Pesquise o conteúdo deste blog!

7 de setembro de 2020

Inspirações: Grotowski fala sobre o Teatro Laboratório

 "O que é para mim o Teatro Laboratório? 

Em princípio era um teatro. Depois era um laboratório. Agora é um lugar em que tenho a esperança de ser fiel a mim mesmo. É um lugar em que espero que cada um dos meus companheiros possa ser fiel a si mesmo. É um lugar em que o ato, os testemunhos dados pelo ser humano serão concretos e corpóreos. Onde não se pesquisa alguma ginástica artística, alguma surpresa acrobática, nem o training. Onde ninguém quer dominar o gesto para exprimir algo. Onde se quer ser descoberto, desvelado, nu; sincero com o corpo e com o sangue, com a inteira natureza do homem, com tudo aquilo que podem chamar como quiserem: intelecto, alma, psique, memória e coisas semelhantes. Mas sempre trangivelmente, por isso digo: de maneira corpórea, porque tangível. É o encontro, ir ao encontro, ser desarmado, não ter medo um do outro, em nada. Eis o que eu gostaria que fosse o Teatro Laboratório. E não é essencial que se chame de Laboratório, não é essencial se em geral for chamado de teatro. Um tal lugar é necessário. Se o teatro não existisse, encontraríamos um outro pretexto".

Jerzy Grotowski




31 de agosto de 2020

Teatro e Artes Visuais

As artes visuais podem servir de inspirações plásticas para criações cênicas. Elas podem estimular a criação de imagens e histórias, estados emocionais, movimentos, ritmos, etc.

Já tentou representar a sensação do amarelo em um quadro de Van Gogh?
Ou o sentimento azulado de um quadro de Hopper?
Já olhou para um quadro ou escultura e não conseguiu tirar os olhos? O que será que nos prende? Já tentou mimetizar corpos não realistas?
É possível começar a expandir o olhar e enxergar dramaturgia para muito além do texto escrito!



























Fotos: Cena de "Terrabatida: Reminiscência de Canudos" - inspirada na xilogravura de Adir Botelho e cena de "Diário do último ato" inspirada nas sensações de "Rooms by the Sea" de Edward Hopper.


21 de agosto de 2020

Das possíveis definições de teatro...

 

[…] teatro significa um tempo de vida em comum que atores e espectadores passam juntos no ar que respiram juntos daquele espaço em que a peça teatral e os espectadores se encontram frente a frente [...]. A representação teatral faz surgir a partir do comportamento no palco e na plateia um texto em comum, mesmo que não haja discurso falado. Desse modo, uma descrição pertinente do teatro está ligada à leitura desses textos em comum. (LEHMANN)


Foto: Guido Artes 

Espetáculo: Diário do último ato 

20 de julho de 2020

Inspirações...

"Caneta, sinto-me como em casa em sua tinta, dando uma pirueta, misturando as teias, deixando minha assinatura nos vidros da janela. Caneta, como pude alguma vez ter medo de você? Você não tem casa, mas é sua impetuosidade que me deixa apaixonada. Tenho que me livrar de você quando começar a ser previsível, quando parar de perseguir diabinhos. Quanto mais você me supera, mais eu a amo. É quando estou cansada, ou quando tomei muita cafeína ou vinho que você ultrapassa minhas defesas e digo mais do que pretendia. Você me surpreende, me choca quando revela alguma parte de mim que mantive em segredo de mim mesma."

Gloria Anzaldua


(Não encontramos a autoria da imagem, se souberem, entrem em contato ou informem nos comentários. Obrigada!) 

12 de julho de 2020

Lapsos processuais de enclausuramento (por Ana Cecilia Reis)

E se de repente, nossa vida se resumisse às memórias dos eventos que já vivemos? Nada de novo aconteceria mais. Nos encontraríamos e nosso maior prazer seria ficar relembrando, com o máximo de detalhes, todas as vezes que o acaso (ou o destino) nos pregou peças inesperadas, todas as vezes que perdemos as estribeiras, rimos, brigamos, nos deixamos levar pelas paixões, nos perdemos, nos encontramos, um tombo, a vergonha, uma vitória, o prêmio, o dia em que aquele conhecido apareceu no Jornal...
.
Era sobre isso que eu pensava enquanto via os olhos de minha avó brilhando, enquanto contava sobre sua juventude. Assim é a vida de quem fica preso no passado, de quem vive pelas histórias, suas ou dos outros porque acha que tudo que passou sempre é mais colorido, feliz, verdadeiro, do que a realidade presente.
Os olhos de minha avó eram geralmente pálidos, aguados e voltados para o chão, pareciam estar para sempre presos à uma espécie de angústia, de não se reconhecer naquele quarto, naquele corpo. Sua voz e seu olhos só se acendiam quando ela encontrava alguém para falar sobre o seu passado. Então, como alguém que utiliza uma droga estimulante, ela era até capaz de dançar! (esquecia que suas pernas doíam, que sua coluna era frágil). Dançava, falava, cantava e ria, relembrando dos amigos e amores, que já partiram. Bastava pouco, bastava alguém perguntar. Mas era raro que alguém perguntasse. Eu mesma só perguntei agora. Presa aqui. Nesses dias iguais. Porque me vi também relembrando (a nostalgia não escolhe idade). Mas não durava muito. Logo a lembrança-vento atravessava o rosto de minha avó, percorria a sala e saía pela janela. Então, o silêncio gritado da televisão ou do rádio voltava a preencher o ambiente e a gravidade fazia seu papel, murchando as expressões.
.
.
.
.
.
Não há nada para fazer. Há muito o que fazer. Não há por que planejar. Esse é o momento de planejar. Eu tenho todo o tempo do mundo. Tudo parece demorar.
.
.
Minha avó me parece uma triste figura irônica e melancólica de um filme do Fellini. Minha avó é personagem de uma dramaturgia que jamais irei escrever.


