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19 de maio de 2014

O ator pós-dramático (por Matteo Bonfitto)

No livro O pós-dramático organizado por Silvia Fernandes e J. Guinsburg, o ator, diretor e pesquisador Matteo Bonfitto escreve um artigo refletindo sobre o trabalho do ator pós-dramático, o qual compartilhamos agora com vocês:

 "(...) Podemos dizer, antes de mais nada, o que o ator pós-dramático não é: ele não se limita a ser um simples reprodutor de códigos e convenções teatrais; assim como ele não é um ilustrador de histórias, consideradas enquanto expressões de uma narrativa linear. A partir disso, podemos descrever algumas das competências que o ator pós-dramático deve, ou deveria possuir, idealmente: além das competências adquiridas pelo ator dramático, tais como dar vida a indivíduos ou tipos, e ser capaz, consequentemente, de construir diferentes corpos/vozes, diversas unidades psicológicas, o ator pós-dramático deve ser capaz de transitar entre diversas linguagens e qualidades expressivas, deve ser capaz de construir partituras a partir de materiais abstratos e subjetivos, deve ser capaz de produzir sentidos a partir, sobretudo da relação que estabelece com os materiais de atuação. Sendo assim, diferentes do herói romântico, do homem comum realista, e do agente revelador de contradições sociais do teatro épico brechtiano, o ator pós-dramático parece ser um catalisador de fissuras que envolvem uma gama incontável de processos, muitos dos quais ainda não elaborados teoricamente, que a princípio, não preveem nenhuma possibilidade de solução. Ele parece ser, antes de tudo, um catalisador de aporias.¹" 



1. Cena de A ópera dos três vinténs , de Bertolt Brecht e Kurt Weill, na leitura de Bob Wilson


¹ O conceito de aporia foi explorado por muitos filósofos desde a Antiguidade, tais como Zenão de Eléia, até os dias de hoje, (como na obra de Derrida). Apesar das muitas explicações que tal conceito comporta, ele remete à noção de paradoxo, a impasses sem solução, a caminhos que são inexpugnáveis. 

12 de maio de 2014

Rayuela - Processos: Concepção de Luz

Estamos em fase de finalização da esquete “Rayuela” e convidamos o diretor Raphael Vianna para nos ajudar com a concepção de luz. Após assistir a um ensaio, Raphael destacou a predominância de “corpos geométricos”, onde cada movimentação está ligada às falas dos personagens. Essa observação foi interessante, pois trabalhamos muito com exercícios de Meierhold e Rudolf Laban, que possuem estudos muito minuciosos dos elementos que compõem o movimento, e a presença desses elementos destacados na cena nos mostra que soubemos explorar essas características em nosso treinamento.

                Para dialogar com essa proposta estética do trabalho, Raphael criou uma concepção de iluminação simétrica em corredores de luz, destacando assim os diferentes ambientes onde se encontram os personagens e o jogo entre eles. Segue abaixo o desenho:





                Nossa próxima etapa é criar a projeção que também comporá a trajetória dos personagens. Estamos muito contentes com as parcerias que estão se estabelecendo para esse projeto. Em breve teremos mais notícias sobre o processo! Até a próxima.


5 de maio de 2014

Como foi participar do 72Horas Rio

Neste final de semana, a Cia Plúmbea participou do 72 horas Rio. O desafio consiste em fazer um filme na região portuária em 72 horas, contendo elementos criativos que só são comunicados pela produção no primeiro dia de trabalho. Esse ano os elementos criativos foram:

Frase: o caminho da vanguarda
Objeto: um rolo de linha

Com essas informações fizemos o filme “A tênue linha do progresso”. Estávamos com equipamento amador, mas nossa vontade era nos desafiar a produzir algo em tão pouco tempo, ver como conseguiríamos criar o roteiro, atuar, editar e finalizar. Foi muito bom  termos convidado o Alex Gonçalves, morador da região e amigo, e sua esposa Andrea Chiesorin que nos apresentaram os lugares de um jeito todo especial, destacando as belezas e as personalidades de cada local. Quem nos presenteou com o equipamento foi o técnico Alexandre Rabaço, no qual nunca poderemos deixar de agradecer. 

        Certamente estar naquela região com um olhar mais atento nos faz querer voltar muito mais vezes para apreciar tudo com mais calma. Também não poderíamos ficar imune às obras que acontecem no local, e como isso afeta a região e seus moradores.

