Fiquei em dúvida se iria postar algo sobre o que foi 2020, sobre expectativas, realidades, sobre o redemoinho de sensações, e as perspectivas criativas que atravessaram esse ano. Fiquei em dúvida porque pode ser um ato de insensibilidade narrar conquistas e superações em um ano de dor, de morte, de injustiça, de total descontrole e sadismo governamental.
Mas depois repensei, e me deu vontade de compartilhar brevemente com as pessoas que acompanham o trabalho da Cia, para falar um pouco do que se passou por aqui. Como puderam acompanhar, os meus primeiros textos após a notícia da pandemia no Brasil e o fechamento de todos os teatros, são textos que pedem calma, respeito e cuidado com o nosso fazer criativo. O meu sentimento pessoal foi compartilhado a partir do momento que considerei relevante, por pensar que outras pessoas poderiam estar sentindo a mesma coisa. Poder parar para dizer não e não fazer nada até estar melhor, até entender onde estávamos foi uma escolha possível, fruto de outras fontes de renda, com trabalhos paralelos, opção que muitas artistas não tiveram. Mesmo assim, achei honesto escrever sobre a potência da pausa, do dizer não à um fluxo constante de demandas que o sistema nos obriga a cumprir, e assim sendo, nos fazendo perder nossos sentidos, nos afogando e confundindo. Mas não podemos perder de vista que somos pessoas que trabalham exatamente para questionar tudo isso. Então, tive meus meses de crise, de choro, de inércia, de surto, de loucura, de exagero, de drama, de confusão, de carência, de euforia, de tentativa e erro. E me permiti ficar assim, mesmo sem saber se iria sair de tudo isso. Me permiti porque quis e me permiti porque não era capaz de fazer nada tão rápido, não era capaz de fazer nada que me agredisse eticamente, no que escolhi fazer em arte.
Muito tempo se passou e ainda se passa, mais do que eu imaginava, embora algumas ideias e vontades tenham surgido até antes do que eu esperava. Comecei aos poucos, com a ajuda de encontros e reencontros inusitados, a me sentir novamente apta a falar, a criar, a retomar trabalhos antigos. Me vi tendo vontade de compartilhar leituras, que foram importantes e marcantes para mim, de falar sobre maneiras de criar de forma independente, de pensar em novos projetos, graças à um encontro do fim do mundo com o Felipe Eugênio, à um reencontro de anseios revoltosos com Fernanda Almeida e Paulo Barbeto, e ao tempo que me foi dado de ingressar em estudos psicanalíticos que estão me gerando muito material de pesquisa, como o Seminário de Psicanálise coordenado pelo Pedro Rocha. Foi muito importante entender que mesmo sem a presença física, os laços continuaram e continuarão ocorrendo, e isso foi uma surpresa metafísica.
Nesse breve resumo de realizações no tempo que não me feriu, estão o Prêmio Maestro Guerra-Peixe de Cultura pelo espetáculo Diário do Último Ato, a gravação de Caminhos para uma Atuação Autoral que estará no canal Cultura Petrópolis em breve, a live Difíceis Existências: Florbela Espanca no Último Ato realizada pelo Festival Literário de Periferia de Pernambuco, as reuniões sobre o Terrabatida, espetáculo de 2014, com olhares novos e novas discussões dramatúrgicas seis anos depois.
Do que 2021 sinaliza (sem muitas expectativas, aprendemos bem), são novas parcerias, alguns convites, projetos, menos radicalismo (estou aprendendo a conviver com câmeras).
Sem romantismo nesse ano terrível, mas ainda sensível às sementes que encontrei no asfalto, agradeço demais por tudo que me cerca, especialmente aos amigos e amigas, sempre parceiras de estrada, que me emocionam de todas as maneiras, que eu tanto admiro, e que sem vocês nada seria possível.
Enquanto estivermos por aqui, obrigada por compartilharem esse mesmo caminho.
Que venha 2021, seja como for.

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