Pesquise o conteúdo deste blog!

28 de março de 2016

Inspirações...

"Precisamos do teatro?
Esta é a questão que é colocada por milhares de profissionais de teatro um tanto desapontados, e que milhões de pessoas que estão cansadas dessa arte perguntam a si mesmas.
Para que precisamos dele?
Em anos como esses em que a cena teatral parece tão insignificante quando comparada com as praças das cidades e com os territórios dos estados, os lugares onde as autênticas tragédias da vida real estão se desenrolando.
O que é o teatro para nós?
Galerias e balcões banhadas a ouro nas salas de teatro, poltronas de veludo, as sujas laterais dos palcos, as muito bem polidas vozes dos atores — ou algo que pode parecer, aparentemente, bem diferente: uma caixa preta, manchada de lama e sangue, com um monte de corpos nus e raivosos lá dentro.
O que é que o teatro é capaz de dizer?
Tudo!
O teatro pode nos dizer tudo.
Como os deuses habitam no céu, e como os prisioneiros definham em esquecidas cavernas subterrâneas, e como a paixão pode nos elevar, e como o amor pode ruir, e como ninguém necessita de uma pessoa de bem neste mundo, e como a decepção reina, e como as pessoas vivem em apartamentos enquanto as crianças murcham e definham em campos de refugiados, e como todos eles têm de voltar para o deserto, e como dia após dia somos todos forçados a nos separar daqueles que amamos. O teatro pode nos contar tudo.
O teatro sempre esteve aqui e permanecerá para sempre.
E agora, nestes últimos cinquenta ou setenta anos, ele é particularmente necessário.
Porque se você der uma olhada para todas as artes públicas, podemos ver imediatamente aquilo que só o teatro é capaz de nos dar: uma palavra de boca a boca, um olhar de olhos nos olhos, um gesto de mão para mão, e de corpo para corpo.
O teatro não precisa de nenhum intermediário para poder exercer a sua ação entre os seres humanos — ele constitui o lado mais transparente da luz, não pertencendo nem ao sul, nem ao norte, nem ao leste ou ao oeste —, ah não, ele é a essência da luz em si mesma, brilhando de todos os quatro cantos do mundo, imediatamente reconhecível por qualquer pessoa, seja hostil ou amistosa em relação a ele.
E precisamos de um teatro que permaneça sempre diferente; precisamos de teatro dos mais diferentes tipos.
Ainda penso que entre todas as formas e moldes possíveis de teatro, as suas formas mais arcaicas serão aquelas que se provarão mais necessárias, de maior demanda. O teatro de formas rituais não deve ser artificialmente oposto ao das designadas nações “civilizadas”. A cultura secular está agora cada vez mais emasculada, e nela a chamada "informação cultural" gradualmente substitui e expulsa de si as entidades portadoras de singularidade, assim como a nossa esperança de um dia poder vir a conhecê-las.
Mas uma coisa eu posso ver agora claramente: O teatro está abrindo as suas portas de modo amplo. Entrada gratuita para todos sem exceção.
Para o inferno com gadgets e computadores — simplesmente venham ao teatro; ocupem filas inteiras nas bancadas e nas galerias, ouçam a palavra e contemplem as imagens vivas! É o teatro que está à sua frente, não o negligenciem nem desperdicem a oportunidade de participar nele — talvez seja a oportunidade mais preciosa que podemos partilhar nas nossas vidas vãs e apressadas.
Precisamos de todo e cada tipo de teatro.
Há apenas um teatro de que ninguém por certo sentirá falta — refiro-me ao teatro dos jogos políticos, o teatro das armadilhas políticas, o teatro dos políticos, o teatro fútil da política.
Do que nós certamente não necessitamos é de um teatro de terror diário — seja ele individual ou coletivo —, o que não precisamos mesmo é do teatro de cadáveres e de sangue nas ruas e nas praças, nas capitais ou nas províncias, um teatro falseado de confrontos entre religiões ou grupos étnicos…"
Anatoli Vassiliev


21 de março de 2016

Inspirações...

"Uma palavra vem sempre rodeada de emoções não-definidas,
 de tecidos esfiapados de afetos, de esboços, de movimentos corporais, de vibrações mudas de espaço. 

Forma-se uma atmosfera não-verbal que rodeia toda a linguagem."

José Gil 



Imagem: Caderno de Antonin Artaud

14 de março de 2016

Teaser de Terrabatida

Vejam o teaser do espetáculo Terrabatida: Reminiscência de Canudos editado pelo Pedro Martins e conheçam um pouquinho do espetáculo. Estamos aquecendo os motores para nossa temporada!




7 de março de 2016

Estreia oficial de Terrabatida no Rio de Janeiro!

Estamos pulando de alegria!

Fomos contemplados no edital de ocupação Cena Aberta da FUNARTE, e do dia 18 a 29 de maio estaremos em temporada no teatro Glauce Rocha com o espetáculo Terrabatida: Reminiscência de Canudos

2016 vem com tudo!


Foto por João Lima. 

