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9 de junho de 2014

Estreamos! (por Ana Cecilia Reis)

Tivemos uma linda estreia do nosso trabalho na Unirio. Convidamos pessoas muito queridas para dialogar conosco. O local  escolhido não poderia ser melhor, pois a Cia Plúmbea nasceu de encontros dentro da Universidade, e o ator Paulo Barbeto foi convidado para participar do projeto após eu ter feito uma disciplina de Expressão Corporal com ele. Por isso, agradeço profundamente a generosidade de todos por acolher tão bem nosso trabalho, e compartilho mais um texto reflexivo sobre o processo e algumas fotinhas não-oficiais da apresentação. 

"Minhas ideias surgem de encontros. Pulsões que me fazem pensar em uma mesma frase ou em uma cena constantemente e, quando eu menos espero, já estou criando mentalmente exercícios ou pesquisando elementos para colocar essa ideia em prática. Ideia e prática - fundamentalmente aproximadas, em uma relação de amor e ódio: a ideia sempre querendo o impossível, e a prática se desculpando: “é o que dá pra fazer”. Mas mesmo com as brigas iniciais, começo aos poucos a gostar mais da prática, porque a ideia era só minha, estava dentro de mim, e a prática começa a colocá-la no mundo, não como eu imaginava, mas exatamente como eu nunca poderia imaginar, e por isso percebo que a prática pode ser maior do que a ideia, porque ela não parte somente de mim, mas do outro também, do material com que trabalho, da linguagem que fabrico para tentar me comunicar.

Conheci a literatura de Julio Cortazar aos 19 anos, li um livro de contos chamado As armas secretas e a impressão que levo dessas narrativas é a experiência sensorial das suas palavras. Não me lembro exatamente das histórias, e sim do jazz, do copo de whisky na mão de um personagem, de um músico tocando saxofone como se sua vida dependesse disso. Lembro-me de uma cor - azul que era a cor da capa do livro (ou não) e me lembro que a literatura daquele livro era azul. Um azul quente. O azul pode ser quente? Na literatura de Cortázar me parecia. Depois, me esqueci. Ou pensei que esqueci. Até me deparar, em uma banca de jornal, por cinco reais, dois volumes de um romance chamado "O Jogo da Amarelinha". O autor era Julio Cortázar. Um reencontro. Comprei e não li de imediato. Mudei de casa e de vida, e nessa mudança visualizei o livro novamente. Comecei a lê-lo e me deparei com um capitulo especifico, número 34. Neste capítulo, o personagem Horácio lê uma parte de um romance deixado na casa abandonada de Maga (sua ex-namorada). O autor entrelaça o livro que o personagem lê com comentários do personagem sobre o livro lido, através de uma sobreposição de frases, onde temos que pular linhas para perceber que existem dois discursos diferentes.

A maneira como o autor trabalha essa narrativa me encantou. Lembro-me do susto e da excitação que a descoberta me gerou. Imediatamente me veio à cabeça a ideia de trabalhar isso em cena, pesquisando exercícios de ação e reação com atores. Pensava em como transpor essa sensação de dois diálogos cruzados para o teatro. Decidi convidar um ator para colocar isso em prática. Colocar a ideia em prática.

Inicialmente, ao efetuar o convite, tive que utilizar a tática do convencimento. Provar para alguém que a ideia por qual eu me apaixonei tanto pode ser interessante para outros. Depois, era preciso, através exercícios, estimular a criação das cenas e estar sensível para os possíveis diamantes escondidos nas pedras. Onde um movimento é interessante, onde um exercício mal feito pode ter uma potência. Escutar a presença do outro, seu corpo, sua opinião. O ator convidado começa a ler o livro que até então não conhecia e uma nova vontade surge: um novo capítulo inserido. Ainda é a minha ideia? Ainda tenho controle sobre isso? O que importa? Gosto de como as coisas surgem, despreocupadamente. Essa coisa nova que vai caminhando sozinha... e às vezes minha função é somente guiá-la. 



Percebo durante os ensaios, que é necessário certo rigor para fazer com que os exercícios fluam de maneira correta. Entretanto, também é necessário soltar as rédeas e deixar que a proposta te leve para lugares não imaginados. Um ano depois do inicio do processo, já não sei mais o que faz parte de mim, do outro ou do destino. Uma mistura de ideias que geram algo do qual me orgulho e do qual tenho medo: Rayuela, um jogo cênico a partir da literatura de Cortázar. Tenho orgulho de ver uma ideia minha ir se transformando com forma e força. O medo é sempre da recepção da obra. Sempre imprevisível. Vão gostar? Serão atingidos? Ficarão entediadas? Tantas bobagens para quem estuda a arte e sabe que a criação de algo está muito além dessas questões. Mas como não pensar nisso, já que essa é uma entrega para o outro também? O que é meu, mas que também é pro outro, caso o contrário eu não compartilharia. E o que essa individualidade toda de criação tem para mostrar para o mundo? Seria muita pretensão pensar que um indivíduo pode conseguir atingir outros a partir de si? Até que ponto se pode planejar o acontecimento teatral? Quando ele de fato toma forma e acaba, se a cada dia ele se renova?"








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