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15 de fevereiro de 2016

Diário de trabalho: sobre as impressões da pré-estreia de Terrabatida (por Ana Cecilia Reis)

Certa vez participei de uma conversa sobre Ética, em uma aula, onde o professor perguntou: “o que é o sucesso de um trabalho?”. Nunca mais me esqueci dessa questão. Para mim não pareceu tão simples respondê-la. Sentir-me bem sucedida com o teatro que eu faço não estava ligado a ganhar muito dinheiro (embora seja sempre bem-vindo), ou a cair no deslumbramento unânime da plateia. Também não tinha intenção de ser famosa. Então, qual o sucesso que eu almejava em um trabalho? 

Sempre fui o tipo de atriz que saía do palco achando que poderia fazer mais, que tudo poderia ser melhor. Raras foram as vezes em que me senti plena após um trabalho, que me senti realmente conectada com o que me propus a fazer. Meu senso crítico me escravizava, e a sensação de limitação sempre deixava um gosto amargo pós-apresentação, e mais ainda ao ver o registro do trabalho. 

Se envelhecer tem seus méritos, um deles é a experiência que se ganha, a experiência que vamos nos permitindo ganhar. Parafraseando Hilda Hilst: “Sinto-me livre para fracassar”. Hoje sinto-me livre para fracassar porque percebo que a minha busca é outra. Porque só me interessa trabalhar no risco, me expor, me expandir. E estar no palco é um abismo no qual toda a técnica tão essencial que adquiro na sala de ensaio se transforma em outra coisa em conexão com o outro, com o ar, com o acaso, e é nessa perda total de controle que sinto que as coisas podem ser mágicas, e que a mágica acontece de forma diferente para cada um (e às vezes também não acontece, e tudo bem).

Tudo isso para dizer, que após estrear um trabalho no qual venho me dedicando há dois anos, e conversar com o público composto de amigos, ter o retorno da sua recepção, inicialmente me veio aquele velho gostinho de autocrítica de “puxa, poderia ter sido melhor, não tenho tanto controle sobre isso como eu gostaria”, mas por outro lado, assumir isso é ganhar uma liberdade e uma maturidade muito necessária. Ouvir as diferentes opiniões sobre o trabalho, a dramaturgia, as escolhas espaciais, fizeram com que eu ampliasse o meu olhar enfurnado em uma sala de ensaio há muito tempo. Convidar amigos para colaborar no trabalho, para reconstruir e reorganizar algumas coisas pode ser um pouco doloroso no início, por causa do apego às nossas ideias, mas por outro lado é uma nova energia que chega, uma energia que só é possível no momento da primeira exposição, do assumir-se inacabado, processo: “isso é o que eu sou, onde estou, eu me mostro para você e você se mostra para mim a partir disso”.

Ainda não sei dizer se a peça é/foi um sucesso, e não é com isso que me preocupo. Agora a nova fase é reorganizar algumas ideias a partir das observações, expandir o trabalho, perceber se o que queremos provocar está acontecendo e quais são as formas de potencializar isso. É importante também conquistar meios para que o trabalho seja feito de forma mais calma, sem afobação, porque temos uma pequena equipe que fica muito sobrecarregada, e ter recursos financeiros para o trabalho acontecer melhor é fundamental.


 Quando colocamos que a Cia Plúmbea é uma companhia que pesquisa técnica e ética do ofício de ator, não é somente para que isso fique bonito em algum edital, mas é uma busca verdadeira, de fazer com que os projetos sejam vivenciados verdadeiramente através dessas duas premissas: um trabalho árduo e consciente e muito respeito por todos. Enquanto isso acontecer, enquanto houver quem confie em mim e queira estar perto, enquanto houver alguém na plateia que vibra (em algum lugar, de alguma forma) ao nos ver, enquanto tivermos energia para nunca desistir, isso é um sucesso para mim! Parece então que a pergunta está respondida, pelo menos por enquanto.


Foto do debate por Pedro Martins 

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