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1 de novembro de 2020

Diário do último ato vencedor do Prêmio Maestro Guerra Peixe 2020

 É com muita honra e alegria que recebemos o Prêmio Maestro-Guerra Peixe de Cultura 2020!

Quando a Cia Plúmbea foi fundada, em 2013, seu principal interesse era o trabalho continuado, apresentar peças que partissem de uma pesquisa e que possuíssem uma identidade, sem perder de vista a comunicação com o público, partindo de temas, imagens, dramaturgias e personagens que merecessem um tempo em comum compartilhado.
Que felicidade receber esse reconhecimento da cidade com um trabalho que fala de uma mulher tão gigante e transbordante como Florbela Espanca.
Em tempos de isolamento, a iniciativa de seguir com a premiação de forma online foi um momento de união, de afeto, e toda a transmissão foi encaminhada com muito carinho, capricho e sensibilidade! Obrigada à toda a organização por isso!
Agradecimentos ao Centro Nacional de Cultura de Portugal, que tornou essa produção possível, à Casa de Cultura Claudio de Souza, por abraçar a nossa estreia, à Mostra de Teatro de Petrópolis, que nos convidou para fazer parte da programação, e assim possibilitou o acesso ao trabalho de mais integrantes da comissão julgadora, e à todos e todas que nos incentivam diariamente, nossos familiares, a tantos e tantas artistas que trocam referências conosco, que acreditam no trabalho coletivo, que passam “perrengue” sem esmaecer, que emprestam material e mão de obra, que correm atrás de seus sonhos, de mãos dadas, segurando entre os dentes a primavera!
Diário do último ato é um espetáculo feito por Ana Cecilia Reis, Ronaldo Ventura e Patricia Almeida, cada qual com sua especialidade, sem essa união, ele não seria o que é.
Nosso profundo agradecimento, parabéns à todos os trabalhos indicados e que a arte e a cultura petropolitana possam se fortalecer cada dia mais!






7 de setembro de 2020

Inspirações: Grotowski fala sobre o Teatro Laboratório

 "O que é para mim o Teatro Laboratório? 

Em princípio era um teatro. Depois era um laboratório. Agora é um lugar em que tenho a esperança de ser fiel a mim mesmo. É um lugar em que espero que cada um dos meus companheiros possa ser fiel a si mesmo. É um lugar em que o ato, os testemunhos dados pelo ser humano serão concretos e corpóreos. Onde não se pesquisa alguma ginástica artística, alguma surpresa acrobática, nem o training. Onde ninguém quer dominar o gesto para exprimir algo. Onde se quer ser descoberto, desvelado, nu; sincero com o corpo e com o sangue, com a inteira natureza do homem, com tudo aquilo que podem chamar como quiserem: intelecto, alma, psique, memória e coisas semelhantes. Mas sempre trangivelmente, por isso digo: de maneira corpórea, porque tangível. É o encontro, ir ao encontro, ser desarmado, não ter medo um do outro, em nada. Eis o que eu gostaria que fosse o Teatro Laboratório. E não é essencial que se chame de Laboratório, não é essencial se em geral for chamado de teatro. Um tal lugar é necessário. Se o teatro não existisse, encontraríamos um outro pretexto".

Jerzy Grotowski




31 de agosto de 2020

Teatro e Artes Visuais

As artes visuais podem servir de inspirações plásticas para criações cênicas. Elas podem estimular a criação de imagens e histórias, estados emocionais, movimentos, ritmos, etc.

Já tentou representar a sensação do amarelo em um quadro de Van Gogh?
Ou o sentimento azulado de um quadro de Hopper?
Já olhou para um quadro ou escultura e não conseguiu tirar os olhos? O que será que nos prende? Já tentou mimetizar corpos não realistas?
É possível começar a expandir o olhar e enxergar dramaturgia para muito além do texto escrito!



























Fotos: Cena de "Terrabatida: Reminiscência de Canudos" - inspirada na xilogravura de Adir Botelho e cena de "Diário do último ato" inspirada nas sensações de "Rooms by the Sea" de Edward Hopper.