             Foi tudo muito corrido, e ainda tínhamos que trabalhar em outras coisas durante o processo, então, certamente montamos o filme em menos de 72 horas. Sabemos que ele poderia ter ficado melhor, principalmente em relação ao áudio, pois não tínhamos equipamento adequado, mas esse foi nosso primeiro filme, com o equipamento que tínhamos disponível e em muito pouco tempo. O nosso outro curta-metragem“Resistir”, apesar de ter sido filmado em um só dia, parte de um roteiro cuidadosamente pré-elaborado, e está passando por uma edição bem mais minuciosa.

          O diretor, roteirista e editor Marcos Melo ficou algumas noites sem dormir para que conseguíssemos finalizar o desafio. O texto e as cenas foram preparados em conjunto com a atriz e diretora Ana Cecilia Reis, que também foi responsável pela pesquisa teórica.

              Nos sentimos vitoriosos em participar e conseguirmos finalizar. Participar desse projeto foi um crescimento muito importante para a Cia! Agradecemos ao 72 horas pela oportunidade!

E no dia 10 de maio, às 14h todos os filmes serão exibidos. Estamos curiosos para ver o que as outras equipes fizeram!

O endereço é: Ação de Cidadania, Av. Barão de Tefé, 75 - Saúde - Rio de Janeiro


Apareçam! 

A equipe: Marcos Melo, Ana Cecilia Reis e Alex Gonçalves

Marcos Melo em ação. 


22 de abril de 2014

Inspirações

Não digas: Este que me deu corpo é meu Pai.
Esta que me deu corpo é minha Mãe.
Muito mais teu Pai e tua Mãe são os que te fizeram
em espírito. 
De todos os tempos. 
Deixaram o rastro pelos caminhos de hoje.
Todos os que já viveram.
E andam fazendo-te dia a dia;
Os de hoje, os de amanhã. E os homens, e as coisas todas silenciosas.
A tua extensão prolonga-se em todos os sentidos.
O teu mundo não tem pólos. 
E tu és o próprio mundo.

Cecília Meireles: Cânticos


14 de abril de 2014

Canudos é aqui. (por Ana Cecilia Reis)

É com muito pesar que por vezes nos deparamos com acontecimentos do passado que geram profunda tristeza, mas o pior talvez seja perceber que esses acontecimentos não estão tão distantes assim. Pensando na violência policial que estamos vivenciando no Rio de Janeiro, é impossível não compararmos à violência militar que os habitantes de Canudos sofreram.

Situações diferentes, mesmo procedimento. Somente para dar um exemplo, segue abaixo um texto que estamos preparando para uma das cenas, adaptado diretamente do livro “Os Sertões”, onde Euclides da Cunha fala sobre o treinamento dos soldados:

“Homens inermes carregando armas magníficas. Ora, um chefe militar deve ter algo de psicólogo. Por mais mecanizado que fique o soldado pela disciplina, tendendo para esse sinistro ideal de homúnculo, feito um feixe de ossos amarrados por um feixe de músculos, energias inconscientes sobre alavancas rígidas, sem nervos, sem temperamento, sem arbítrio, agindo como um autômato pela vibração dos clarins, transfiguram-no as emoções da guerra, é preciso incentivá-lo, torná-lo corajoso, como que implantando uma nova religião: a luta pela glória perante o inimigo.”


                Ao escolheremos a temática do massacre de Canudos nossa intenção principal era explorar os conflitos e oposições de corpos em luta, a partir do trabalho imagético de um artista plástico, mas sem focar tanto no objetivo de contarmos essa história. Mas surpreendentemente, nos vemos cada vez mais próximos de temáticas cotidianas, mesmo abordando um fato do passado. Começamos a nos perguntar quais são as possibilidades de resistência para esses acontecimentos, tanto no teatro quanto fora dele. E percebemos que esse trabalho caminha cada vez mais para o resgate dessas memórias, pois através delas somos mais fortes.  


7 de abril de 2014

Inspirações...

