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11 de maio de 2020

Uzume

Segue um trecho da apresentação do livro Corpos em fuga, corpos em arte por Renato Ferracini:

“Em algum lugar do Japão mítico, Amaterasu, deusa do Sol, enfurecida pelas travessuras do irmão, esconde-se em uma gruta e priva o mundo e os próprios deuses de sua luz divina. Uma reunião é realizada e muitos deuses vão até a gruta tentar dissuadir Amaterasu a sair para que o mundo conviva novamente com a luz. Alguns entoam canções sagradas, outros tocam instrumentos mágicos, mas Amaterasu está irredutível. A deusa Uzume, então, prende suas vestes, amarra uma faixa em torno da testa, sobre em um grande barril e começa a dançar e bater os pés. Com essa dança Uzume entra em êxtase e desnuda os seios e as partes íntimas. Nesse momento, os outros deuses, vendo a situação na qual se encontra Uzume, soltam uma grande gargalhada. Amaterasu sai da gruta para ver o que está acontecendo, trazendo sua luz novamente ao mundo e palavras sagradas impedem que ela retorne.
O corpo em êxtase, o corpo em dança, o corpo em ação restaura a luz”.
Uzume é a deusa da chuva, felicidade, dança e riso.
Deusa da felicidade que enfrenta períodos de dificuldade com serenidade.
Deusa da dança a qual representa a libertação dos limites.
Deusa do riso relaxando a si mesma e aos outros para os desafios da vida.
Desejamos que a alegria e a disposição encontre a todos nesse momento tão difícil.
Estamos juntxs!


5 de maio de 2020

Velhas indagações para novos projetos

Como nós, mulheres ocidentais, lidamos com nossos sentimentos atualmente? Fomos estimuladas na infância pelos contos de fadas a esperar um príncipe encantado e sermos competitivas umas com as outras, amedrontadas com a menstruação, com a possibilidade de engravidar na adolescência e ser renegada pela família, defendendo-nos dos assédios e atentas às ameaças de estupros vindos das ruas escuras na madrugada ou de dentro de nosso próprio lar, sem entender direito nossos corpos e nossas possibilidades de prazer, limitando nossos objetivos profissionais e priorizando dedicação plena aos relacionamentos amorosos e à aparência, etc... Passamos por tudo isso, e hoje buscamos a liberdade, a desconstrução. Mas onde guardamos nosso coração? Será que superamos as expectativas, esquecemos os traumas, ignoramos o tempo que passa e tira nossa aparência juvenil, grande característica que nos torna objeto de desejo e muitas vezes dita a nossa importância como presença no mundo?


Imagem: A filha do policial, de Paula Rego.

28 de abril de 2020

Haverá fundo nesse poço em que nos atiraram?

"Banalizada por força da pandemia, a morte descartável agride a nossa dignidade humana. São tétricas as cenas de corpos coletados por caminhões frigoríficos e coveiros vestidos como astronautas. Nem cães e gatos domésticos merecem igual tratamento.
Cinco séculos antes de Cristo, Sófocles tratou do tema em sua célebre peça de teatro, Antígona. Creonte, rei de Tebas, proibiu que Antígona sepultasse seu irmão Polinices. O governante queria que o corpo permanecesse exposto à voracidade de aves e cães. O horror visava a inibir os pretendentes ao trono, como mais tarde fariam os romanos com suas vítimas crucificadas no tempo de Jesus.
Antígona, levada à prisão, pôs fim à vida antes de saber que o sábio Tirésias convencera Creonte a libertá-la e permitir o sepultamento do corpo de Polinices. Tal como, cinco séculos depois, José de Arimateia convenceria Pilatos a consentir que ele desse túmulo ao corpo de Jesus descido da cruz.
Ao escárnio de ver seu irmão insepulto, Antígona preferiu morrer. Agora, ao nos obrigar a tratar os mortos como mero refugo, a pandemia mata em nós um dos mais fortes atributos da condição humana. A ponto de os povos indígenas insistirem em jamais abandonar a terra na qual sepultaram seus antepassados.
As imagens são lúgubres: corpos previamente encaixotados atirados em covas sem identificação, enquanto os entes queridos do falecido miram à distância, impedidos de se aproximar para o adeus definitivo, imobilizados pela força necrófila de Hades, o deus do reino dos mortos.
Na guerra, morre-se distante da família e muitos corpos são enterrados em locais ignorados. Porém, ao menos, em tempos de paz, as vítimas merecem um mausoléu do soldado desconhecido. Haverá um monumento em memória das vítimas da Covid-19? Ou serão relegadas ao esquecimento, transformadas em frios números nas estatísticas oficiais, como mortos desaparecidos? No Dia de Finados, onde depositar as flores em memória do ente querido falecido?"
Frei Betto



Imagem do espetáculo "A Arte de Enterrar seus Mortos", repertório da Cia Plúmbea, por Rodrigo Domit.

20 de abril de 2020

Cinzas e diamantes



"Como uma chama alcatroada que queima
expandes em torno fagulhas crepitantes.
Sabes, ao menos, se ardendo, tornas-te livre,
ou se apressas o desastre de tudo aquilo que foi teu?
Se de ti restarás somente um punhado de cinzas
levadas embora pela tempestade, ou encontrar-se-á
no mais profundo das cinzas um diamante estrelado
promessa e penhor de vitória eterna?"

Cyprian Norwid

9 de abril de 2020

Aceitar a pausa teatral. Aprendizados de uma quarentena.