21 de agosto de 2020

Das possíveis definições de teatro...

 

[…] teatro significa um tempo de vida em comum que atores e espectadores passam juntos no ar que respiram juntos daquele espaço em que a peça teatral e os espectadores se encontram frente a frente [...]. A representação teatral faz surgir a partir do comportamento no palco e na plateia um texto em comum, mesmo que não haja discurso falado. Desse modo, uma descrição pertinente do teatro está ligada à leitura desses textos em comum. (LEHMANN)


Foto: Guido Artes 

Espetáculo: Diário do último ato 

20 de julho de 2020

Inspirações...

"Caneta, sinto-me como em casa em sua tinta, dando uma pirueta, misturando as teias, deixando minha assinatura nos vidros da janela. Caneta, como pude alguma vez ter medo de você? Você não tem casa, mas é sua impetuosidade que me deixa apaixonada. Tenho que me livrar de você quando começar a ser previsível, quando parar de perseguir diabinhos. Quanto mais você me supera, mais eu a amo. É quando estou cansada, ou quando tomei muita cafeína ou vinho que você ultrapassa minhas defesas e digo mais do que pretendia. Você me surpreende, me choca quando revela alguma parte de mim que mantive em segredo de mim mesma."

Gloria Anzaldua


(Não encontramos a autoria da imagem, se souberem, entrem em contato ou informem nos comentários. Obrigada!) 

12 de julho de 2020

Lapsos processuais de enclausuramento (por Ana Cecilia Reis)

E se de repente, nossa vida se resumisse às memórias dos eventos que já vivemos? Nada de novo aconteceria mais. Nos encontraríamos e nosso maior prazer seria ficar relembrando, com o máximo de detalhes, todas as vezes que o acaso (ou o destino) nos pregou peças inesperadas, todas as vezes que perdemos as estribeiras, rimos, brigamos, nos deixamos levar pelas paixões, nos perdemos, nos encontramos, um tombo, a vergonha, uma vitória, o prêmio, o dia em que aquele conhecido apareceu no Jornal...
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Era sobre isso que eu pensava enquanto via os olhos de minha avó brilhando, enquanto contava sobre sua juventude. Assim é a vida de quem fica preso no passado, de quem vive pelas histórias, suas ou dos outros porque acha que tudo que passou sempre é mais colorido, feliz, verdadeiro, do que a realidade presente.
Os olhos de minha avó eram geralmente pálidos, aguados e voltados para o chão, pareciam estar para sempre presos à uma espécie de angústia, de não se reconhecer naquele quarto, naquele corpo. Sua voz e seu olhos só se acendiam quando ela encontrava alguém para falar sobre o seu passado. Então, como alguém que utiliza uma droga estimulante, ela era até capaz de dançar! (esquecia que suas pernas doíam, que sua coluna era frágil). Dançava, falava, cantava e ria, relembrando dos amigos e amores, que já partiram. Bastava pouco, bastava alguém perguntar. Mas era raro que alguém perguntasse. Eu mesma só perguntei agora. Presa aqui. Nesses dias iguais. Porque me vi também relembrando (a nostalgia não escolhe idade). Mas não durava muito. Logo a lembrança-vento atravessava o rosto de minha avó, percorria a sala e saía pela janela. Então, o silêncio gritado da televisão ou do rádio voltava a preencher o ambiente e a gravidade fazia seu papel, murchando as expressões.
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Não há nada para fazer. Há muito o que fazer. Não há por que planejar. Esse é o momento de planejar. Eu tenho todo o tempo do mundo. Tudo parece demorar.
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Minha avó me parece uma triste figura irônica e melancólica de um filme do Fellini. Minha avó é personagem de uma dramaturgia que jamais irei escrever.


Figura só - Tarsila do Amaral

1 de julho de 2020

Inspirações...

"Por que sou levada a escrever? Porque a escrita me salva da complacência que me amedronta. Porque não tenho escolha. Porque devo manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome. Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você. Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias. Escreverei sobre o não dito, sem me importar com o suspiro de ultraje do censor e da audiência. Finalmente, escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior de não escrever."
Glória Anzaldua