29 de fevereiro de 2016

Rayuela no FRINGE + novo teaser

Já estamos oficialmente no site do FRINGE, Festival de Teatro de Curitiba. Nossa apresentação será no dia 24 de março, às 15h, no TEUNI. Confiram em: http://festivaldecuritiba.com.br/evento/rayuela/

Para comemorar compartilhamos um teaser lindo que ganhamos de presente do Pedro Martins:






22 de fevereiro de 2016

Estudos...

"Está se tornando mais e mais difícil, até sem sentido, para mim, escrever num inglês oficial. E, mais e mais, minha própria língua me parece como um véu que precisa ser rasgado para chegar às coisas (ou ao Nada) por trás dele. (...) Tomara que chegue o tempo, graças a Deus que em certas rodas já chegou, em que a linguagem é mais eficientemente empregada quando mal empregada. Como não podemos eliminar a linguagem de uma vez por todas, devemos pelo menos não deixar por fazer nada que possa contribuir para a sua desgraça. Cavar nela um buraco atrás do outro, até que aquilo que está a sua espreita por trás – seja isso alguma coisa ou nada – comece a atravessar; não consigo imaginar um objetivo mais elevado para um escritor hoje."

Samuel Beckett





15 de fevereiro de 2016

Diário de trabalho: sobre as impressões da pré-estreia de Terrabatida (por Ana Cecilia Reis)

Certa vez participei de uma conversa sobre Ética, em uma aula, onde o professor perguntou: “o que é o sucesso de um trabalho?”. Nunca mais me esqueci dessa questão. Para mim não pareceu tão simples respondê-la. Sentir-me bem sucedida com o teatro que eu faço não estava ligado a ganhar muito dinheiro (embora seja sempre bem-vindo), ou a cair no deslumbramento unânime da plateia. Também não tinha intenção de ser famosa. Então, qual o sucesso que eu almejava em um trabalho? 

Sempre fui o tipo de atriz que saía do palco achando que poderia fazer mais, que tudo poderia ser melhor. Raras foram as vezes em que me senti plena após um trabalho, que me senti realmente conectada com o que me propus a fazer. Meu senso crítico me escravizava, e a sensação de limitação sempre deixava um gosto amargo pós-apresentação, e mais ainda ao ver o registro do trabalho. 

Se envelhecer tem seus méritos, um deles é a experiência que se ganha, a experiência que vamos nos permitindo ganhar. Parafraseando Hilda Hilst: “Sinto-me livre para fracassar”. Hoje sinto-me livre para fracassar porque percebo que a minha busca é outra. Porque só me interessa trabalhar no risco, me expor, me expandir. E estar no palco é um abismo no qual toda a técnica tão essencial que adquiro na sala de ensaio se transforma em outra coisa em conexão com o outro, com o ar, com o acaso, e é nessa perda total de controle que sinto que as coisas podem ser mágicas, e que a mágica acontece de forma diferente para cada um (e às vezes também não acontece, e tudo bem).

Tudo isso para dizer, que após estrear um trabalho no qual venho me dedicando há dois anos, e conversar com o público composto de amigos, ter o retorno da sua recepção, inicialmente me veio aquele velho gostinho de autocrítica de “puxa, poderia ter sido melhor, não tenho tanto controle sobre isso como eu gostaria”, mas por outro lado, assumir isso é ganhar uma liberdade e uma maturidade muito necessária. Ouvir as diferentes opiniões sobre o trabalho, a dramaturgia, as escolhas espaciais, fizeram com que eu ampliasse o meu olhar enfurnado em uma sala de ensaio há muito tempo. Convidar amigos para colaborar no trabalho, para reconstruir e reorganizar algumas coisas pode ser um pouco doloroso no início, por causa do apego às nossas ideias, mas por outro lado é uma nova energia que chega, uma energia que só é possível no momento da primeira exposição, do assumir-se inacabado, processo: “isso é o que eu sou, onde estou, eu me mostro para você e você se mostra para mim a partir disso”.

Ainda não sei dizer se a peça é/foi um sucesso, e não é com isso que me preocupo. Agora a nova fase é reorganizar algumas ideias a partir das observações, expandir o trabalho, perceber se o que queremos provocar está acontecendo e quais são as formas de potencializar isso. É importante também conquistar meios para que o trabalho seja feito de forma mais calma, sem afobação, porque temos uma pequena equipe que fica muito sobrecarregada, e ter recursos financeiros para o trabalho acontecer melhor é fundamental.


 Quando colocamos que a Cia Plúmbea é uma companhia que pesquisa técnica e ética do ofício de ator, não é somente para que isso fique bonito em algum edital, mas é uma busca verdadeira, de fazer com que os projetos sejam vivenciados verdadeiramente através dessas duas premissas: um trabalho árduo e consciente e muito respeito por todos. Enquanto isso acontecer, enquanto houver quem confie em mim e queira estar perto, enquanto houver alguém na plateia que vibra (em algum lugar, de alguma forma) ao nos ver, enquanto tivermos energia para nunca desistir, isso é um sucesso para mim! Parece então que a pergunta está respondida, pelo menos por enquanto.


Foto do debate por Pedro Martins