Tivemos uma linda estreia do nosso trabalho na Unirio. Convidamos pessoas muito queridas para dialogar conosco. O local escolhido não poderia ser melhor, pois a Cia Plúmbea nasceu de encontros dentro da Universidade, e o ator Paulo Barbeto foi convidado para participar do projeto após eu ter feito uma disciplina de Expressão Corporal com ele. Por isso, agradeço profundamente a generosidade de todos por acolher tão bem nosso trabalho, e compartilho mais um texto reflexivo sobre o processo e algumas fotinhas não-oficiais da apresentação.
"Minhas
ideias surgem de encontros. Pulsões que me fazem pensar em uma mesma frase ou
em uma cena constantemente e, quando eu menos espero, já estou criando
mentalmente exercícios ou pesquisando elementos para colocar essa ideia em
prática. Ideia e prática - fundamentalmente aproximadas, em uma relação de amor
e ódio: a ideia sempre querendo o impossível, e a prática se desculpando: “é o
que dá pra fazer”. Mas mesmo com as brigas iniciais, começo aos poucos a gostar
mais da prática, porque a ideia era só minha, estava dentro de mim, e a prática
começa a colocá-la no mundo, não como eu imaginava, mas exatamente como eu
nunca poderia imaginar, e por isso percebo que a prática pode ser maior do que
a ideia, porque ela não parte somente de mim, mas do outro também, do material
com que trabalho, da linguagem que fabrico para tentar me comunicar.
Conheci
a literatura de Julio Cortazar aos 19 anos, li um livro de contos chamado As armas secretas e a impressão que levo
dessas narrativas é a experiência sensorial das suas palavras. Não me lembro exatamente
das histórias, e sim do jazz, do copo de whisky na mão de um personagem, de um
músico tocando saxofone como se sua vida dependesse disso. Lembro-me de uma cor
- azul que era a cor da capa do livro (ou não) e me lembro que a literatura
daquele livro era azul. Um azul quente. O azul pode ser quente? Na literatura
de Cortázar me parecia. Depois, me esqueci. Ou pensei que esqueci. Até me
deparar, em uma banca de jornal, por cinco reais, dois volumes de um romance chamado
"O Jogo da Amarelinha". O autor era Julio Cortázar. Um reencontro.
Comprei e não li de imediato. Mudei de casa e de vida, e nessa mudança
visualizei o livro novamente. Comecei a lê-lo e me deparei com um capitulo
especifico, número 34. Neste capítulo, o personagem Horácio lê uma parte de um
romance deixado na casa abandonada de Maga (sua ex-namorada). O autor entrelaça
o livro que o personagem lê com comentários do personagem sobre o livro lido, através
de uma sobreposição de frases, onde temos que pular linhas para perceber que
existem dois discursos diferentes.
A
maneira como o autor trabalha essa narrativa me encantou. Lembro-me do susto e
da excitação que a descoberta me gerou. Imediatamente me veio à cabeça a ideia
de trabalhar isso em cena, pesquisando exercícios de ação e reação com atores.
Pensava em como transpor essa sensação de dois diálogos cruzados para o teatro.
Decidi convidar um ator para colocar isso em prática. Colocar a ideia em
prática.
Inicialmente,
ao efetuar o convite, tive que utilizar a tática do convencimento. Provar para
alguém que a ideia por qual eu me apaixonei tanto pode ser interessante para outros.
Depois, era preciso, através exercícios, estimular a criação das cenas e estar
sensível para os possíveis diamantes escondidos nas pedras. Onde um movimento é
interessante, onde um exercício mal feito pode ter uma potência. Escutar a
presença do outro, seu corpo, sua opinião. O ator convidado começa a ler o
livro que até então não conhecia e uma nova vontade surge: um novo capítulo
inserido. Ainda é a minha ideia? Ainda tenho controle sobre isso? O que
importa? Gosto de como as coisas surgem, despreocupadamente. Essa coisa nova
que vai caminhando sozinha... e às vezes minha função é somente guiá-la.
Percebo
durante os ensaios, que é necessário certo rigor para fazer com que os
exercícios fluam de maneira correta. Entretanto, também é necessário soltar as
rédeas e deixar que a proposta te leve para lugares não imaginados. Um ano
depois do inicio do processo, já não sei mais o que faz parte de mim, do outro
ou do destino. Uma mistura de ideias que geram algo do qual me orgulho e do
qual tenho medo: Rayuela, um jogo
cênico a partir da literatura de Cortázar. Tenho orgulho de ver uma ideia minha
ir se transformando com forma e força. O medo é sempre da recepção da obra.
Sempre imprevisível. Vão gostar? Serão atingidos? Ficarão entediadas? Tantas
bobagens para quem estuda a arte e sabe que a criação de algo está muito além dessas
questões. Mas como não pensar nisso, já que essa é uma entrega para o outro
também? O que é meu, mas que também é pro outro, caso o contrário eu não compartilharia.
E o que essa individualidade toda de criação tem para mostrar para o mundo? Seria
muita pretensão pensar que um indivíduo pode conseguir atingir outros a partir
de si? Até que ponto se pode planejar o acontecimento teatral? Quando ele de
fato toma forma e acaba, se a cada dia ele se renova?"





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