"Se um bailarino dança - o que não é a mesma coisa que ter teorias sobre a dança ou sobre o desejo de dançar ou sobre os ensaios que se fazem para dançar ou sobre as recordações deixadas no corpo pela dança de algum outro -, mas se um bailarino dança, tudo já está presente. O sentido presente, se é isso que queremos. É como este apartamento onde vivo; olho em toda a minha volta, de manhã, e pergunto-me, o que é que tudo isso significa? Significa: isto é onde eu vivo. Quando danço, significa: isto é o que eu estou fazendo. Uma coisa que é justamente a coisa que aqui está." 

Merce Cunningham


ANTIC MEET (1958), Merce Cunningham, Photo by Richard Rutledge

31 de março de 2014

Por um corpo menos ansioso (por Ana Cecilia Reis)

“Diga um defeito seu? Sou muito ansioso!”

Essa deve ser a resposta de 90 % dos entrevistados em qualquer empresa de RH. E de fato, a maioria de nós é um poço de ansiedade. Isso é muito natural, pois vivemos cercados de “urgências”. A internet é uma valiosa ferramenta de pesquisa e socialização, mas também nos provocou a dispersão de atenção e a exigência de um olhar cada vez mais rápido, bem como uma sede de novidades e acontecimentos. Cada barulhinho de mensagem nos faz automaticamente parar o que estamos fazendo e verificar as notificações, sempre tão mais importantes do que o momento presente. Depois a internet passou a ser móvel, e então passamos a estar conectados 24 horas. Resultado: ansiedade multiplicada.

Afinal, aquele e-mail importante não pode deixar de ser respondido, mesmo que se esteja conversando com alguém, ou almoçando. Mas se pararmos para pensar, há uns 05 anos atrás só responderíamos o e-mail quando chegássemos em casa. E ninguém morria. Também me lembro, há mais de 10 anos, como a falta de celular nos fazia menos desesperados. Quando eu viajava, às vezes passava uma semana fora e ligava para minha mãe apenas uma vez, para avisar que cheguei, ou que estava indo embora. Hoje, se eu não respondo uma mensagem, já passa pela cabeça de muita gente que fui sequestrada. Ansiedade, ansiedade, ansiedade. Precisamos sempre ler muito, estarmos antenados, não podemos nunca chegar atrasados, pois isso é uma irresponsabilidade, mas o trânsito... ah, o trânsito! Quantas unhas roídas ao pegar todos os sinais fechados!

Porque falar de tudo isso, e o que isso tem a ver com o teatro? Bem, toda essa ansiedade acaba passando para o nosso corpo. Criando pequenos espasmos, características que ficam evidentes durante os exercícios. Caminhar em câmera lenta pode ser uma tortura. Eu percebo braços que balançam constantemente enquanto falo. Alguns exercícios duram menos do que deveriam por acharmos que “já deu”. Muitas vezes simplesmente não queremos “não fazer nada”. Ficar em silêncio pode ser um grande desafio. Ah, e às vezes não experimentamos por experimentar, simplesmente já esperamos a utilidade do que estamos fazendo.

É muito difícil nos libertarmos da visão mecanicista e produtivista das coisas, pois refletimos a cidade em que vivemos. Mas se há um espaço para subverter essas leis, é o teatro. Porque o teatro nos dá a oportunidade de moldarmos o tempo. Estamos distantes das maquinarias durante os ensaios, só temos ao nosso corpo, nossos sentidos. Muitos exercícios nos desafiam e nos trazem um novo corpo. Ou melhor, um nosso corpo que se esconde no dia-a-dia. Um corpo familiar, aconchegante e potente, ritualístico, que sempre esteve lá, mas soterrado pelas armaduras construídas para a sobrevivência urbana.


Por isso que é tão belo ver um corpo que dança, ver um corpo não-cotidiano em cena. Porque nos sentimos tocados nessa esfera sensível, em uma comunhão liberta desses aprisionamentos. Aos poucos, podemos ir trazendo essas experiências para o nosso dia-a-dia, os momentos de silêncio, de respiração, do corpo presente, atento, e então, não teríamos mais dois corpos divididos, o corpo urbano e o corpo que faz/vê teatro, mas um corpo livre, a partir dessas percepções sensíveis. Seríamos então, quem sabe, donos de nós mesmo, a partir da percepção de do domínio de nossos corpos.  Utopia?


Francis Bacon 
Figura em Movimento, 1976
Óleo sobre tela 198 x 147,5 cm
Genebra, Colecção Particular