"Por que sou levada a escrever? Porque a escrita me salva da complacência que me amedronta. Porque não tenho escolha. Porque devo manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome. Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você. Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias. Escreverei sobre o não dito, sem me importar com o suspiro de ultraje do censor e da audiência. Finalmente, escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior de não escrever."
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1 de julho de 2020
19 de junho de 2020
Diário de construção de um ato II: (breves relatos de processo por Ana Cecilia Reis)
Dando continuidade aos escritos sobre a criação do espetáculo “Diário do último ato” (o primeiro pode ser lido aqui), hoje gostaria de compartilhar uma técnica que utilizamos para maior controle das nuances das emoções apresentadas no texto.
A dramaturgia parte dos escritos pessoais de Florbela Espanca, organizados e “costurados” por Ronaldo Ventura. Nesses solilóquios dos últimos momentos da personagem antes de se matar, trabalhamos com estados de transição do luto. Por exemplo: Raiva, Barganha, Depressão, Aceitação...
Ronaldo pediu que eu escolhesse em quais momentos eu gostaria de trabalhar esses sentimentos no texto e criar uma respiração específica para cada um deles.
Ronaldo pediu que eu escolhesse em quais momentos eu gostaria de trabalhar esses sentimentos no texto e criar uma respiração específica para cada um deles.
Você já parou para analisar como fica a sua respiração quando você está dominada pela raiva, pelo desânimo, quando está tentando negociar algo, ou na expectativa da chegada de alguém que você está apaixonada? É muito interessante olhar para dentro e investigar o ritmo dessa respiração, ela chega até a ter temperaturas diferentes! E a partir disso, como você costuma falar nesses estados? Cada respiração te dará um tom, uma musculatura facial e uma energia para trabalhar com as palavras que irá reverberar nos seus movimentos corporais.
É importante perceber o quanto a respiração pode colorir um texto, e servir também como um “energético” para os movimentos. Lembrando que é preciso investigar fundo, sem estereótipos, tentar rememorar essas sensações e sentir como você respira em determinadas situações. Existem pessoas que quando estão com muita raiva explodem e gritam, mas existem outras que se contêm e rangem os dentes, então, não existe um caminho único, e é preciso sempre trabalhar honestamente, sem se preocupar com efeitos cênicos, deixe isso para a direção posteriormente (mesmo que você mesma esteja se dirigindo). Como atuante, considero essas autodescobertas a parte mais preciosa do processo.
Através dessa consciência da respiração, você pode chegar à estágios muito orgânicos de atuação, sem se preocupar se “está” ou “não está” na personagem, pois a sua respiração não tem como mentir, e você pode exercitá-la sempre, resgatando essas sensações.
Voltando à minha experiência: a partir dessa conexão com o estado de respiração de cada etapa do luto, a dinâmica do texto pedia que eu falasse diretamente para o público, e a cada encontro com as pessoas, elas me davam o retorno através de seus olhares, disponibilidades e respostas à minha fala, que iam conduzindo minha própria emoção. Como se, por exemplo, a respiração depressiva pudesse ir para um lugar mais emotivo, choroso, ou mais frio, distante, ou ainda, mais terno, acolhedor, sempre a partir do contato com a resposta do (a) outro (a). Isso foi muito novo para mim como atriz, porque não havia "dosagem" de emoção pré-concebida, eu poderia me emocionar com mais ou menos intensidade em momentos diferentes, a depender da energia doada da plateia!
Bem, esse é o relato de hoje.
Lembrando que a Cia Plúmbea tem como objetivo a investigação das técnicas e da ética do ofício de atuar, estamos à disposição para conversar mais detalhadamente com quem tiver interesse em conhecer mais sobre os nossos processos, e espero que, em breve, possamos nos encontrar para praticar através de demonstrações de trabalho e oficinas.
Importante citar que esse processo foi conduzido pelo Ronaldo Ventura, grande parceiro em minha trajetória como atriz.
Até a próxima!
Beijos e abraços!
Foto: Guido Artes
6 de junho de 2020
A questão que se coloca...
"O que é grave
É sabermos
que atrás da ordem deste mundo
existe uma outra
Que outra?
Não o sabemos.
O número e a ordem de suposições possíveis
neste campo
é precisamente
o infinito!
E o que é o infinito?
Não o sabemos com certeza.
É uma palavra que usamos
para designar
abertura
da nossa consciência
É sabermos
que atrás da ordem deste mundo
existe uma outra
Que outra?
Não o sabemos.
