A seguir, alguns trechos do texto "Paradoxos da Arte Política" de Jacques Rancière, que pode ser encontrado no livro "O Espectador Emancipado"* :
"(...) Arte e política têm a ver uma com a outra como formas de dissenso, operações de reconfiguração da experiência comum do sensível. Há uma estética da política no sentido de que os atos de subjetivação política redefinem o que é visível, o que se pode dizer dele e que sujeitos são capazes de fazê-lo. Há uma política da estética no sentido de que novas formas de circulação da palavra, de exposição do visível e de produção dos afetos determinam capacidades novas, em ruptura com a antiga configuração do possível. Há, assim, uma política da arte que precede as políticas dos artistas, uma política da arte que precede as políticas dos artistas, uma política da arte como recorte singular dos objetos da experiência comum, que funciona por si mesma, independentemente dos desejos que os artistas possam ter de servir esta ou aquela causa. O efeito do museu, do livro ou do teatro tem a ver com as divisões de espaço e tempo e com os modos de apresentação sensível que instituem, antes de dizer respeito ao conteúdo desta ou daquela obra. Mas esse efeito não define nem uma estratégia política da arte como tal nem uma contribuição calculável da arte para a ação política.
"(...) Arte e política têm a ver uma com a outra como formas de dissenso, operações de reconfiguração da experiência comum do sensível. Há uma estética da política no sentido de que os atos de subjetivação política redefinem o que é visível, o que se pode dizer dele e que sujeitos são capazes de fazê-lo. Há uma política da estética no sentido de que novas formas de circulação da palavra, de exposição do visível e de produção dos afetos determinam capacidades novas, em ruptura com a antiga configuração do possível. Há, assim, uma política da arte que precede as políticas dos artistas, uma política da arte que precede as políticas dos artistas, uma política da arte como recorte singular dos objetos da experiência comum, que funciona por si mesma, independentemente dos desejos que os artistas possam ter de servir esta ou aquela causa. O efeito do museu, do livro ou do teatro tem a ver com as divisões de espaço e tempo e com os modos de apresentação sensível que instituem, antes de dizer respeito ao conteúdo desta ou daquela obra. Mas esse efeito não define nem uma estratégia política da arte como tal nem uma contribuição calculável da arte para a ação política.
Aquilo que se chama política da
arte, portanto, é o entrelaçamento de lógicas heterogêneas. Há, em primeiro
lugar, aquilo que se pode chamar “política da estética”, ou seja, o efeito no
campo político, das formar de estruturação da experiência sensível próprias a
um regime da arte. (...)
Ficção não é a criação de um mundo
imaginário oposto ao mundo real. É o trabalho que realiza dissensos, que muda os modos de apresentação sensível e as formas
de enunciação, mudando quadros, escalar ou ritmos, construindo relações novas
entre a aparência e a realidade, o singular e o comum, o visível e sua
significação. Esse trabalho muda as coordenadas do representável; muda nossa
percepção dos acontecimentos sensíveis, nossa maneira de relacioná-los com os
sujeitos, o modo como nosso mundo é povoado de acontecimentos e figuras. (...)
As formas da experiência estética
e os modos da ficção criam assim uma
paisagem inédita do visível, formas novas de individualidades e conexões,
ritmos diferentes de apreensão do que é dado, escalas novas. Não o fazem da
maneira específica da atividade política, que cria forma de enunciação coletiva
(nós). Mas formam o tecido dissensual no qual recortam as formas de construção
de objetos e as possibilidades de enunciação subjetiva próprias à ação dos
coletivos políticos. Enquanto a política propriamente dita consiste na produção
de sujeitos que dão voz aos anônimos, a política própria à arte no regime
estético consiste na elaboração do mundo sensível do anônimo, dos modos do isso e do eu, do qual emergem os mundos próprios do nós político. Mas, à medida que passa pela ruptura estética, esse
efeito não se presta a nenhum cálculo determinável.
(...)
A política da arte, portanto, não
pode resolver seus paradoxos na forma de intervenção fora de seus lugares no “mundo
real”. Não há mundo real que seja o exterior da arte. Há pregas e dobras do
tecido sensível do comum nas quais se jungem e desjungem a política da estética
e a estética da política. Não há real em si, mas configurações daquilo que é
dado como nosso real, como o objeto de nossas percepções, de nossos pensamentos
e de nossas intervenções. O real é sempre objeto de uma ficção, ou seja, de uma
construção no espaço no qual se entrelaçam o visível, o dizível e o factível. É
a ficção dominante, a ficção consensual, que nega seu caráter de ficção
fazendo-se passar por realidade e traçando uma linha de divisão simples entre o
domínio desse real e o das representações e aparências, opiniões e utopias. A
ficção artística e a ação política sulcam, fraturam e multiplicam esse real de
modo polêmico. O trabalho da política que inventa sujeitos novos e introduz
objetos novos e outra percepção dos dados comuns é também um trabalho
ficcional. Por isso, a relação entre arte e política não é uma passagem da
ficção para a realidade, mas uma relação entre duas maneiras de produzir
ficções. As práticas da arte não são instrumentos que forneçam formas de
consciência ou energias mobilizadoras em proveito de uma política que lhes seja
exterior. Mas tampouco saem de si mesmas para se tornarem formas de ação
política coletiva. Contribuem para desenhar uma paisagem nova do visível, do dizível
e do factível. Forjam contra o consenso outras formas de “senso comum”, formas
de um senso comum polêmico. "
* RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. tradução de Ivone C. Benedetti. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.
Na foto: Kazuo Ohno, co-criador do Butoh, dança performática que surgiu como forma de resistência cultural no Japão pós-guerra.






