Certa vez participei de uma conversa sobre Ética, em uma aula, onde o professor perguntou: “o que é
o sucesso de um trabalho?”. Nunca mais me esqueci dessa questão. Para mim não
pareceu tão simples respondê-la. Sentir-me bem sucedida com o teatro que eu
faço não estava ligado a ganhar muito dinheiro (embora seja sempre bem-vindo), ou
a cair no deslumbramento unânime da plateia. Também não tinha intenção de ser
famosa. Então, qual o sucesso que eu almejava em um trabalho?
Sempre fui o tipo de atriz que saía do palco achando que poderia fazer mais,
que tudo poderia ser melhor. Raras foram as vezes em que me senti plena após um
trabalho, que me senti realmente conectada com o que me propus a fazer. Meu
senso crítico me escravizava, e a sensação de limitação sempre deixava um gosto
amargo pós-apresentação, e mais ainda ao ver o registro do trabalho.
Se envelhecer
tem seus méritos, um deles é a experiência que se ganha, a experiência que
vamos nos permitindo ganhar. Parafraseando Hilda Hilst: “Sinto-me livre para
fracassar”. Hoje sinto-me livre para
fracassar porque percebo que a minha busca é outra. Porque só me interessa
trabalhar no risco, me expor, me expandir. E estar no palco é um abismo no qual toda a técnica tão essencial que adquiro na sala de ensaio se
transforma em outra coisa em conexão com o outro, com o ar, com o acaso, e é
nessa perda total de controle que sinto que as coisas podem ser mágicas, e que
a mágica acontece de forma diferente para cada um (e às vezes também não
acontece, e tudo bem).
Tudo isso para
dizer, que após estrear um trabalho no qual venho me dedicando há dois anos, e
conversar com o público composto de amigos, ter o retorno da sua recepção,
inicialmente me veio aquele velho gostinho de autocrítica de “puxa, poderia ter
sido melhor, não tenho tanto controle sobre isso como eu gostaria”, mas por
outro lado, assumir isso é ganhar uma liberdade e uma maturidade muito
necessária. Ouvir as diferentes opiniões sobre o trabalho, a dramaturgia, as
escolhas espaciais, fizeram com que eu ampliasse o meu olhar enfurnado em uma
sala de ensaio há muito tempo. Convidar amigos para colaborar no trabalho, para
reconstruir e reorganizar algumas coisas pode ser um pouco doloroso no início,
por causa do apego às nossas ideias, mas por outro lado é uma nova energia que
chega, uma energia que só é possível no momento da primeira exposição, do
assumir-se inacabado, processo: “isso é o que eu sou, onde estou, eu me mostro
para você e você se mostra para mim a partir disso”.
Ainda não sei
dizer se a peça é/foi um sucesso, e não é com isso que me preocupo. Agora a
nova fase é reorganizar algumas ideias a partir das observações, expandir o
trabalho, perceber se o que queremos provocar está acontecendo e quais são as
formas de potencializar isso. É importante também conquistar meios para que o trabalho seja feito
de forma mais calma, sem afobação, porque temos uma pequena equipe que fica
muito sobrecarregada, e ter recursos financeiros para o trabalho acontecer
melhor é fundamental.
Quando colocamos que a Cia Plúmbea é uma
companhia que pesquisa técnica e ética do ofício de ator, não é somente para
que isso fique bonito em algum edital, mas é uma busca verdadeira, de fazer com
que os projetos sejam vivenciados verdadeiramente através dessas duas
premissas: um trabalho árduo e consciente e muito respeito por todos. Enquanto
isso acontecer, enquanto houver quem confie em mim e queira estar perto,
enquanto houver alguém na plateia que vibra (em algum lugar, de alguma forma)
ao nos ver, enquanto tivermos energia para nunca desistir, isso é um sucesso
para mim! Parece então que a pergunta está respondida, pelo menos por enquanto.
Foto do debate por Pedro Martins
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