Estamos na
reta final da montagem de Rayuela, e semana que vem faremos um ensaio aberto
para convidados. Nosso principal desafio agora é conquistar a organicidade a
partir de movimentos muito marcados. Temos consciência de que conquistamos interessantes
formas visuais, de forma poética, mas precisamos preenchê-las de vida para que
não seja um trabalho puramente imagético. Também precisamos equilibrar o
trabalho de corpo com o texto, tarefa que não é fácil, devido a prioridade que
damos ao treinamento físico e a complexidade do texto de Cortázar. Mas temos
recebidos valiosos comentários durante o processo, e o ensaio aberto será mais
um lugar de troca. Estamos trabalhando para enviar o esquete para diversos
festivais! Abaixo algumas fotos do último ensaio, por Marcos Melo:
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26 de maio de 2014
19 de maio de 2014
O ator pós-dramático (por Matteo Bonfitto)
No livro O pós-dramático organizado por Silvia Fernandes e J. Guinsburg, o ator, diretor e pesquisador Matteo Bonfitto escreve um artigo refletindo sobre o trabalho do ator pós-dramático, o qual compartilhamos agora com vocês:
¹ O conceito de aporia foi explorado por muitos filósofos desde a Antiguidade, tais como Zenão de Eléia, até os dias de hoje, (como na obra de Derrida). Apesar das muitas explicações que tal conceito comporta, ele remete à noção de paradoxo, a impasses sem solução, a caminhos que são inexpugnáveis.
"(...) Podemos dizer, antes de mais nada, o que o ator pós-dramático não é: ele não se limita a ser um simples reprodutor de códigos e convenções teatrais; assim como ele não é um ilustrador de histórias, consideradas enquanto expressões de uma narrativa linear. A partir disso, podemos descrever algumas das competências que o ator pós-dramático deve, ou deveria possuir, idealmente: além das competências adquiridas pelo ator dramático, tais como dar vida a indivíduos ou tipos, e ser capaz, consequentemente, de construir diferentes corpos/vozes, diversas unidades psicológicas, o ator pós-dramático deve ser capaz de transitar entre diversas linguagens e qualidades expressivas, deve ser capaz de construir partituras a partir de materiais abstratos e subjetivos, deve ser capaz de produzir sentidos a partir, sobretudo da relação que estabelece com os materiais de atuação. Sendo assim, diferentes do herói romântico, do homem comum realista, e do agente revelador de contradições sociais do teatro épico brechtiano, o ator pós-dramático parece ser um catalisador de fissuras que envolvem uma gama incontável de processos, muitos dos quais ainda não elaborados teoricamente, que a princípio, não preveem nenhuma possibilidade de solução. Ele parece ser, antes de tudo, um catalisador de aporias.¹"
1. Cena de A ópera dos três vinténs , de Bertolt Brecht e Kurt Weill, na leitura de Bob Wilson
¹ O conceito de aporia foi explorado por muitos filósofos desde a Antiguidade, tais como Zenão de Eléia, até os dias de hoje, (como na obra de Derrida). Apesar das muitas explicações que tal conceito comporta, ele remete à noção de paradoxo, a impasses sem solução, a caminhos que são inexpugnáveis.
12 de maio de 2014
Rayuela - Processos: Concepção de Luz
Estamos em
fase de finalização da esquete “Rayuela” e convidamos o diretor Raphael Vianna
para nos ajudar com a concepção de luz. Após assistir a um ensaio, Raphael
destacou a predominância de “corpos geométricos”, onde cada movimentação está
ligada às falas dos personagens. Essa observação foi interessante, pois
trabalhamos muito com exercícios de Meierhold e Rudolf Laban, que possuem estudos
muito minuciosos dos elementos que compõem o movimento, e a presença desses
elementos destacados na cena nos mostra
que soubemos explorar essas características em nosso treinamento.
Para
dialogar com essa proposta estética do trabalho, Raphael criou uma concepção de
iluminação simétrica em corredores de luz, destacando assim os diferentes
ambientes onde se encontram os personagens e o jogo entre eles. Segue abaixo o
desenho:
Nossa
próxima etapa é criar a projeção que também comporá a trajetória dos
personagens. Estamos muito contentes com as parcerias que estão se
estabelecendo para esse projeto. Em breve teremos mais notícias sobre o
processo! Até a próxima.
5 de maio de 2014
Como foi participar do 72Horas Rio
Neste final de
semana, a Cia Plúmbea participou do 72 horas Rio. O desafio consiste em fazer um filme na região
portuária em 72 horas, contendo elementos criativos que só são comunicados pela
produção no primeiro dia de trabalho. Esse ano os elementos criativos foram:
Frase: o caminho da vanguarda
Objeto: um rolo de linha
Com essas
informações fizemos o filme “A tênue linha do progresso”. Estávamos com
equipamento amador, mas nossa vontade era nos desafiar a produzir algo em tão
pouco tempo, ver como conseguiríamos criar o roteiro, atuar, editar e
finalizar. Foi muito bom termos convidado o Alex Gonçalves, morador da
região e amigo, e sua esposa Andrea Chiesorin que nos apresentaram os lugares de
um jeito todo especial, destacando as belezas e as personalidades de cada local. Quem nos presenteou com o equipamento foi o técnico Alexandre Rabaço, no qual nunca poderemos deixar de agradecer.