O número e a ordem de suposições possíveis
neste campo
é precisamente
o infinito!
E o que é o infinito?
Não o sabemos com certeza.
É uma palavra que usamos
para designar
abertura
da nossa consciência
diante da possibilidade
desmedida,
inesgotável e desmedida.
E o que é a consciência?
Não o sabemos com certeza.
É o nada.
Um nada
que usamos
para designar
quando não sabemos alguma coisa
e de que forma
não o sabemos
e então
dizemos
consciência,
do lado da consciência
quando há cem mil outros lados.
E então?
Parece que a consciência
está ligada
em nós
ao desejo sexual
e à fome.
Mas poderia
igualmente
não estar ligada
a eles.
Dizem,
é possível dizer,
há quem diga
que a consciência
é um apetite,
o apetite de viver:
e imediatamente
junto com o apetite de viver
o apetite da comida
imediatamente nos vem à mente;
como se não houvesse gente que come
sem o mínimo apetite;
e que tem fome.
desmedida,
inesgotável e desmedida.
E o que é a consciência?
Não o sabemos com certeza.
É o nada.
Um nada
que usamos
para designar
quando não sabemos alguma coisa
e de que forma
não o sabemos
e então
dizemos
consciência,
do lado da consciência
quando há cem mil outros lados.
E então?
Parece que a consciência
está ligada
em nós
ao desejo sexual
e à fome.
Mas poderia
igualmente
não estar ligada
a eles.
Dizem,
é possível dizer,
há quem diga
que a consciência
é um apetite,
o apetite de viver:
e imediatamente
junto com o apetite de viver
o apetite da comida
imediatamente nos vem à mente;
como se não houvesse gente que come
sem o mínimo apetite;
e que tem fome.
Pois isso também
existe:
os que tem fome
sem apetite;
e então?
Então
o espaço do possível
foi-me apresentado
um dia
como um grande peido
que eu tivesse soltado;
mas nem o espaço
nem a possibilidade
eu sabia exatamente o que fossem,
nem sentia necessidade de pensar nisso,
eram palavras
inventadas para definir coisas
que existiam
ou não existiam
diante da
premente urgência
de uma necessidade:
suprimir a idéia,
a idéia e seu mito
e no seu lugar instaurar
a manifestação tonante
dessa necessidade explosiva:
dilatar o corpo da minha noite interior,
do nada interior
do meu eu
que é noite,
nada,
irreflexão,
mas que é explosiva afirmação
de que há
alguma coisa
para dar lugar:
meu corpo.
Mas como,
reduzir meu corpo
existe:
os que tem fome
sem apetite;
e então?
Então
o espaço do possível
foi-me apresentado
um dia
como um grande peido
que eu tivesse soltado;
mas nem o espaço
nem a possibilidade
eu sabia exatamente o que fossem,
nem sentia necessidade de pensar nisso,
eram palavras
inventadas para definir coisas
que existiam
ou não existiam
diante da
premente urgência
de uma necessidade:
suprimir a idéia,
a idéia e seu mito
e no seu lugar instaurar
a manifestação tonante
dessa necessidade explosiva:
dilatar o corpo da minha noite interior,
do nada interior
do meu eu
que é noite,
nada,
irreflexão,
mas que é explosiva afirmação
de que há
alguma coisa
para dar lugar:
meu corpo.
Mas como,
reduzir meu corpo
a um gás fétido?
Dizer que tenho um corpo
porque tenho um gás fétido
que se forma em mim?
Não sei
mas
sei que
o espaço,
o tempo,
a dimensão,
o devir,
o futuro,
o destino,
o ser,
o não-ser,
o eu,
o não-eu
nada são para mim;
mas há uma coisa
que é algo,
uma só coisa
que é algo
e que sinto
por ela querer
SAIR:
a presença
da minha dor
do corpo,
a presença
ameaçadora
infatigável
do meu corpo;
e ainda que me pressionem com perguntas
e por mais que eu me esquive a elas
há um ponto
em que me vejo forçado
a dizer não,
NÃO
à negação;
e chego a esse ponto
Dizer que tenho um corpo
porque tenho um gás fétido
que se forma em mim?
Não sei
mas
sei que
o espaço,
o tempo,
a dimensão,
o devir,
o futuro,
o destino,
o ser,
o não-ser,
o eu,
o não-eu
nada são para mim;
mas há uma coisa
que é algo,
uma só coisa
que é algo
e que sinto
por ela querer
SAIR:
a presença
da minha dor
do corpo,
a presença
ameaçadora
infatigável
do meu corpo;
e ainda que me pressionem com perguntas
e por mais que eu me esquive a elas
há um ponto
em que me vejo forçado
a dizer não,
NÃO
à negação;
e chego a esse ponto
quando me pressionam,
e me apertam
e me manipulam
até sair de mim
o alimento,
meu alimento
e seu leite,
e então o que fica?
