayuela como trabalho final do ator Paulo Barbeto para a disciplina Estéticas do Teatro.  Agradecemos à Samia Oliveira pelo registro! Abaixo seguem alguns trechos e fotos da apresentação. Para ler na íntegra acessem AQUI.



O Jogo da Amarelinha é um estudo rítmico/musical e um manifesto literário que propõe novas formas de leitura, de percepção artística: nesse sentido, o leitor é um agente de criação quase tão importante quanto o autor, já que ele também poderá propor caminhos de apreensão da obra, variações de recepção da mesma. O mais importante aqui é perceber o livro de forma sensorial e particular.”


“Beatrice Picon-Vallin, dissertando sobre a criação teatral de Meyerhold pertinente a esse período, afirma que “em vez do psicologismo, o princípio diretor da atuação se torna plástico” e que se “trata de trabalhar ênfases visuais, não ênfases lógicas; de revelar, não de exprimir”. O ator deveria, portanto, “sentir a forma e não simplesmente as emoções da alma”. É da artificialidade que nasceria a impressão mais intensa de vida. A intenção da composição de Rayuela é sempre a de gerar imagens que entrem em diálogo com o texto de Cortázar, que ora é dito pelos atores, ora é ouvido em off na voz do próprio autor do livro. Esse diálogo não necessariamente precisa ser harmonioso: por vezes ele é conflitivo, chocante ou até mesmo contestador. Já em outros momentos, ele tende a ser mais harmônico, corroborando com o sentido textual produzido e por vezes ilustrando-o de maneira inusitada”.


“A movimentação plástica executada em Rayuela não pressupõe uma alusão, uma referência àquilo que conhecemos como realidade tangível: ela está mais ligada à esfera do sonho e da busca inconsciente pelo sentido. Isso está ligado ao fato de grande parte do romance se passar justamente nas divagações existenciais e filosóficas do personagem Horácio, que caminha durante a maior parte do tempo na corda bamba que separa a loucura da razão.”