Certamente
estar naquela região com um olhar mais atento nos faz querer
voltar muito mais vezes para apreciar tudo com mais calma. Também não
poderíamos ficar imune às obras que acontecem no local, e como isso afeta a
região e seus moradores.
Foi
tudo muito corrido, e ainda tínhamos que trabalhar em outras coisas durante o processo,
então, certamente montamos o filme em menos de 72 horas. Sabemos que ele poderia ter ficado melhor, principalmente em relação ao áudio, pois não tínhamos
equipamento adequado, mas esse foi nosso primeiro filme, com o equipamento que tínhamos disponível e em muito pouco
tempo. O nosso outro curta-metragem“Resistir”, apesar de ter sido filmado em um só dia,
parte de um roteiro cuidadosamente pré-elaborado, e está passando por uma
edição bem mais minuciosa.
O
diretor, roteirista e editor Marcos Melo ficou algumas noites sem dormir para
que conseguíssemos finalizar o desafio. O texto e as cenas foram preparados em
conjunto com a atriz e diretora Ana Cecilia Reis, que também foi responsável pela pesquisa teórica.
Nos sentimos vitoriosos em participar e conseguirmos finalizar. Participar desse projeto foi um crescimento muito importante para a Cia! Agradecemos ao 72
horas pela oportunidade!
E no dia 10 de maio, às 14h todos
os filmes serão exibidos. Estamos curiosos para ver o que as outras equipes
fizeram!
O endereço é: Ação de Cidadania, Av. Barão de Tefé, 75 - Saúde - Rio
de Janeiro
Apareçam!
A equipe: Marcos Melo, Ana Cecilia Reis e Alex Gonçalves
Marcos Melo em ação.
22 de abril de 2014
Inspirações
Não digas: Este que me deu corpo é meu Pai.
Esta que me deu corpo é minha Mãe.
Muito mais teu Pai e tua Mãe são os que te fizeram
em espírito.
De todos os tempos.
Deixaram o rastro pelos caminhos de hoje.
Todos os que já viveram.
E andam fazendo-te dia a dia;
Os de hoje, os de amanhã. E os homens, e as coisas todas silenciosas.
A tua extensão prolonga-se em todos os sentidos.
O teu mundo não tem pólos.
E tu és o próprio mundo.
Cecília Meireles: Cânticos
14 de abril de 2014
Canudos é aqui. (por Ana Cecilia Reis)
É com muito
pesar que por vezes nos deparamos com acontecimentos do passado que geram
profunda tristeza, mas o pior talvez seja perceber que esses acontecimentos não
estão tão distantes assim. Pensando na violência policial que estamos
vivenciando no Rio de Janeiro, é impossível não compararmos à violência militar
que os habitantes de Canudos sofreram.
Situações
diferentes, mesmo procedimento. Somente para dar um exemplo, segue abaixo um
texto que estamos preparando para uma das cenas, adaptado diretamente do livro “Os
Sertões”, onde Euclides da Cunha fala sobre o treinamento dos soldados:
“Homens inermes carregando armas magníficas. Ora, um chefe militar deve
ter algo de psicólogo. Por mais mecanizado que fique o soldado pela disciplina,
tendendo para esse sinistro ideal de homúnculo, feito um feixe de ossos
amarrados por um feixe de músculos, energias inconscientes sobre alavancas
rígidas, sem nervos, sem temperamento, sem arbítrio, agindo como um autômato
pela vibração dos clarins, transfiguram-no as emoções da guerra, é preciso
incentivá-lo, torná-lo corajoso, como que implantando uma nova religião: a luta
pela glória perante o inimigo.”
Ao
escolheremos a temática do massacre de Canudos nossa intenção principal era
explorar os conflitos e oposições de corpos em luta, a partir do trabalho
imagético de um artista plástico, mas sem focar tanto no objetivo de contarmos
essa história. Mas surpreendentemente, nos vemos cada vez mais próximos de
temáticas cotidianas, mesmo abordando um fato do passado. Começamos a nos
perguntar quais são as possibilidades de resistência para esses acontecimentos,
tanto no teatro quanto fora dele. E percebemos que esse trabalho caminha cada
vez mais para o resgate dessas memórias, pois através delas somos mais fortes.
7 de abril de 2014
Inspirações...
"Se um bailarino dança - o que não é a mesma coisa que ter teorias sobre a dança ou sobre o desejo de dançar ou sobre os ensaios que se fazem para dançar ou sobre as recordações deixadas no corpo pela dança de algum outro -, mas se um bailarino dança, tudo já está presente. O sentido presente, se é isso que queremos. É como este apartamento onde vivo; olho em toda a minha volta, de manhã, e pergunto-me, o que é que tudo isso significa? Significa: isto é onde eu vivo. Quando danço, significa: isto é o que eu estou fazendo. Uma coisa que é justamente a coisa que aqui está."
Merce Cunningham
ANTIC MEET (1958), Merce Cunningham, Photo by Richard Rutledge
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