Fico eu sufocado;
e não sei que ação é essa
mas ao me pressionarem com perguntas
até a ausência
e a anulação
da pergunta
eles me pressionam
até sufocarem em mim
a idéia de um corpo
e de ser um corpo,
e foi então que senti o obsceno
e que
soltei um peido
de saturação
e de excesso
e de revolta
pela minha sufocação.
É que me pressionavam
ao meu corpo
e contra meu corpo
e foi então
que eu fiz tudo explodir
porque no meu corpo
não se toca nunca"
e me apertam
e me manipulam
até sair de mim
o alimento,
meu alimento
e seu leite,
e então o que fica?
Fico eu sufocado;
e não sei que ação é essa
mas ao me pressionarem com perguntas
até a ausência
e a anulação
da pergunta
eles me pressionam
até sufocarem em mim
a idéia de um corpo
e de ser um corpo,
e foi então que senti o obsceno
e que
soltei um peido
de saturação
e de excesso
e de revolta
pela minha sufocação.
É que me pressionavam
ao meu corpo
e contra meu corpo
e foi então
que eu fiz tudo explodir
porque no meu corpo
não se toca nunca"
Texto-poesia retirado de uma transmissão radiofônica - intitulada "PARA
ACABAR COM O JULGAMENTO DE DEUS" de Antonin Artaud
ACABAR COM O JULGAMENTO DE DEUS" de Antonin Artaud
Imagem: desenho de Antonin Artaud
25 de maio de 2020
Conservar a confiança de sua liberdade. Anotações mentais de uma quarentena (2)
Cuidado para não cair nas garras do capitalismo estético produtivista com suas pulsões artísticas. Estamos em uma pandemia, pessoas estão morrendo, outras passam fome e existem aquelas que não têm onde enterrar os seus mortos. Perceba se sua ideia de produção artística não é uma tentativa de surfar em uma onda mórbida, repetindo modelos que em outros momentos você criticaria. Que as ações partam de vontade própria e não de um olhar angustiante de não querer ficar para trás.
Estamos há pouco mais de dois meses parados. Você já levou muito mais tempo do que isso para produzir um espetáculo. Pense como uma oportunidade de se aprofundar em questões que nunca teve tempo antes. Estudar, pesquisar, fazer exercícios, ver vídeos de espetáculos, escrever, fazer uma reunião com aquela pessoa que você admira para vocês trocarem ideias, assistir à debates, enfim, inspirações para o presente e para criações futuras, tendo possibilidade de estar em um palco ou não. Acredite, as ideias virão, mas quanto mais você se pressionar, maior é a tendência à frustração. Esteja aberta para o que surgir, mas não procure desesperadamente. Fique confortável em não produzir nada. Foi você que determinou a sua profissão, não foi ela que moldou quem você é. Toda aquela força criativa de quem escolheu existir no mundo pela arte ainda está aí dentro, só está esperando você se afastar da pressão produtivista sistemática que engole à (quase) todos.
Permita-se estar em silêncio, que é diferente de estar silenciada. Para que novas e potentes coisas possam surgir elas precisam de distanciamento, elas precisam ser observadas de muitos ângulos, não é necessário saber absorver esse momento agora, o que é o hoje ou o que será o amanhã, porque ninguém, absolutamente ninguém sabe, e nesses momentos talvez seja necessário se perguntar o quanto você sabe do ontem. Ainda existe muito para se pensar sobre o ontem, sobre o já produzido. Você não teve tempo ainda de olhar, ou passou rápido demais por ele.
Eu gostaria muito de ter a capacidade de olhar com mais calma para as coisas. Eu ainda não sou capaz de devorar esse instante que eu não sei o que é. E eu não preciso ser. Eu não quero ser. É a potência do que eu posso não fazer. Eu confio na minha liberdade.