Figura só - Tarsila do Amaral

1 de julho de 2020

Inspirações...

"Por que sou levada a escrever? Porque a escrita me salva da complacência que me amedronta. Porque não tenho escolha. Porque devo manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome. Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você. Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias. Escreverei sobre o não dito, sem me importar com o suspiro de ultraje do censor e da audiência. Finalmente, escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior de não escrever."
Glória Anzaldua

19 de junho de 2020

Diário de construção de um ato II: (breves relatos de processo por Ana Cecilia Reis)

Dando continuidade aos escritos sobre a criação do espetáculo “Diário do último ato” (o primeiro pode ser lido aqui), hoje gostaria de compartilhar uma técnica que utilizamos para maior controle das nuances das emoções apresentadas no texto.
A dramaturgia parte dos escritos pessoais de Florbela Espanca, organizados e “costurados” por Ronaldo Ventura. Nesses solilóquios dos últimos momentos da personagem antes de se matar, trabalhamos com estados de transição do luto. Por exemplo: Raiva, Barganha, Depressão, Aceitação...
Ronaldo pediu que eu escolhesse em quais momentos eu gostaria de trabalhar esses sentimentos no texto e criar uma respiração específica para cada um deles.
Você já parou para analisar como fica a sua respiração quando você está dominada pela raiva, pelo desânimo, quando está tentando negociar algo, ou na expectativa da chegada de alguém que você está apaixonada? É muito interessante olhar para dentro e investigar o ritmo dessa respiração, ela chega até a ter temperaturas diferentes! E a partir disso, como você costuma falar nesses estados? Cada respiração te dará um tom, uma musculatura facial e uma energia para trabalhar com as palavras que irá reverberar nos seus movimentos corporais.
É importante perceber o quanto a respiração pode colorir um texto, e servir também como um “energético” para os movimentos. Lembrando que é preciso investigar fundo, sem estereótipos, tentar rememorar essas sensações e sentir como você respira em determinadas situações. Existem pessoas que quando estão com muita raiva explodem e gritam, mas existem outras que se contêm e rangem os dentes, então, não existe um caminho único, e é preciso sempre trabalhar honestamente, sem se preocupar com efeitos cênicos, deixe isso para a direção posteriormente (mesmo que você mesma esteja se dirigindo). Como atuante, considero essas autodescobertas a parte mais preciosa do processo.
Através dessa consciência da respiração, você pode chegar à estágios muito orgânicos de atuação, sem se preocupar se “está” ou “não está” na personagem, pois a sua respiração não tem como mentir, e você pode exercitá-la sempre, resgatando essas sensações.
Voltando à minha experiência: a partir dessa conexão com o estado de respiração de cada etapa do luto, a dinâmica do texto pedia que eu falasse diretamente para o público, e a cada encontro com as pessoas, elas me davam o retorno através de seus olhares, disponibilidades e respostas à minha fala, que iam conduzindo minha própria emoção. Como se, por exemplo, a respiração depressiva pudesse ir para um lugar mais emotivo, choroso, ou mais frio, distante, ou ainda, mais terno, acolhedor, sempre a partir do contato com a resposta do (a) outro (a). Isso foi muito novo para mim como atriz, porque não havia "dosagem" de emoção pré-concebida, eu poderia me emocionar com mais ou menos intensidade em momentos diferentes, a depender da energia doada da plateia!
Bem, esse é o relato de hoje.
Lembrando que a Cia Plúmbea tem como objetivo a investigação das técnicas e da ética do ofício de atuar, estamos à disposição para conversar mais detalhadamente com quem tiver interesse em conhecer mais sobre os nossos processos, e espero que, em breve, possamos nos encontrar para praticar através de demonstrações de trabalho e oficinas.
Importante citar que esse processo foi conduzido pelo Ronaldo Ventura, grande parceiro em minha trajetória como atriz.
Até a próxima!
Beijos e abraços!
Foto: Guido Artes