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20 de julho de 2022

Diário do último ato no Retomada Cultural 2022

"Sonhos, pra quê? Tenho eu lá o direito de sonhar, de querer o meu raio de sol, que as mais humildes tem? Tenho lá eu esse direito? Um lar inteligente e cheio de beleza, uma vida intensa de amor, um bom riso todos os dias, uma confiança inquebrantável num homem que nos seja tudo e o poder dizer que tudo isto é até a morte, é sonho, é um sonho demasiado grande para mim. Esses sonhos podem ser criados, claro, podem ser sonhados, mas não podem passar de sonhos."

Diário do último ato, espetáculo que apresenta os últimos momentos de Florbela Espanca volta esse ano aos palcos. Através do Edital Retomada Cultual da Secec-RJ realizaremos apresentações em Petrópolis, Macaé e Rio das Ostras.
 
Em breve mais informações!









5 de julho de 2022

Inspirações: Dança Odissi

Você conhece o Odissi? 
O Odissi é um dos oito estilos clássicos de dança da Índia. Originário do estado de Orissa, possui em seus movimentos uma qualidade escultural que é rara nos estilos de dança no Ocidente. O harmonioso ritmo interno encontrado no tribhanga (tripla flexão), conceito hindu de iconografia, empresta aos movimentos e posturas esculturais, aquilo que é a sua característica principal: o sentido de fluidez e lirismo, evocando beleza, charme e graciosidade. 
Toda a dança é estruturada de uma forma sinuosa e não linear, com movimentos explorados através das duas posições básicas, chowka e tribhanga, símbolo das energias masculina e feminina.
O Odissi combina inúmeras dimensões artísticas, entre elas: a habilidade dos oradores, o talento dos atores, o senso criativo dos poetas e a excelência dos dançarinos. O poder evocativo dos poemas e a vivacidade da mímica estão inseridos neste estilo de dança.
Essa será uma de nossas inspirações para o novo espetáculo da Cia Plúmbea. 🙂
Imagem: Ananya Dance Theatre




25 de maio de 2022

Estudos

 "Organicidade: [...] é também um termo de Stanislavski. O que é a organicidade? É viver de acordo com as leis naturais, mas isto a um nível primário. O nosso corpo é um animal, não se deve esquecer. Não digo: somos animais, digo: nosso corpo é um animal. Então a organicidade está ligada ao aspecto criança. A criança é quase sempre orgânica. A organicidade é algo que se tem mais quando se é jovem, e menos quando se envelhece. Evidentemente é possível prolongar a vida da organicidade lutando contra o hábito, contra o alienamento da vida cotidiana, quebrando, eliminando os clichês de comportamento e, antes da reação complexa, retornando à reação primária."

Jerzy Grotowski



Tatsumi Hijikata dançando butoh



10 de março de 2022


O corpo afinal é a realidade do teatro em contraste com os recursos técnicos, e já por isso interessante. 

O corpo é sempre uma objeção às ideologias.

Heiner Müller


Foto de Sammi Landweer, espetáculo "Fúria" de Lia Rodrigues 


12 de fevereiro de 2022

Inspirações...




Certa vez, um discípulo de Bashô, grande mestre do haikai, vendo uma libélula, fez um haikai irreverente: 

"Despindo das asas
A libélula vermelha 
Fica uma pimenta." 
O mestre desaprovou o seu discípulo solenemente. Para além da estética de um poema, é preciso assumir uma postura de vida, que pode ser de requintada crueldade, como quando se arrancam asas de uma libélula, ou de generosa fantasia, como quando se agrega asas a uma pimenta. Bashô mudou o ângulo do poema de seu discípulo, Kikatu. O haikai ficou assim: 
"Se agregarmos asas 
A uma pimenta vermelha, 
Surge uma libélula." 
O ambiente para uma nova ordem é a rede. Não tenha medo, atire-se nela. Quanto mais orgânica, melhor. Sinta o cheiro do mangue, se misture no barro; da água e terra se faz barro, do barro se faz vida. Mude. Com poesia, uma pimenta transforma-se em libélula . 

* Retirado do livro Ponto de Cultura: o Brasil de baixo para cima, de Célio Turino.

21 de janeiro de 2022

Estudos


O nosso corpo é utilizado de maneira substancialmente diferente na vida cotidiana e nas situações de representação. No contexto, a técnica do corpo está condicionada pela cultura, pelo estado social e pelo ofício. Em uma situação de representação, existe uma diferente técnica do corpo. Pode-se então distinguir uma técnica cotidiana de uma técnica extracotidiana.

 (...)

As técnicas cotidianas do corpo são, em geral, caracterizadas pelo princípio do esforço mínimo, ou seja, alcançar o rendimento máximo com o mínimo uso de energia. As técnicas extracotidianas baseiam-se, pelo contrário, no esbanjamento de energia. Às vezes, até parecem sugerir um princípio oposto em relação ao que caracteriza as técnicas cotidianas, o princípio do uso máximo de energia para um resultado mínimo.

Quando estava no Japão como o Odin Theatre perguntava o que significava a expressão otsukarasama, com a qual os espectadores agradeciam aos atores no final do espetáculo. O significado exato dessa expressão – uma das tantas fórmulas da etiqueta japonesa, particularmente indicada para os atores – é: “Você cansou por mim”.

Eugenio Barba no livro “A Canoa de Papel: tratado de Antropologia Teatral”.

7 de janeiro de 2022

Ainda estamos aqui




Diário do último ato, 2019. 

Existe uma luz que nunca se apaga. Ela é o brilho no olhar das pessoas que compartilham de um mesmo espaço, quando algo acontece em conjunto, presentes, verdadeiramente. Esse brilho pode ser de vivacidade, alegria, gargalhadas, mas também pode ser de lágrimas, de lembranças não tão boas, de empatia com a solidão própria e alheia, com a nossa condição de humanos frágeis, e quando juntos, mais fortes.

Existe uma luz que nunca se apaga, e para enxergá-la não precisa de refletores caros, espaços elitizados, autorizações. Essa luz é algo que acontece de dentro para fora, faz com que por um momento haja um sentido, e assim, vivos, sentindo, temos coragem para prosseguir.
Esse ano, desejo estar mais próxima novamente, na troca de tantos olhares que nutrem as esperanças que por vezes eu chego a perder, mas que as resgato novamente, a cada apresentação.
Ainda estamos em um cenário incerto, que precisamos de muito cuidado, mas sei que será possível, com calma, devagar, retomar encontros tão essenciais em uma sociedade cada vez mais individualista e distante.
Que venha 2022. Ainda estamos aqui, e seguimos por todas e todos que já se foram.
(Ana Cecilia Reis)