Dando continuidade aos escritos sobre a criação do espetáculo “Diário do último ato” (o primeiro pode ser lido aqui), hoje gostaria de compartilhar uma técnica que utilizamos para maior controle das nuances das emoções apresentadas no texto.
A dramaturgia parte dos escritos pessoais de Florbela Espanca, organizados e “costurados” por Ronaldo Ventura. Nesses solilóquios dos últimos momentos da personagem antes de se matar, trabalhamos com estados de transição do luto. Por exemplo: Raiva, Barganha, Depressão, Aceitação...
Ronaldo pediu que eu escolhesse em quais momentos eu gostaria de trabalhar esses sentimentos no texto e criar uma respiração específica para cada um deles.
Ronaldo pediu que eu escolhesse em quais momentos eu gostaria de trabalhar esses sentimentos no texto e criar uma respiração específica para cada um deles.
Você já parou para analisar como fica a sua respiração quando você está dominada pela raiva, pelo desânimo, quando está tentando negociar algo, ou na expectativa da chegada de alguém que você está apaixonada? É muito interessante olhar para dentro e investigar o ritmo dessa respiração, ela chega até a ter temperaturas diferentes! E a partir disso, como você costuma falar nesses estados? Cada respiração te dará um tom, uma musculatura facial e uma energia para trabalhar com as palavras que irá reverberar nos seus movimentos corporais.
É importante perceber o quanto a respiração pode colorir um texto, e servir também como um “energético” para os movimentos. Lembrando que é preciso investigar fundo, sem estereótipos, tentar rememorar essas sensações e sentir como você respira em determinadas situações. Existem pessoas que quando estão com muita raiva explodem e gritam, mas existem outras que se contêm e rangem os dentes, então, não existe um caminho único, e é preciso sempre trabalhar honestamente, sem se preocupar com efeitos cênicos, deixe isso para a direção posteriormente (mesmo que você mesma esteja se dirigindo). Como atuante, considero essas autodescobertas a parte mais preciosa do processo.
Através dessa consciência da respiração, você pode chegar à estágios muito orgânicos de atuação, sem se preocupar se “está” ou “não está” na personagem, pois a sua respiração não tem como mentir, e você pode exercitá-la sempre, resgatando essas sensações.
Voltando à minha experiência: a partir dessa conexão com o estado de respiração de cada etapa do luto, a dinâmica do texto pedia que eu falasse diretamente para o público, e a cada encontro com as pessoas, elas me davam o retorno através de seus olhares, disponibilidades e respostas à minha fala, que iam conduzindo minha própria emoção. Como se, por exemplo, a respiração depressiva pudesse ir para um lugar mais emotivo, choroso, ou mais frio, distante, ou ainda, mais terno, acolhedor, sempre a partir do contato com a resposta do (a) outro (a). Isso foi muito novo para mim como atriz, porque não havia "dosagem" de emoção pré-concebida, eu poderia me emocionar com mais ou menos intensidade em momentos diferentes, a depender da energia doada da plateia!
Bem, esse é o relato de hoje.
Lembrando que a Cia Plúmbea tem como objetivo a investigação das técnicas e da ética do ofício de atuar, estamos à disposição para conversar mais detalhadamente com quem tiver interesse em conhecer mais sobre os nossos processos, e espero que, em breve, possamos nos encontrar para praticar através de demonstrações de trabalho e oficinas.
Importante citar que esse processo foi conduzido pelo Ronaldo Ventura, grande parceiro em minha trajetória como atriz.
Até a próxima!
Beijos e abraços!
Foto: Guido Artes





