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7 de julho de 2014

Preenchendo uma forma: alguns olhares que te levam além (por Ana Cecilia Reis)

Quando apresentamos um trabalho ainda inconcluso para que pessoas possam opinar sobre ele temos que estar seguros para não sermos suscetíveis a qualquer observação que tenha cunho apenas pessoal, porque pessoas diferentes possuem diferentes visões sobre uma mesma coisa, e também devemos estar sensíveis para a percepção do outro, pois ao apresentar seu trabalho para pessoas confiáveis você precisa estar verdadeiramente disposto a ouvir mais e se justificar menos.

Com o esquete Rayuela, pela primeira vez fiz uma pré-estreia para buscar a opinião de convidados sobre a nossa pesquisa. Foi uma experiência muito enriquecedora. Em um trabalho conceitual como esse, partindo de uma literatura não convencional como a de Cortázar, o tipo de recepção do trabalho foi muito variada. Houve quem não quisesse que o trabalho acabasse (achando-o curto), houve quem admirou as imagens e o jogo a partir da literatura, houve quem achou o trabalho distante do público, ou ainda rascunhado, em processo de finalização. Todos os comentários foram recebidos com grande carinho, mas, como disse uma vez o cineasta Guillermo del Toro: “Escute todos, faça o que você quiser” . Esse talvez seja o momento mais difícil: assumir o que o trabalho é, o que queremos com ele. Esse é o ponto que exige mais maturidade.

Ao convidarmos as pessoas para um ensaio aberto, a intenção, mais do que agradá-las, é a de que elas possam ser agentes criadores do processo também.

Das várias observações que recebemos, resolvi me ater na questão da cena ainda como lugar do exercício, de como, na percepção do público, algumas imagens precisavam de “preenchimento psicológico”. Comecei a me perguntar em como preencher esses movimentos que pareciam vazios para algumas pessoas. Uma amiga e companheira de estudos me indicou um livro chamado “Para o ator” de Michel Chekov. Nesse livro existe um capítulo chamado “O gesto psicológico”.

A partir da leitura desse capítulo criei exercícios que acabaram transformando o “movimento pelo movimento” em “movimento pré-existente inserindo estímulo interno”. Explicitando, preenchemos nossos movimentos já existentes baseados em duas intenções (que dialogam com a minha visão sobre os textos escolhidos):

* o sadismo – que indicamos como uma energia propulsora;
* a saudade - que indicamos como energia regressora.

Começamos a nos perguntar onde nos nossos movimentos existiam essas características sádicas ou saudosas, e por que. Ou seja, quem ou o quê éramos que nos dava aquele corpo? O que nos fazia mover no espaço? Esses estímulos deveriam ser criados, e poderiam ser tanto objetivos, do tipo: “estou vendo um trem partir com saudade”, como abstratos, do tipo “sou um rolo de fita enrolando no pé de alguém de forma sádica”. Para nossa surpresa, os movimentos ficaram muito mais interessantes, com ritmos múltiplos, gerando uma espontaneidade que “limpou” a cara de exercício citada anteriormente.

Esse crescimento se deu graças aos comentários dos convidados, que desencadearam novas possibilidades de pesquisa para cada cena. Mesmo sendo um trabalho tão curto, percebo que várias riquezas estão escondidas e podem ser encontradas com um pouco mais de tempo.

Nós, da Cia Plúmbea, aprovamos essa experiência de pré-estreia e esperamos ter mais oportunidades como essa. Escreverei sobre novas futuras descobertas, a partir das dicas dos nossos amigos atentos. E esperamos publicar esse bate-papo que ocorreu pós-apresentação em breve.

Até a próxima!

Ana Cecilia Reis e Paulo Barbeto, durante a pré-estreia. 
Foto: Marcos Melo




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