O fazer teatral só se justifica enquanto presença física. Não estou falando aqui das novas possíveis experimentações de linguagens dentro das Artes Cênicas, mas sim desse fazer que só se justifica enquanto criação, processo e resultado a partir do contato com o outro. O teatro tem uma coisa tão humana no seu fazer que se você filmá-lo ele se transforma em uma coisa completamente diferente, e, mesmo ainda sendo possível acompanhar a história ou proposta estética de uma montagem por vídeo, no fundo sabemos que estamos vendo um simulacro sem alma, porque é nessa estranha conexão presencial que a magia do teatro acontece. É assim que funciona.
Então, me deparo agora com essa grande pausa da pulsão que me move diariamente: Ensaios. Pesquisas. Encontros. Conversas. Espetáculos. Não consigo pensar em agir, porque também quero me permitir encontrar uma potência na não-ação. Ainda mais quando qualquer ação em sua maioria se resume ao virtual. Já faz tempo que me sinto sufocada de informação, de bate-papos, de “lives” de imagens, de vídeos, das redes sociais. E era exatamente nesses momentos que começava a me propor um resgate do palpável: imprimia fotos de minha última viagem, tentava ler livros com todas as telas desligadas, e claro, nunca parava de fazer teatro, a arte que mais precisa do contato e da presença real.
Esse não é um texto que vai dizer o que fazer justo no momento onde o encontro, que é a força que gera o meu trabalho, é a mais nociva para a transmissão do vírus. Poderia tentar ser útil aqui e ganhar alguns “likes” e parcerias dando dicas de livros, de composições, de dramaturgias, de projetos de pesquisa para uma possível graduação ou pós, mas nesses dias provavelmente isso já foi exaustivamente pensado e compartilhado.
Esse texto é só para que eu diga para mim, e para quem chegou até aqui, que está tudo bem pararmos (se você tem esse privilégio). Que está tudo bem não fazer nada nesse momento. Observar, abrir um baú de memórias do que já se foi feito. Permitir imaginar futuras trajetórias.
E é acreditando na impermanência do que se faz e se desfaz a cada momento, como ao assistir uma peça de teatro que jamais irá se repetir, que vamos passar por isso. Para voltar a ensaiar, a despertar risos e lágrimas nas pessoas, em nós. É essa pausa que permitirá uma reconexão com nós mesmas, por trás da correria, por trás da técnica e por trás das tantas máscaras e personas do dia-a-dia. Essa pessoa que mora dentro de nós, e que tanto deixamos de lado no cotidiano precisará voltar com mais força e mais atenção. Aceitem a pausa como quando ela aparece em uma boa cena, onde não temos pressa que ela acabe. Perceba o que ela diz, o que a compõe, o peso e a leveza que ela carrega. Não se sintam forçadas a produzir sem parar. Se forem agir, procurem uma ação verdadeira, que venha de uma vontade própria, sem se preocupar em agradar a plateia.
Beijos no coração,
Ana Cecilia Reis
(Diretora e atriz da Cia Plúmbea)

13 de março de 2020

Trechos: O Teatro e a Peste - Antonin Artaud

(...)
Se o teatro essencial é como a peste, não é por ser contagioso, mas porque, como a peste, ele é a revelação, a afirmação, a exteriorização de um fundo de crueldade latente através do qual se localizam num indivíduo ou num povo todas as possibilidades perversas do espírito. Assim como a peste, ele é o tempo do mal, o triunfo das forças negras que uma força ainda mais profunda alimenta até a extinção. Há nele, como na peste, uma espécie de estranho sol, uma luz de intensidade anormal em que parece que o difícil e mesmo o impossível tornam-se de repente nosso elemento normal.
(...)
O teatro, como a peste, é feito à imagem dessa carnificina, dessa essencial separação. Desenreda conflitos, libera forças, desencadeia possibilidades, e se essas possibilidades e essas forças são negras a culpa não é da peste ou do teatro, mas da vida. Não consideramos que a vida tal como é e tal como a fizeram para nós seja razão para exaltações. Parece que através da peste, e coletivamente, um gigantesco abscesso, tanto moral quanto social, é vazado; e, assim como a peste, o teatro existe para vazar abscessos coletivamente.
(...)
O teatro, como a peste, é uma crise que se resolve pela morte ou pela cura. E a peste é um mal superior porque é uma crise completa após a qual resta apenas a morte ou uma extrema purificação. Também o teatro é um mal porque é o equilíbrio supremo que não se adquire sem destruição. Ele convida o espírito a um delírio que exalta suas energias; e para terminar pode-se observar que, do ponto de vista humano, a ação do teatro, como a da peste, é benfazeja pois, levando os homens a se verem como são, faz cair a máscara, põe a descoberto a mentira, a tibieza, a baixeza, o engodo; sacode a inércia asfixiante da matéria que atinge até os dados mais claros dos sentidos; e, revelando para coletividades o poder obscuro delas, sua força oculta, convida-as a assumir diante do destino uma atitude heróica e superior que, sem isso, nunca assumiriam

Trechos do texto O teatro e a peste do livro O Teatro e o seu Duplo de Antonin Artaud.


Imagem: O Combate entre o Carnaval e a Quaresma de Pieter Bruegel

2 de fevereiro de 2020

Diário do último ato concorrendo ao Prêmio Guerra Peixe

O espetáculo "Diário do último ato" foi indicado ao Prêmio Maestro Guerra-Peixe, a principal premiação do setor de cultura da cidade de Petrópolis.
Agradecemos o reconhecimento e parabenizamos a equipe que realiza o evento anualmente!
E para quem ainda não viu o espetáculo, faremos mais duas apresentações no Rio de Janeiro, no Centro Cultural Parque das Ruínas, dias 08 e 09 de fevereiro