Luís Otávio Burnier, no capítulo 3 do seu livro A arte de ator – da técnica à representação, descreve sua relação
com Carlos Simioni nos primeiros dias de treinamento:
“É sempre útil lembrar o
primeiro dia de trabalho. Ele é como sua impressão digital. Carlos Simioni,
jovem ator curitibano, com formação teatral “tradicional”, colocou-se diante de
mim vestido com um pequeno calção preto com listras brancas nas laterais e uma
camiseta branca. Seu olhar era interrogativo, como imagino deva ser o de um
pupilo diante de seu mestre (não que ele fosse um pupilo ou eu um mestre). “O
que faço?”, perguntou-me após um curto período de tempo. Olhei-o. Sua
disponibilidade e confiança eram surpreendentes. “Não sei. Faça!”, respondi.
Desnorteado pela minha resposta, Carlos moveu-se, aqueceu-se, estirou-se,
procurou, procurou, procurou caminhos, o que fazer, aos poucos fui
compreendendo que não se tratava de o que fazer, mas de como fazer. Dizia-lhe:
“Faça qualquer coisa, mas faça. Deixe-se levar pelas sensações de seu próprio
corpo, permita que ele o guie, o conduza. Não pense, faça”.
Os
meses que se seguiram foram muito difíceis para nós. Eu tinha um ator cuja
disponibilidade em se deixar fazer era extremamente generosa. Isso, por si só,
determinava uma certa qualidade em seu trabalho. Por mais que ele não soubesse
o que fazer, ele estava pleno, inteiro, diante de mim. Carlos não duvidava; ele
simplesmente acreditava e queria. Era uma “presença em estado puro”. (...)
Dentre esses fatores encontra-se a maneira como o ator está presente no que ele
faz, sua entrega plena ao próprio trabalho, à própria arte. A generosidade
determina a disponibilidade, que acarreta uma abertura e entrega.”
Lendo esse
trecho, percebemos que a ligação de confiança entre Burnier e Simioni foi
fundamental ao se depararem com um processo em que partem do “nada” sem um
objetivo definido que não o próprio fazer. E é essa disponibilidade dos dois de
navegar em um território desconhecido, com infinitas possibilidades, que geraram
as sementes da árvore Kelbilim, o cão da
divindade, primeiro espetáculo do LUME.
Para que um exercício se desenvolva de maneira
verdadeira, é necessário que a disposição para se estar nele seja total. Percorrer
caminhos nebulosos exige mais do que nunca o exercício da nossa vontade sobre
ele.
Nos treinamentos da Cia Plúmbea, constantemente
passamos por experiências que nos levam para lugares não planejados. Também
muitas vezes ficamos inseguros com o que não dominamos, às vezes com o vício de
buscar uma “acertividade” perante nossas escolhas. Essa “acertividade” é
importante em exercícios físicos, tecnicamente definidos e fechados, que fazem
parte de um treinamento capacitatório de resistência e habilidades, como por
exemplo biomecânica, ou posturas-base de
dança. Porém, em exercícios mais lúdicos e livres, nosso entendimento racional
de “acerto” e “erro” não é bem vindo.
Para que surjam potências, é necessário trabalhar o
dissenso, nos aprofundarmos no que tememos, no que não vemos. Escutar e olhar
para o que já foi tantas vezes olhado. E olhar novamente. Só assim poderemos perceber um valioso detalhe. “Aprender a aprender”, como nos ensina Eugênio
Barba...
Todos os exercícios nos provocam deslocamentos,
novas experiências, modificações. Nenhum exercício é um desperdício; todos
podem ser explorados de diversas formas, readequados, revisados, reutilizados
para nossos objetivos. É através da disciplina que nos tornamos livres. E só
podemos nos dedicar de verdade quando acreditamos de corpo e alma na
integridade do nosso fazer.
Foto da demonstração de trabalho da Cia Plúmbea no evento "Encena - Desvendando o Processo"
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