(Ana Cecilia Reis)
11 de maio de 2020
Uzume
Segue um trecho da apresentação do livro Corpos em fuga, corpos em arte por Renato Ferracini:
“Em algum lugar do Japão mítico, Amaterasu, deusa do Sol, enfurecida pelas travessuras do irmão, esconde-se em uma gruta e priva o mundo e os próprios deuses de sua luz divina. Uma reunião é realizada e muitos deuses vão até a gruta tentar dissuadir Amaterasu a sair para que o mundo conviva novamente com a luz. Alguns entoam canções sagradas, outros tocam instrumentos mágicos, mas Amaterasu está irredutível. A deusa Uzume, então, prende suas vestes, amarra uma faixa em torno da testa, sobre em um grande barril e começa a dançar e bater os pés. Com essa dança Uzume entra em êxtase e desnuda os seios e as partes íntimas. Nesse momento, os outros deuses, vendo a situação na qual se encontra Uzume, soltam uma grande gargalhada. Amaterasu sai da gruta para ver o que está acontecendo, trazendo sua luz novamente ao mundo e palavras sagradas impedem que ela retorne.
O corpo em êxtase, o corpo em dança, o corpo em ação restaura a luz”.
Uzume é a deusa da chuva, felicidade, dança e riso.
Deusa da felicidade que enfrenta períodos de dificuldade com serenidade.
Deusa da dança a qual representa a libertação dos limites.
Deusa do riso relaxando a si mesma e aos outros para os desafios da vida.
Desejamos que a alegria e a disposição encontre a todos nesse momento tão difícil.
Estamos juntxs!
5 de maio de 2020
Velhas indagações para novos projetos
Como nós, mulheres ocidentais, lidamos com nossos sentimentos atualmente? Fomos estimuladas na infância pelos contos de fadas a esperar um príncipe encantado e sermos competitivas umas com as outras, amedrontadas com a menstruação, com a possibilidade de engravidar na adolescência e ser renegada pela família, defendendo-nos dos assédios e atentas às ameaças de estupros vindos das ruas escuras na madrugada ou de dentro de nosso próprio lar, sem entender direito nossos corpos e nossas possibilidades de prazer, limitando nossos objetivos profissionais e priorizando dedicação plena aos relacionamentos amorosos e à aparência, etc... Passamos por tudo isso, e hoje buscamos a liberdade, a desconstrução. Mas onde guardamos nosso coração? Será que superamos as expectativas, esquecemos os traumas, ignoramos o tempo que passa e tira nossa aparência juvenil, grande característica que nos torna objeto de desejo e muitas vezes dita a nossa importância como presença no mundo?
Imagem: A filha do policial, de Paula Rego.
28 de abril de 2020
Haverá fundo nesse poço em que nos atiraram?
"Banalizada por força da pandemia, a morte descartável agride a nossa dignidade humana. São tétricas as cenas de corpos coletados por caminhões frigoríficos e coveiros vestidos como astronautas. Nem cães e gatos domésticos merecem igual tratamento.
Cinco séculos antes de Cristo, Sófocles tratou do tema em sua célebre peça de teatro, Antígona. Creonte, rei de Tebas, proibiu que Antígona sepultasse seu irmão Polinices. O governante queria que o corpo permanecesse exposto à voracidade de aves e cães. O horror visava a inibir os pretendentes ao trono, como mais tarde fariam os romanos com suas vítimas crucificadas no tempo de Jesus.
Antígona, levada à prisão, pôs fim à vida antes de saber que o sábio Tirésias convencera Creonte a libertá-la e permitir o sepultamento do corpo de Polinices. Tal como, cinco séculos depois, José de Arimateia convenceria Pilatos a consentir que ele desse túmulo ao corpo de Jesus descido da cruz.
Ao escárnio de ver seu irmão insepulto, Antígona preferiu morrer. Agora, ao nos obrigar a tratar os mortos como mero refugo, a pandemia mata em nós um dos mais fortes atributos da condição humana. A ponto de os povos indígenas insistirem em jamais abandonar a terra na qual sepultaram seus antepassados.
As imagens são lúgubres: corpos previamente encaixotados atirados em covas sem identificação, enquanto os entes queridos do falecido miram à distância, impedidos de se aproximar para o adeus definitivo, imobilizados pela força necrófila de Hades, o deus do reino dos mortos.
Na guerra, morre-se distante da família e muitos corpos são enterrados em locais ignorados. Porém, ao menos, em tempos de paz, as vítimas merecem um mausoléu do soldado desconhecido. Haverá um monumento em memória das vítimas da Covid-19? Ou serão relegadas ao esquecimento, transformadas em frios números nas estatísticas oficiais, como mortos desaparecidos? No Dia de Finados, onde depositar as flores em memória do ente querido falecido?"
Frei Betto
Imagem do espetáculo "A Arte de Enterrar seus Mortos", repertório da Cia Plúmbea, por Rodrigo Domit.
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