"(...) Podemos dizer, antes de mais nada, o que o ator pós-dramático não é: ele não se limita a ser um simples reprodutor de códigos e convenções teatrais; assim como ele não é um ilustrador de histórias, consideradas enquanto expressões de uma narrativa linear. A partir disso, podemos descrever algumas das competências que o ator pós-dramático deve, ou deveria possuir, idealmente: além das competências adquiridas pelo ator dramático, tais como dar vida a indivíduos ou tipos, e ser capaz, consequentemente, de construir diferentes corpos/vozes, diversas unidades psicológicas, o ator pós-dramático deve ser capaz de transitar entre diversas linguagens e qualidades expressivas, deve ser capaz de construir partituras a partir de materiais abstratos e subjetivos, deve ser capaz de produzir sentidos a partir, sobretudo da relação que estabelece com os materiais de atuação. Sendo assim, diferentes do herói romântico, do homem comum realista, e do agente revelador de contradições sociais do teatro épico brechtiano, o ator pós-dramático parece ser um catalisador de fissuras que envolvem uma gama incontável de processos, muitos dos quais ainda não elaborados teoricamente, que a princípio, não preveem nenhuma possibilidade de solução. Ele parece ser, antes de tudo, um catalisador de aporias.¹"
1. Cena de A ópera dos três vinténs , de Bertolt Brecht e Kurt Weill, na leitura de Bob Wilson
¹ O conceito de aporia foi explorado por muitos filósofos desde a Antiguidade, tais como Zenão de Eléia, até os dias de hoje, (como na obra de Derrida). Apesar das muitas explicações que tal conceito comporta, ele remete à noção de paradoxo, a impasses sem solução, a caminhos que são inexpugnáveis.

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