Quando apresentamos um trabalho ainda
inconcluso para que pessoas possam opinar sobre ele temos que estar seguros para não sermos
suscetíveis a qualquer observação que tenha cunho apenas pessoal, porque pessoas
diferentes possuem diferentes visões sobre uma mesma coisa, e também devemos
estar sensíveis para a percepção do outro, pois ao apresentar seu trabalho para
pessoas confiáveis você precisa estar verdadeiramente disposto a ouvir mais e
se justificar menos.
Com o esquete Rayuela, pela primeira vez
fiz uma pré-estreia para buscar a opinião de convidados sobre a nossa pesquisa.
Foi uma experiência muito enriquecedora.
Em um trabalho conceitual como esse, partindo de uma literatura não
convencional como a de Cortázar, o tipo de recepção do trabalho foi muito
variada. Houve quem não quisesse que o trabalho acabasse (achando-o curto),
houve quem admirou as imagens e o jogo a partir da literatura, houve quem achou
o trabalho distante do público, ou ainda rascunhado, em processo de
finalização. Todos os comentários foram recebidos com grande carinho, mas, como
disse uma vez o cineasta Guillermo del
Toro: “Escute todos, faça o que você
quiser” . Esse talvez seja o momento mais difícil: assumir o que o
trabalho é, o que queremos com ele. Esse é o ponto que exige mais maturidade.
Ao convidarmos
as pessoas para um ensaio aberto, a intenção, mais do que agradá-las, é a de
que elas possam ser agentes criadores do processo também.
Das várias observações que recebemos,
resolvi me ater na questão da cena ainda como lugar do exercício, de como, na
percepção do público, algumas imagens precisavam de “preenchimento
psicológico”. Comecei a me perguntar em como preencher esses movimentos que
pareciam vazios para algumas pessoas. Uma amiga e companheira de estudos me
indicou um livro chamado “Para o ator” de Michel Chekov. Nesse livro existe um capítulo chamado “O gesto
psicológico”.
A partir da leitura desse capítulo criei
exercícios que acabaram transformando o “movimento pelo movimento” em
“movimento pré-existente inserindo estímulo interno”. Explicitando, preenchemos
nossos movimentos já existentes baseados em duas intenções (que dialogam com a minha visão sobre os textos escolhidos):
* o sadismo – que indicamos como uma energia propulsora;
* a saudade - que indicamos como energia regressora.
Começamos a nos perguntar onde nos
nossos movimentos existiam essas características sádicas ou saudosas, e por
que. Ou seja, quem ou o quê éramos que nos dava aquele corpo? O que nos fazia
mover no espaço? Esses estímulos deveriam ser criados, e poderiam ser tanto objetivos,
do tipo: “estou vendo um trem partir com saudade”, como abstratos, do tipo “sou
um rolo de fita enrolando no pé de alguém de forma sádica”. Para nossa
surpresa, os movimentos ficaram muito mais interessantes, com ritmos múltiplos,
gerando uma espontaneidade que “limpou” a cara de exercício citada
anteriormente.
Esse crescimento se deu graças aos comentários dos convidados,
que desencadearam novas possibilidades de pesquisa para cada cena. Mesmo sendo
um trabalho tão curto, percebo que várias riquezas estão escondidas e podem ser
encontradas com um pouco mais de tempo.
Nós, da Cia Plúmbea, aprovamos essa experiência de pré-estreia e
esperamos ter mais oportunidades como essa. Escreverei sobre novas
futuras descobertas, a partir das dicas dos nossos amigos atentos. E esperamos
publicar esse bate-papo que ocorreu pós-apresentação em breve.
Até a próxima!
Ana Cecilia Reis e Paulo Barbeto, durante a pré-estreia.
Foto: Marcos Melo
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